O produtor musical Solano Ribeiro de Faria, um dos responsáveis por transformar os festivais da canção em fenômenos da televisão brasileira e projetar artistas como Elis Regina, morreu na madrugada deste sábado (31), aos 87 anos, em São Paulo. Ele enfrentava um câncer e recebia cuidados paliativos em uma clínica da capital paulista.
O velório foi marcado para a tarde deste sábado, das 15h às 17h, em Vargem Grande Paulista, na Grande São Paulo. A morte encerra a trajetória de um profissional que esteve nos bastidores de alguns dos momentos mais conhecidos da música popular brasileira.
O festival que consagrou Elis Regina
Em 1965, a convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, Solano produziu na TV Excelsior o primeiro Festival Nacional da Música Popular Brasileira. Foi naquele palco que Elis Regina conquistou o primeiro lugar interpretando Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.
A apresentação deu projeção nacional à cantora e ajudou a estabelecer o festival como uma vitrine para compositores e intérpretes. Décadas depois, Solano ainda recordava a parceria com Elis: em março de 2025, dedicou uma edição de seu programa na Rádio Cultura Brasil aos 80 anos de nascimento da artista, relembrando gravações e momentos da carreira dela.
De Chico Buarque às guitarras elétricas
Na TV Record, Solano organizou o festival de 1966, que terminou com um dos resultados mais lembrados da MPB: o empate entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros.
No ano seguinte, esteve à frente de outra edição histórica. Em um ambiente de disputas sobre os rumos da música brasileira, defendeu a presença de guitarras elétricas, instrumento rejeitado por parte dos músicos e críticos da época. O festival de 1967 foi vencido por Ponteio, de Edu Lobo e Capinan, e suas apresentações e conflitos inspiraram o documentário Uma Noite em 67, lançado em 2010.
O alcance dessas competições foi muito além da premiação. A televisão levou canções inéditas a milhões de brasileiros e abriu espaço para artistas que se tornariam referências nacionais, entre eles Chico Buarque, Elis Regina, Edu Lobo, Nara Leão e Geraldo Vandré.
Do rock à televisão e à descoberta de novos talentos
Antes de se dedicar aos festivais, Solano estudou arte dramática, cantou na banda de rock The Avallons e atuou no teatro, incluindo trabalhos ligados ao Teatro de Arena. Em 1969, durante a ditadura militar, foi para a Alemanha, onde dirigiu documentários sobre temas culturais, entre eles Gilberto Gil e o trabalho de Ruth Escobar.
De volta ao Brasil, realizou em 1972 o Festival Internacional da Canção, na TV Globo. Em 1976, na TV Tupi, produziu o festival vencido por Fagner com Quem me levará sou eu, composição de Dominguinhos. Solano também foi um dos sócios-fundadores da Rádio Antena 1, em São Paulo.
Em 2003, lançou o livro Prepare seu Coração: a História dos Grandes Festivais, dedicado aos bastidores das competições que ajudou a organizar. A partir de 2006, apresentou na Rádio Cultura Brasil o programa Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil, dedicado à divulgação de diferentes gerações de músicos.
Rádio Cultura presta homenagem e relembra seu legado
Em homenagem divulgada após a morte, a Rádio Cultura destacou a integridade do produtor, sua dedicação aos artistas e o papel que desempenhou na consolidação dos festivais. A emissora resumiu a despedida em uma mensagem: “A Rádio Cultura Brasil perde um profissional insubstituível. Gratidão eterna ao mestre Solano Ribeiro”.
Nos últimos anos, Solano também demonstrava preocupação com os caminhos da música brasileira. Em entrevista publicada em 2025, afirmou que “a MPB está morrendo” e criticou a falta de espaço para novos talentos, apesar da quantidade de músicos e compositores em atividade no país.
Era uma preocupação diretamente ligada à história que ajudou a construir: os festivais haviam oferecido a artistas desconhecidos a possibilidade de alcançar o grande público. Para Solano, as novas gerações já não encontravam a mesma exposição que havia impulsionado nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Comentários 0