O discurso de vitória de Lula, no domingo (25), incluiu dois ataques diretos ao adversário derrotado, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O presidente chamou o senador de “o representante genuíno do milicianismo” e afirmou que ele não teria “uma célula de humanismo”. Para o jornal O Estado de S. Paulo, as declarações transformaram a comemoração da reeleição em um “acerto de contas”, quando se esperava uma manifestação de chefe de Estado.
Em editorial publicado nesta terça-feira (27), o Estadão sustentou que o resultado das urnas deve ser respeitado por todos, a começar pelo candidato derrotado. Mas ressaltou que uma eleição acirrada também impõe responsabilidades ao vencedor, sobretudo a de abandonar os excessos da campanha e reduzir a tensão política.
Estadão reage à promessa de Lula de falar pelo celular
O editorial também contestou o anúncio de Lula de que pretende se comunicar diretamente com a população pelo celular, várias vezes ao dia, sem depender da interpretação de jornalistas que, segundo ele, poderiam agir de má-fé.
Para o Estadão, a proposta desconsidera o papel da imprensa na fiscalização do poder. A atividade jornalística permite confrontar versões oficiais, questionar decisões e cobrar explicações das autoridades, tarefas que não podem ser substituídas pela comunicação produzida pelo próprio governo.
A crítica foi resumida pelo jornal em uma frase:
“Estadistas não governam com a cara enfurnada em um celular.”
O editorial defendeu que Lula aceite questionamentos e reconheça a necessidade de interlocução com instituições que não estão sob seu controle, especialmente diante das negociações políticas que enfrentará no próximo mandato.
Promessa de união contrasta com homenagem a militantes
Outro ponto questionado foi a diferença entre a promessa de governar para 215 milhões de brasileiros e a linguagem utilizada para celebrar os apoiadores da campanha. No pronunciamento, Lula saudou integrantes do grupo de mobilização eleitoral organizado pelo deputado André Janones (Rede-MG) como soldados de um exército da democracia.
Na avaliação do Estadão, a referência manteve o vocabulário de confronto mesmo depois da definição do segundo turno. O jornal lembrou que quase metade dos eleitores votou em outro candidato, circunstância que torna especialmente relevante a disposição do presidente para dialogar com setores que não o apoiaram.
A cobrança se estendeu aos desafios do novo mandato. Contas públicas, endividamento, segurança e reformas foram citados pelo editorial como problemas que exigirão negociação com o Congresso Nacional. Para o jornal, enfrentar essas questões dependerá da construção de acordos políticos que ultrapassem as divisões da disputa eleitoral.
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