Após saques e incêndios na França, direita europeia cobra fronteiras fechadas

O partido de Le Pen quer mudar regras de cidadania, enquanto a AfD alemã pressiona por mais deportações.

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Chamas e fumaça negra em rua cercada por prédios, com grades metálicas e bicicletas caídas.
Incêndio durante os protestos na França, que levaram partidos da direita europeia a cobrar maior controle das fronteiras. | Foto: Mohammed Badra/EFE/EPA

Carros incendiados, saques e ataques a policiais e prédios públicos na França se tornaram o principal argumento de uma nova ofensiva política da direita europeia contra a imigração ilegal. Lideranças do Reino Unido, Alemanha, Espanha e Itália passaram a cobrar maior controle das fronteiras e deportações, apontando a violência nas ruas francesas como um alerta para o restante do continente.

Os confrontos se agravaram no sábado, 17 de outubro, depois que manifestações iniciadas em setembro por estudantes que reivindicavam melhorias na educação ganharam dimensão nacional. Até a quinta-feira (22), cerca de 2,7 mil pessoas haviam sido detidas, segundo o ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin. Mais de mil suspeitos foram apresentados à Justiça, e 217 estavam presos após condenações em julgamentos acelerados. O 40graus já havia noticiado os saques e ataques às forças de segurança durante os protestos.

Weidel alerta para risco de guerra civil; Farage quer impedir entradas pelo Canal da Mancha

Na Alemanha, Alice Weidel, copresidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), associou os distúrbios franceses à imigração em massa e ao extremismo de esquerda. Em publicação no X, na segunda-feira (19), fez um alerta sobre o risco de episódios semelhantes em seu país:

Aqui também, a perigosa mistura de imigração em massa e extremismo de esquerda ameaça provocar situações semelhantes às de uma guerra civil

Weidel defende a ampliação das deportações, a redução da entrada de estrangeiros e controles mais rígidos nas fronteiras. A AfD apareceu com 30% das intenções de voto em pesquisa do instituto INSA divulgada no dia 20, contra 18% da aliança conservadora CDU/CSU, do chanceler Friedrich Merz. A próxima eleição federal alemã está prevista para 2029.

No Reino Unido, Nigel Farage, líder do Reform UK, compartilhou imagens dos confrontos franceses nas redes sociais e advertiu que outros países poderiam enfrentar situações semelhantes. Ele cobra do governo trabalhista medidas para impedir travessias irregulares pelo Canal da Mancha e facilitar a deportação de estrangeiros sem autorização para permanecer em território britânico.

A pressão também chegou à Espanha e à Itália. Santiago Abascal, presidente do Vox, passou a utilizar a violência na França em sua campanha para as eleições espanholas de 29 de novembro, acusando setores da esquerda radical e grupos islamistas de ameaçar a Europa. Na Itália, Matteo Salvini, líder da Liga e vice-primeiro-ministro, fez associação semelhante. Após confrontos em Milão e Bolonha, a primeira-ministra Giorgia Meloni anunciou medidas para endurecer as punições a participantes de atos violentos.

No Parlamento Europeu, o italiano Nicola Procaccini, copresidente dos Conservadores e Reformistas Europeus, criticou políticas migratórias adotadas ao longo das últimas décadas e defendeu novos instrumentos de controle. Um debate de emergência realizado em 19 de outubro discutiu a violência na França, Itália e Bélgica.

Le Pen quer referendo para mudar cidadania e expulsar estrangeiros condenados

Na própria França, Marine Le Pen responsabiliza o governo Emmanuel Macron pela perda de controle da segurança e classifica a situação do país como um “caos migratório”. Seu partido, o Reagrupamento Nacional (RN), pretende levar a questão ao centro da eleição presidencial de 2027.

O presidente do RN, Jordan Bardella, anunciou que, em caso de vitória de Le Pen, uma das primeiras medidas seria convocar um referendo sobre imigração. A consulta incluiria o fim da concessão de cidadania pelo nascimento em território francês a filhos de estrangeiros, a expulsão de estrangeiros condenados por crimes e a prioridade a cidadãos franceses no acesso a determinados benefícios sociais.

O partido também pretende reforçar o controle das fronteiras e transferir parte da análise de pedidos de asilo para embaixadas e consulados franceses no exterior. As mudanças ainda são propostas políticas, condicionadas ao resultado eleitoral e aos procedimentos necessários para sua implementação.

A disputa se concentra especialmente em áreas como Seine-Saint-Denis, na periferia de Paris. Segundo o instituto francês de estatísticas Insee, nos anos de 2020 e 2021, 31,6% da população local era formada por imigrantes e outros 31,6% por filhos de imigrantes nascidos na França. No país inteiro, os imigrantes somavam aproximadamente 8 milhões de pessoas em 2025, ou 11,6% da população. Esses números demográficos, contudo, não comprovam participação desses grupos nos atos violentos.

Macron rejeita a associação direta entre imigração e os ataques. O governo francês atribui a violência principalmente a grupos de extrema esquerda e criminosos que se aproveitaram das manifestações. O eurodeputado Jean-Paul Garraud, do RN, anunciou que pretende solicitar ao Parlamento Europeu uma avaliação sobre a possibilidade de incluir organizações violentas identificadas pelas autoridades francesas na lista europeia de grupos terroristas.

União Europeia emitiu 110 mil ordens de saída, mas registrou 36 mil retornos

A dificuldade para retirar estrangeiros sem autorização de permanência aparece nos dados oficiais. No segundo trimestre de 2026, os países da União Europeia emitiram 110.335 ordens de saída para cidadãos de países terceiros, segundo o Eurostat. No mesmo período, foram registrados 36.825 retornos a países de fora do bloco. Os dois totais são indicadores do mesmo trimestre, mas não representam necessariamente as mesmas pessoas.

A diferença é particularmente expressiva na França, que liderou o número de ordens de saída, com 32.420 decisões, enquanto registrou 3.825 retornos no trimestre. A distância entre determinações administrativas e saídas efetivas é um dos principais argumentos utilizados pelos partidos que defendem deportações mais rápidas.

A União Europeia já colocou em vigor, em junho, o novo Pacto de Migração e Asilo, com verificações de segurança mais rigorosas nas fronteiras externas e procedimentos para acelerar determinadas solicitações de proteção internacional. O Conselho da UE também aprovou regras destinadas a facilitar retornos, incluindo novas obrigações de cooperação com autoridades migratórias e a possibilidade de centros em países de fora do bloco, mediante acordos.

Governos nacionais também adotaram medidas próprias. A Alemanha prorrogou os controles nas fronteiras terrestres até março de 2027, alegando imigração ilegal, tráfico de pessoas e pressão sobre seu sistema de asilo. A Polônia mantém fiscalizações nas divisas com Alemanha e Lituânia.

Na França, Macron anunciou em 22 de outubro novas restrições a manifestações consideradas ilegítimas e reforço policial diante dos protestos convocados para o sábado (24). O governo mantém a atribuição da violência a grupos radicais e criminosos, enquanto a direita europeia amplia a pressão por mudanças nas regras migratórias.

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