Com 90% do Orçamento comprometido, Lula enfrenta pressão por cortes

Dívida próxima de 83% do PIB aumenta a cobrança por medidas concretas no início do quarto mandato.

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Lula, de camisa azul, fala ao microfone com o dedo indicador erguido, cercado por pessoas e com uma bandeira do Brasil à frente.
Lula inicia o novo mandato sob pressão do mercado por cortes de gastos e controle da dívida pública. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começará seu quarto mandato, em janeiro de 2027, diante de uma cobrança que não poderá resolver apenas com novas promessas: colocar as contas públicas em ordem. Com cerca de 90% do Orçamento federal comprometido por despesas obrigatórias e a dívida próxima de 83% do Produto Interno Bruto (PIB), o presidente reeleito enfrenta pressão do mercado financeiro por um ajuste fiscal capaz de frear o endividamento.

O problema vem se acumulando há anos. O Brasil registra déficits quase ininterruptos desde 2014, enquanto a dívida segue em alta. A reação dos investidores à reeleição de Lula, marcada pela disparada do dólar e por forte queda da Bolsa, ampliou a cobrança por medidas que vão além de promessas de controle de gastos.

Juros altos podem agravar o peso da dívida

O cenário fica mais delicado porque quase metade da dívida brasileira está vinculada à taxa Selic. Quando os juros aumentam, o custo de uma parcela expressiva desse endividamento também sobe, tornando mais difícil equilibrar as contas. O avanço da dívida pública já colocou o indicador perto de 83% do PIB.

Sem uma mudança duradoura no ritmo das despesas, as projeções citadas na análise apontam que a dívida poderá ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos. A avaliação é de que medidas temporárias para elevar a arrecadação não serão suficientes para interromper essa trajetória.

Reformas podem atingir salário mínimo, benefícios e emendas

O governo terá pouco espaço para reduzir despesas sem enfrentar regras que determinam grande parte dos gastos federais. Entre as alternativas debatidas estão mudanças na correção do salário mínimo, nos pisos constitucionais da saúde e da educação e nas emendas parlamentares obrigatórias. A revisão de regras previdenciárias e de benefícios assistenciais também aparece entre as possibilidades.

São medidas que exigiriam negociações políticas difíceis e, em alguns casos, alterações constitucionais. O desafio é ainda maior diante das restrições do Orçamento de 2027, no qual a maior parte dos recursos já tem destinação determinada por lei.

Lula terá janela de 18 meses para buscar o ajuste

A estimativa apresentada é de que o governo disponha de aproximadamente 18 meses, entre janeiro de 2027 e meados de 2028, para tentar aprovar reformas mais difíceis. Depois desse período, a aproximação das eleições municipais tende a reduzir a disposição do Congresso para votar mudanças que envolvam restrições a benefícios e despesas públicas.

Se não conseguir aproveitar essa janela, Lula poderá entrar na segunda metade do mandato com menos espaço político para agir e a dívida ainda pressionando as contas. A cobrança central é por um plano que altere a trajetória dos gastos, e não apenas por novas fontes de receita.

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