Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que o servidor do Banco Central Paulo Sérgio Souza tentou intermediar, em 2024, a venda do Letsbank, instituição pertencente ao grupo Master, ao Nubank. A negociação, porém, não avançou.
Na época, Souza ocupava uma função de chefia no Departamento de Supervisão Bancária do BC e era subordinado à Diretoria de Fiscalização. A investigação apura se ele utilizou sua posição para atender a interesses comerciais de Daniel Vorcaro, então controlador do Master.
Em uma conversa de outubro de 2024, Souza procurou Vorcaro para informar que havia interesse na aquisição do Letsbank. “Quando puder me liga pois tem gente interessada no Lets novamente”, escreveu. Na sequência, indicou o Nubank como possível comprador.
Vorcaro respondeu que já havia conversado com David Vélez, fundador e CEO do Nubank, mas que as tratativas não tinham avançado depois que chegaram ao diretor financeiro da instituição. O banqueiro então perguntou se Souza poderia ajudar na negociação.
“Mas vc acha que pode me ajudar nisso com eles? Porque a conversa com o Velez foi ótima mas quando caiu no CFO não andou em nada mais”, escreveu Vorcaro.
Souza respondeu que acreditava ser possível avançar e afirmou: “Ele está louco pelo Lets. Opção melhor para ter licença bancária”.
No dia seguinte, o servidor voltou a procurar Vorcaro e relatou ter discutido as condições da operação com o possível comprador. “Falei com ele que se tiver um limite de 5 bi na plataforma acreditava que vc topava vender o Lets. Segunda-feira volto com ele”, afirmou.
A negociação não foi concluída. Procurado, o Nubank afirmou que avaliou a oportunidade, mas decidiu não prosseguir. Segundo o banco, propostas de aquisição são submetidas a análises de viabilidade, compliance, governança e gestão de risco.
A instituição também ressaltou que não há qualquer irregularidade atribuída ao Nubank no caso.
Defesa contesta interpretação da PF
Para a Polícia Federal, as mensagens indicam que Souza não apenas mantinha contato com Vorcaro sobre questões relacionadas à fiscalização do Banco Central, mas também atuava na defesa de interesses comerciais do empresário.
A defesa do servidor, porém, afirma que a intermediação ocorreu por determinação de seu superior hierárquico, o então diretor de Fiscalização Ailton de Aquino. Segundo os advogados, a atuação seria compatível com procedimentos adotados no mercado diante dos riscos envolvidos na divulgação de uma eventual venda de instituição financeira.
“A intermediação da venda do Letsbank para o Nubank em 2024 consistiu em procedimento absolutamente normal e de pleno conhecimento da Diretoria”, afirmou a defesa.
Os advogados acrescentaram que o próprio Aquino teria solicitado a atuação de Souza nas tratativas. Aquino foi procurado, mas não se manifestou.
Servidores são investigados
Paulo Sérgio Souza e Belline Santana, que ocupavam cargos de chefia no Departamento de Supervisão Bancária, foram afastados das funções no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero.
A investigação apura suspeitas de que os dois teriam recebido vantagens de Vorcaro em troca de informações internas do Banco Central e de auxílio relacionado às fiscalizações sobre o Master. Ambos negam irregularidades.
Segundo informações reunidas na investigação, Souza é suspeito de ter recebido cerca de R$ 8 milhões, enquanto Belline teria recebido ao menos R$ 4 milhões. As acusações são contestadas pelas defesas.
O caso também envolve suspeitas de vazamento de informações internas da autarquia para Vorcaro. O Banco Central instaurou procedimento administrativo e forneceu informações à Polícia Federal durante as apurações.
O Letsbank, anteriormente chamado Voiter, foi adquirido por Vorcaro e atuava nos segmentos financeiro e de câmbio. Depois de outras tentativas de venda, a instituição acabou sendo liquidada junto com o Banco Master.