Após reeleição de Lula, Ibovespa afunda 18% e ‘torra’ quase R$ 1 trilhão

Na pior semana desde o início da pandemia, dólar dispara 9,15% e juros futuros sobem em meio à desconfiança com as contas públicas.

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Painel eletrônico de cotações de ações, com números e percentuais em vermelho, verde e azul, sobre fundo escuro e com efeito de desfoque.
Ibovespa despenca 18,12% após reeleição de Lula. Foto: Cris Faga/NurPhoto via Getty Images.

O Ibovespa sofreu um tombo de 18,12% na primeira semana após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no pior desempenho desde março de 2020. A queda do índice veio acompanhada de uma perda de R$ 963 bilhões no valor de mercado das empresas negociadas na B3, em apenas cinco pregões. Foi uma reação que atingiu não apenas as ações, mas também o câmbio e as expectativas para os juros no Brasil.

Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que o valor conjunto das companhias listadas na Bolsa caiu de aproximadamente R$ 5,684 trilhões, em 23 de outubro, para R$ 4,721 trilhões, na sexta-feira (30). Para dimensionar a perda, o montante supera o valor de mercado estimado da Petrobras, de R$ 734 bilhões. Os R$ 963 bilhões representam a desvalorização das empresas, e não dinheiro retirado diretamente de seus caixas.

A semana terminou com o Ibovespa aos 167.921,80 pontos. Foi a quinta maior queda semanal do índice desde a implantação do Plano Real, em 1994. O resultado se aproxima de episódios de forte turbulência financeira, como o início da pandemia, quando a Bolsa recuou 18,88% em uma semana.

A reação dos investidores começou logo depois da confirmação da vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após a eleição, a queda levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações. O índice chegou a perder mais de 17% durante a sessão e encerrou o dia com recuo de aproximadamente 13,9%.

A pressão também atingiu o dólar. A moeda americana avançou 9,15% na semana e fechou a sexta-feira a R$ 5,446, na maior valorização semanal desde outubro de 2008. Com o real mais fraco, produtos importados, matérias-primas e equipamentos cotados em dólares ficam mais caros, ampliando o risco de pressão sobre os preços ao consumidor.

Os juros futuros acompanharam a deterioração das expectativas. A taxa dos contratos com vencimento em janeiro de 2031 passou de cerca de 12,64% para 15,3% ao longo dos cinco pregões. A alta sinaliza um custo de financiamento maior para empresas e governo, com reflexos possíveis sobre investimentos, crédito e contratações.

Investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 7,6 bilhões líquidos da Bolsa nos três primeiros pregões da semana, segundo dados da B3. Durante a campanha, parte do mercado havia apostado em uma mudança de orientação econômica a partir de 2027, com maior controle dos gastos públicos. A vitória de Lula levou esses investidores a rever suas expectativas.

As perdas atingiram com força companhias dependentes de crédito e do consumo interno. Simpar e Movida perderam cerca de 70% de seu valor de mercado na semana. A Vamos recuou aproximadamente 62,9%, enquanto o Magazine Luiza caiu 58,2%. O Itaú registrou redução de R$ 109 bilhões em seu valor de mercado, sendo R$ 75,9 bilhões somente na segunda-feira.

Algumas empresas escaparam da queda generalizada. A Suzano avançou cerca de 17%, enquanto WEG e Embraer registraram altas superiores a 10%. Companhias com receitas em dólar podem ser favorecidas pela desvalorização do real, mesmo em um cenário de forte turbulência no mercado brasileiro.

A preocupação dos investidores com a política econômica do próximo mandato encontra um cenário fiscal pressionado. Dados do Banco Central apontam que o setor público acumulou R$ 1,205 trilhão em juros nominais nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, o equivalente a 8,99% do Produto Interno Bruto (PIB). Um ano antes, essa despesa era de R$ 984,8 bilhões.

A dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB. Já o déficit nominal, que inclui o pagamento de juros, chegou a R$ 1,275 trilhão em 12 meses. Os números reforçam a preocupação de analistas com a capacidade de estabilizar o endividamento diante das despesas previstas e das promessas feitas durante a campanha.

Lula defendeu a ampliação de programas sociais e medidas de renegociação ou perdão de dívidas para microempreendedores individuais. O governo afirma manter compromisso com a responsabilidade fiscal. Depois da forte reação do mercado, a questão que permanece é como o próximo mandato pretende conciliar essas propostas com uma dívida pública já superior a R$ 11 trilhões.

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