O Brasil pode enfrentar um dos episódios mais intensos de El Niño desde 1950, com ameaça de agravamento da seca no Nordeste e de novas enchentes no Sul. A previsão para o período entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 indica que o fenômeno alcançará intensidade muito forte, ampliando os riscos em regiões que já sofrem com extremos climáticos.
O alerta consta do quinto boletim do Painel El Niño, divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e outros seis órgãos federais na quinta-feira (29). Segundo o documento, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) considera possível que o evento seja o mais forte desde 1950. Dados de 26 de outubro já mostravam anomalias superiores a 3°C na temperatura da superfície do mar em áreas do Pacífico Central e Oriental.
O avanço da seca no Nordeste é um dos pontos mais preocupantes. Entre agosto e setembro, a parcela do território regional classificada com seca grave passou de 16% para 28%, conforme a seção Monitor de Secas do boletim. A combinação de menos chuva e temperaturas elevadas pode aumentar a perda de umidade do solo e agravar a escassez de água, especialmente nas comunidades rurais e nas áreas dependentes da agricultura familiar.
No Norte, a área atingida por seca grave dobrou no mesmo intervalo, passando de 4% para 8%. A previsão para os próximos meses aponta chuvas abaixo da média em grande parte da região e em setores do Nordeste e do Centro-Oeste. As temperaturas devem permanecer acima do padrão histórico em quase todo o país.
Os efeitos também preocupam o setor agropecuário. Nas áreas produtoras do Matopiba, que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a falta de umidade no início do trimestre pode atrasar o plantio de milho e feijão e prejudicar lavouras de soja em floração. Para o sudoeste do Piauí, porém, o boletim prevê recuperação gradual da umidade do solo em dezembro e janeiro, condição que tende a favorecer o estabelecimento das plantações e a recuperação das pastagens.
Enquanto o Norte e parte do Nordeste enfrentam perspectivas de estiagem, o Sul deve receber chuvas acima da média. A região já registra elevação de rios e episódios de inundação. No Rio Grande do Sul, as bacias do Caí e do Taquari estão entre as áreas afetadas, e a previsão sazonal indica a continuidade do risco de cheias nos próximos meses.
O cenário também exige atenção em outras bacias hidrográficas. As projeções apontam vazões acima da média em parte do Sudeste e no Alto Rio Paraguai. Em janeiro, o risco de cheias pode aumentar especialmente nas bacias dos rios Doce e Paraíba do Sul.
A ameaça de incêndios permanece elevada em diferentes pontos do país. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classifica 307 municípios na categoria Alerta Alto para risco de fogo no trimestre de novembro a janeiro. Outras 464 cidades aparecem na categoria Alerta. As condições mais críticas se concentram principalmente no Norte e em áreas do interior nordestino.
Na Amazônia Legal, setembro registrou 12.659 eventos de fogo. Em outubro, até o dia 23, foram contabilizados outros 11.662. Embora o avanço da estação chuvosa deva reduzir essas ocorrências, o boletim indica que a influência do El Niño pode retardar a diminuição em determinadas áreas.
A persistência do aquecimento do Pacífico deve se estender pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, seguida de enfraquecimento gradual. Os efeitos sobre os padrões de chuva e temperatura, contudo, podem continuar mesmo depois do pico do fenômeno. O cenário de calor em grande parte do país também reforça a atenção aos impactos do El Niño sobre a saúde.
Diante das projeções, os órgãos responsáveis recomendam que a população acompanhe os avisos meteorológicos e hidrológicos, mantenha atualizado o cadastro para receber alertas da Defesa Civil e conheça as áreas de risco e rotas de fuga de sua localidade. O monitoramento será atualizado conforme a evolução das condições do oceano e da atmosfera.
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