Risco de calote das famílias chega ao maior nível desde 2012, aponta BC

Crédito problemático atinge 9,2% da carteira, enquanto 20,3 milhões de brasileiros são classificados como devedores de risco.

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Vista aérea da sede do Banco Central em Brasília, com torres de fachadas escuras, cercada por ruas, árvores e outros edifícios.
Sede do Banco Central, em Brasília; relatório da instituição aponta que o risco de calote das famílias chegou ao maior nível desde 2012. Foto: Raphael Ribeiro/BCB.

O risco de calote das famílias brasileiras alcançou o patamar mais elevado desde 2012, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira divulgado pelo Banco Central nesta terça-feira (27). Em junho de 2026, 9,2% do crédito concedido a pessoas físicas estava classificado como ativo problemático, categoria que reúne operações com atrasos superiores a 90 dias ou sinais de que não serão integralmente pagas.

O quadro é acompanhado por outro indicador preocupante: 20,3 milhões de brasileiros foram classificados pelo Banco Central como devedores de risco. Esse contingente representa 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional e supera em 75% o registrado em junho de 2021.

Para identificar essas pessoas, o BC considera fatores como atrasos nos pagamentos, comprometimento excessivo da renda e contratação de diferentes modalidades de crédito. As famílias de menor renda estão entre as mais afetadas pela deterioração das condições de pagamento.

A parcela da renda familiar destinada ao pagamento de dívidas também chegou ao maior patamar em 21 anos, conforme o relatório. O avanço desses indicadores amplia a preocupação com a capacidade dos brasileiros de manter seus compromissos financeiros em dia.

Cartão e empréstimos sem garantia concentram riscos elevados

O crédito pessoal sem desconto em folha e sem garantias apresentou uma das situações mais delicadas: quase 15% da carteira estava classificada como problemática. Apesar da proporção elevada, o índice permaneceu abaixo dos 16,5% registrados em 2016.

No cartão de crédito, os ativos problemáticos representavam 12,7% da carteira em junho, depois de terem alcançado 13,2% anteriormente. O financiamento de veículos registrou 8,5%, enquanto o crédito consignado apresentou 5%.

Considerando todas as operações de crédito destinadas às pessoas físicas, o indicador geral de ativos problemáticos recuou ligeiramente de 9,3% para 9,2%. A redução pontual, porém, não afastou o quadro de deterioração observado pelo Banco Central.

Mudança contábil responde por parte do aumento da inadimplência

O relatório também examinou os efeitos das regras contábeis adotadas pelas instituições financeiras a partir de janeiro de 2025. As mudanças alteraram a forma de reconhecimento das perdas com empréstimos e podem fazer com que operações problemáticas permaneçam registradas nos balanços por mais tempo.

Segundo estimativa do Banco Central, se os critérios anteriores continuassem em vigor, a taxa de inadimplência do sistema financeiro em junho estaria 0,78 ponto percentual abaixo da registrada. Essa diferença equivale a aproximadamente 45% da elevação de 1,76 ponto percentual acumulada desde dezembro de 2024.

Assim, a mudança metodológica explica parte do aumento registrado, mas não toda a deterioração. A autoridade monetária aponta que os atrasos efetivos nos pagamentos também contribuíram para o agravamento do indicador.

O quadro aprofunda a preocupação com o avanço da dívida e da inadimplência das famílias, já abordado pelo 40graus em alerta anterior do Banco Central. Para o segundo semestre de 2026, a instituição prevê que a pressão sobre a capacidade de pagamento continuará na maior parte das modalidades de crédito.

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