Os ataques contra navios comerciais no Mar Negro transformaram a região em uma das rotas mais perigosas do mundo para quem trabalha no transporte marítimo. Pelo menos 30 marinheiros morreram ou desapareceram em uma sequência de ofensivas com drones que atingiram cargueiros e petroleiros durante outubro. Alguns dos ataques ocorreram a poucos quilômetros da costa de países que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A violência, associada à guerra entre Rússia e Ucrânia, deixou de se concentrar nos portos ucranianos e avançou sobre áreas próximas à Romênia e à Bulgária. Em apenas 24 dias, nove embarcações foram atingidas nas proximidades dos dois países, segundo levantamento da Associated Press.
A Rússia é apontada como responsável por diversos ataques contra navios ligados ao comércio ucraniano. A Organização Marítima Internacional (IMO), agência das Nações Unidas, também condenou nesta sexta-feira (6) as ofensivas russas contra embarcações mercantes e instalações portuárias. A autoria de cada incidente, porém, ainda não foi comprovada individualmente.
Marinheiros desaparecem após naufrágios no Mar Negro
Um dos episódios mais graves aconteceu em 6 de outubro, quando o cargueiro Alfa Watan afundou depois de ser atingido por um drone nas proximidades da Bulgária. Segundo levantamento da Reuters, 12 tripulantes foram dados como desaparecidos.
Uma semana depois, o HS Dignity também afundou perto da costa búlgara. Onze marinheiros desapareceram. As operações de resgate ocorreram em meio a condições difíceis no mar, enquanto outros navios continuavam expostos ao risco de novos ataques.
Em 15 de outubro, dois navios-tanque que transportavam produtos químicos foram atingidos nas proximidades do Canal de Sulina, importante ligação entre o Mar Negro e o rio Danúbio. As embarcações pegaram fogo, e sete marinheiros foram inicialmente dados como desaparecidos.
Os ataques continuaram até o fim do mês. Em 28 de outubro, três drones marítimos atingiram o porta-contêineres Contship Jet, que seguia em direção à Romênia. O navio afundou na zona econômica exclusiva da Bulgária, mas seus 18 tripulantes conseguiram escapar.
Ataques russos aumentam tensão nas fronteiras da Otan
A proximidade das ofensivas com a Romênia e a Bulgária provocou preocupação entre os aliados europeus. Os dois países fazem parte da Otan, e alguns incidentes já ocorreram em áreas sob sua jurisdição marítima.
A Romênia reforçou o patrulhamento de sua costa, enquanto a Bulgária passou a cobrar mais apoio para enfrentar drones aéreos e marítimos. A França também decidiu prolongar a permanência de uma aeronave de patrulha na região depois dos ataques a cargueiros.
O risco vai além das embarcações. Portos, instalações energéticas e rotas comerciais próximas às fronteiras da aliança estão expostos a uma guerra que se intensificou no Mar Negro.
Moscou não reconheceu a responsabilidade por todos os incidentes. Em alguns casos, o Ministério da Defesa russo afirmou que os navios atacados transportavam materiais militares ou de uso duplo destinados às forças ucranianas. Essas alegações não estabelecem, por si só, a natureza das cargas atingidas.
A Ucrânia também realizou ataques contra embarcações ligadas ao comércio russo. A troca de ofensivas ampliou a insegurança da navegação civil, embora autoridades e especialistas atribuam à Rússia uma parcela importante dos ataques recentes nas proximidades dos portos ucranianos.
Guerra ameaça exportações de alimentos da Ucrânia
Além das mortes e dos naufrágios, a escalada militar ameaça uma das principais rotas de exportação agrícola da Ucrânia. O país depende do Mar Negro para escoar grande parte de sua produção de trigo, milho e óleo de girassol.
Segundo dados do governo ucraniano divulgados pela CNN, as exportações de trigo caíram de 2,05 milhões de toneladas em setembro de 2025 para 1,09 milhão de toneladas no mesmo mês deste ano.
Parte da produção foi desviada para portos menores no rio Danúbio, na fronteira com a Romênia. Mas essas rotas alternativas também passaram a sofrer ataques, aumentando a dificuldade para transportar as cargas.
O agravamento da situação levou o Joint War Committee, responsável por avaliar riscos para o mercado de seguros marítimos de Londres, a ampliar a classificação de risco de guerra para praticamente todo o Mar Negro, com exceções para determinadas águas territoriais.
Com mais riscos e custos de seguro, transportar mercadorias pela região ficou mais caro. A situação preocupa países que dependem dos grãos ucranianos e empresas que precisam manter seus navios em circulação apesar da guerra.
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