Aos 84 anos, Milton Nascimento é celebrado por uma obra que mudou a música brasileira

Criado em Três Pontas, Bituca ganhou projeção com “Travessia”, ajudou a criar o Clube da Esquina e conquistou reconhecimento internacional.

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Milton Nascimento canta ao microfone e toca violão durante apresentação em 1978, em fotografia em preto e branco.
O cantor Milton Nascimento, em 1978, no Festival Internacional de Jazz de São Paulo. Foto: Arquivo O GLOBO.

Milton Nascimento completou 84 anos nesta segunda-feira (26) e recebeu homenagens de músicos de diferentes gerações. A celebração de Bituca vai além das mensagens de aniversário: sua história passa pelos conjuntos de baile de Três Pontas, pela projeção nacional de “Travessia”, pela criação do Clube da Esquina e por encontros que levaram sua música aos grandes nomes do jazz internacional.

Nascido no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1942, Milton cresceu em Três Pontas, no sul de Minas Gerais. Ainda jovem, começou a cantar em conjuntos de baile e desenvolveu uma parceria musical com Wagner Tiso. Mais tarde, em Belo Horizonte, conheceu os irmãos Borges e outros artistas que participariam de uma das experiências coletivas mais importantes da música brasileira.

De “Travessia” ao nascimento de uma voz inconfundível

A projeção nacional começou a se desenhar antes mesmo de Milton se tornar um nome conhecido do grande público. Em 1966, Elis Regina gravou “Canção do Sal”, abrindo espaço para que suas composições alcançassem novos ouvintes. No ano seguinte, “Travessia”, escrita com Fernando Brant, conquistou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção.

A apresentação revelou ao país um intérprete de extensão vocal extraordinária, capaz de passar de notas delicadas a momentos de grande intensidade. Mas Milton não se limitou à própria voz. Sua obra cresceu em diálogo permanente com compositores e instrumentistas, especialmente Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Márcio Borges e Wagner Tiso.

O primeiro disco foi lançado em 1967. Em 1968, o cantor gravou Courage nos Estados Unidos, dando início a uma relação com a música internacional que se aprofundaria nos anos seguintes.

Clube da Esquina transformou encontros em um marco da MPB

Em 1972, Milton Nascimento e Lô Borges lançaram o álbum duplo Clube da Esquina. O trabalho nasceu de um ambiente de convivência e criação coletiva em Belo Horizonte, reunindo músicos e letristas que misturavam rock, jazz, música brasileira e referências mineiras sem se prender às divisões tradicionais entre gêneros.

O disco apresentou canções como “Cais”, “O Trem Azul”, “Tudo o que Você Podia Ser” e “Nada Será Como Antes”. Ao lado de Milton e Lô, nomes como Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e os irmãos Borges ajudaram a construir o universo musical associado ao movimento.

O Clube da Esquina não ficou restrito a um único álbum. Em 1978, Clube da Esquina 2 ampliou aquela experiência, com a participação de artistas ligados à mesma geração, entre eles Flávio Venturini.

Na década de 1970, Milton também lançou trabalhos como Milagre dos Peixes (1973), Minas (1975) e Geraes (1976). Canções como “Maria, Maria”, “Canção da América” e “Coração de Estudante” ajudaram a levar seu repertório a públicos muito além dos que acompanhavam seus álbuns.

Uma carreira que encontrou os gigantes do jazz

A singularidade de sua música atraiu instrumentistas e intérpretes de outros países. Em 1975, Milton participou de Native Dancer, álbum do saxofonista norte-americano Wayne Shorter. O trabalho aproximou as composições brasileiras do jazz e se tornou um dos encontros mais conhecidos de sua carreira internacional.

Ao longo das décadas, o cantor também dividiu experiências musicais com artistas como Herbie Hancock e Sarah Vaughan. Seu reconhecimento chegou às grandes premiações: em 1998, venceu o Grammy de melhor álbum de world music com Nascimento.

Mais recentemente, o álbum Milton + esperanza, realizado com a cantora e contrabaixista Esperanza Spalding, recebeu indicação ao Grammy de melhor álbum vocal de jazz na edição de 2025. A parceria mostrou a continuidade de uma trajetória de encontros musicais, mesmo depois de sua despedida dos palcos.

Essa despedida ocorreu em novembro de 2022, quando a turnê A Última Sessão de Música terminou no Mineirão, em Belo Horizonte, diante do público que acompanhou o encerramento de sua carreira de apresentações.

Em outubro de 2025, Augusto Nascimento, filho do artista, confirmou publicamente que Milton havia recebido diagnóstico de demência por corpos de Lewy.

As homenagens aos 84 anos de Milton Nascimento

No aniversário, Djavan, João Bosco, Maria Gadú, Rogério Flausino, Frejat e Flávio Venturini estiveram entre os artistas que prestaram homenagens a Bituca nas redes sociais. A equipe de Milton também compartilhou fotografias de diferentes períodos de sua vida e carreira.

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