O mercado financeiro brasileiro amanheceu em pânico nesta segunda-feira (26), um dia depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No primeiro pregão após o segundo turno, o dólar chegou a disparar 12,25%, bateu R$ 5,604 e o Ibovespa despencou 17,13%, em um movimento de aversão que obrigou a B3 a interromper as negociações por 30 minutos.
O choque foi imediato. A vitória de Lula frustrou a aposta de investidores que esperavam uma mudança de rumo na política econômica a partir de 2027, com ajuste fiscal, contenção de gastos públicos, reformas e alívio sobre a trajetória da dívida brasileira. Em vez disso, o mercado respondeu com uma liquidação pesada de ativos, disparada cambial e forte queda da Bolsa.
Dólar salta mais de 12% e rompe a faixa de R$ 5,60
Por volta das 11h30, a moeda norte-americana subia 9,85% e era negociada a R$ 5,486. Mais cedo, pouco depois da abertura da sessão, o dólar saltou 12,25% e cravou R$ 5,604, atingindo o limite máximo de trava de negociação da B3. Na máxima do dia até aquele momento, a cotação foi a R$ 5,605; na mínima, a R$ 5,425.
O tamanho da virada escancara o impacto do resultado eleitoral sobre o humor do mercado. Na última sessão antes do segundo turno, na sexta-feira (24), o dólar havia fechado em queda de 0,9%, cotado a R$ 4,993. O movimento desta segunda-feira inverteu bruscamente a tendência e colocou o câmbio no centro da turbulência.
Ibovespa afunda 17% e Bolsa para por 30 minutos
No mercado acionário, o tombo foi igualmente severo. Às 11h30, o Ibovespa recuava 17,13%, aos 169.956,83 pontos. Na máxima do pregão até aquele momento, o índice marcou 205.088,73 pontos. Na mínima, caiu para 169.516,44 pontos.
Mais cedo, a B3 acionou o circuit breaker e suspendeu as negociações por 30 minutos. O mecanismo é usado em momentos de queda abrupta para conter o pânico e dar aos investidores tempo para reavaliar o cenário. O fato de ter sido necessário logo no primeiro pregão após a eleição mostra o tamanho da reação negativa à continuidade do governo petista.
Na sexta-feira anterior, o Ibovespa havia encerrado o pregão em alta de 0,47%, na faixa dos 205 mil pontos. Até então, a Bolsa acumulava ganhos de 10,06% em outubro e de 27,28% em 2026. O resultado desta segunda-feira interrompeu esse avanço com uma reversão violenta.
Desvalorização do real já aparecia no exterior durante a madrugada
Antes mesmo da abertura do mercado brasileiro, o real já sofria forte desvalorização no mercado futuro da CME, em Chicago. Por volta das 3h40, o contrato com vencimento em novembro de 2026 tombava 10,09%, enquanto o de dezembro recuava 9,79%, antecipando o choque que seria visto poucas horas depois no Brasil.
O pessimismo também havia sido mapeado antes da votação. Na sexta-feira (24), o Citi divulgou um levantamento com mais de 70 gestores de fundos de ações e multimercados. Em caso de vitória de Lula, cerca de 80% dos entrevistados projetavam queda superior a 5% no Ibovespa no pregão desta segunda-feira. Outros 63% indicavam possível desvalorização do real acima de 5% diante do dólar.
Queda atinge ativos brasileiros em Nova York e Tóquio
A aversão ao Brasil não ficou restrita ao mercado doméstico. Na noite de domingo (25), depois da confirmação do quarto mandato de Lula no Palácio do Planalto, ativos brasileiros negociados no exterior já registravam perdas pesadas.
O EWZ, fundo de índice negociado em Nova York e composto por ações de grandes empresas brasileiras, tombava 18,29% no pregão noturno, a US$ 34,80, com perda de US$ 7,79 em relação ao fechamento de sexta-feira. No Japão, o Next Funds Ibovespa Linked, principal fundo brasileiro negociado na Bolsa de Tóquio, caía 11,8%, cotado a 288 ienes.
Mercado apostava em Flávio e em uma guinada liberal na economia
Parte expressiva dos agentes econômicos esperava que uma vitória de Flávio Bolsonaro levasse a uma mudança de direção na economia brasileira a partir de janeiro de 2027. A aposta incluía ajuste fiscal, redução das despesas do governo, queda da dívida pública em relação ao PIB e avanço de uma agenda de reformas, como a administrativa e uma nova etapa da previdenciária.
Também havia expectativa de que uma política econômica mais austera abrisse espaço para redução da taxa básica de juros, a Selic, diante de um possível alívio inflacionário. A reeleição de Lula enterrou essa perspectiva e provocou uma resposta imediata dos investidores.
Com 51,79% dos votos válidos, o petista derrotou Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. Menos de 24 horas depois, o mercado transformou o resultado eleitoral em um recado claro: a continuidade do atual projeto econômico foi recebida com fuga de ativos, derretimento da Bolsa e disparada do dólar.
Analistas ainda consideravam provável uma intervenção do Banco Central no mercado de câmbio, com venda de dólares à vista para prover liquidez. Até o fim da manhã, porém, o dado mais eloquente já estava posto: o primeiro pregão após a reeleição de Lula virou um dia de pânico no mercado brasileiro.
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