Caso Master: políticos fora dos indiciamentos e ministros do STF seguem sem investigação

Relatório aponta R$ 12,2 bilhões em créditos sem comprovação; investigações sobre ministros citados em possíveis vínculos com Vorcaro dependem de autorização do próprio Supremo.

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Daniel Vorcaro, de terno escuro e camisa branca, sentado à mesa e gesticulando diante de janelas com edifícios ao fundo.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, está entre os 15 nomes incluídos nos pedidos de indiciamento da PF. Foto: Ana Paula Paiva/Valor.

A Polícia Federal pediu o indiciamento de 15 pessoas no caso Banco Master, mas nenhum político ou autoridade dos três Poderes entrou na primeira lista. A ausência ocorre enquanto investigadores ainda tentam esclarecer quem teria dado sustentação às operações suspeitas entre o banco de Daniel Vorcaro e o Banco de Brasília (BRB). Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) associados ao ex-banqueiro também continuam sem investigação.

O relatório, entregue ao STF na quarta-feira (28), concentra-se na negociação de carteiras de crédito entre o Master e o BRB. De julho de 2024 a outubro de 2025, o banco de Vorcaro transferiu aproximadamente R$ 17,5 bilhões em créditos ao BRB. Para a PF, ao menos R$ 12,2 bilhões desse total correspondem a carteiras cuja existência não foi comprovada.

Entre os 15 nomes estão Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o ex-sócio do Master Augusto Lima. A PF aponta Vorcaro como líder da organização investigada e atribui a ele suspeitas de gestão fraudulenta, fraude em fiscalização, induzimento a erro e lavagem de dinheiro. As defesas dos três contestam as conclusões dos investigadores e negam participação nas irregularidades atribuídas a seus clientes.

As perícias encontraram sinais que ampliam a gravidade das suspeitas. Mais de um milhão de contratos, relacionados a 348 mil CPFs, apresentavam apenas 1.251 valores diferentes. Em uma amostra de cem cédulas de crédito bancário, os peritos não conseguiram comprovar a existência de nenhuma delas. A PF também apura a possível produção de documentos com datas retroativas para justificar a origem das carteiras.

O BRB reconheceu perdas de R$ 2,7 bilhões relacionadas ao caso. A investigação ainda procura identificar como os créditos foram recebidos e aprovados pelo banco público e se outras pessoas participaram das operações.

Seis ministros do STF foram citados, mas nenhum é investigado

A dimensão política do caso vai além dos indiciamentos. Os nomes de seis ministros do STF apareceram em questionamentos sobre relações pessoais, profissionais ou financeiras, diretas ou indiretas, com Vorcaro: Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli. Nenhum deles é alvo de investigação.

Entre os episódios revelados está um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes. Também surgiram relatos de possíveis mensagens entre Vorcaro e um número atribuído ao ministro, além de viagens em aeronaves ligadas ao ex-banqueiro. O escritório confirmou a contratação de serviços de táxi aéreo, mas negou vínculo pessoal com Vorcaro. Moraes negou ter se comunicado com o empresário e classificou as alegações como falsas.

No caso de Dias Toffoli, a PF encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, informações sobre transferências envolvendo uma empresa da família do magistrado e fundos ligados ao Master na aquisição de um resort. Toffoli deixou a relatoria da investigação em fevereiro de 2026, negou irregularidades e declarou suspeição para julgamentos relacionados ao caso.

Os questionamentos envolvendo os demais ministros têm origens distintas. O nome de Luiz Fux apareceu em contatos atribuídos a seu filho, que é advogado; o magistrado negou relação ou troca de mensagens com Vorcaro. Gilmar Mendes foi citado em razão da contratação de um ex-cunhado e do financiamento de eventos, mas negou irregularidades. Kassio Nunes Marques teve o nome associado a pagamentos ao filho advogado e negou manter relação financeira com o ex-banqueiro. André Mendonça confirmou um encontro com Vorcaro para tratar de precatórios, mas negou proximidade ou recebimento de benefícios.

Há uma particularidade institucional importante: a PF não pode indiciar ministros do STF por iniciativa própria, em razão das prerrogativas do cargo. Para investigar a atuação dos magistrados, seria necessário aval da própria Corte. Em setembro, o tribunal determinou procedimentos de certificação dos ministros citados, mas ainda não decidiu se autorizará a abertura de investigações sobre suas condutas.

Investigação ainda tem novas frentes abertas

A ausência de políticos na primeira lista não significa que todas as possíveis responsabilidades tenham sido esclarecidas. A PF trabalha em outras frentes, incluindo suspeitas de corrupção e eventual participação de agentes públicos na estruturação das operações.

O primeiro documento, com quase 700 páginas, também pede ao ministro André Mendonça mais 60 dias para concluir perícias e aprofundar análises de movimentações bancárias, informações fiscais e comunicações eletrônicas. A apuração já havia passado por um período de poucos avanços públicos desde julho, com adiamentos e remarcações de depoimentos.

Por enquanto, os pedidos de indiciamento se concentram nos envolvidos nas operações financeiras. A possível participação de autoridades e a extensão das relações entre Vorcaro e integrantes do poder público permanecem entre os pontos ainda não esclarecidos pela investigação.

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