Uma descoberta feita pelo robô Perseverance, da Nasa, revelou um perigo que pode complicar as futuras viagens humanas a Marte. O veículo identificou partículas de poeira tão pequenas que, se inaladas, poderiam alcançar regiões profundas dos pulmões, entrar na corrente sanguínea e até chegar ao cérebro.
Os resultados foram publicados na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A pesquisa mostra que a poeira marciana não representa apenas um problema para equipamentos e trajes espaciais. Sua composição química e o tamanho microscópico das partículas também podem colocar em risco a saúde dos astronautas.
Alguns dos fragmentos encontrados medem apenas 100 a 200 nanômetros. Os menores são aproximadamente 700 vezes mais finos que um fio de cabelo humano. Isso significa que poderiam escapar de parte das defesas naturais do sistema respiratório caso fossem inalados.
Como a poeira de Marte poderia chegar ao cérebro?
Pesquisas realizadas na Terra já demonstraram que partículas ultrafinas podem alcançar o cérebro a partir da cavidade nasal, percorrendo o nervo olfativo. Outras, quando inaladas, conseguem chegar às regiões mais profundas dos pulmões e entrar na circulação sanguínea.
É essa capacidade de penetração que preocupa os cientistas. A poeira de Marte contém compostos de ferro, sílica e substâncias como os percloratos, capazes de provocar efeitos tóxicos dependendo da quantidade absorvida e do tempo de exposição.
Os percloratos podem prejudicar o funcionamento da tireoide, enquanto compostos reativos de ferro podem causar danos às células. O risco se torna especialmente importante em missões nas quais os astronautas precisariam permanecer durante meses na superfície marciana.
Embora os mecanismos de exposição sejam conhecidos em estudos terrestres, a pesquisa não demonstrou diretamente que a poeira de Marte provoque doenças neurológicas em seres humanos. Ainda não há dados de astronautas expostos a esse material no planeta.
Poeira ficou presa a materiais usados em trajes espaciais
O Perseverance transporta pequenas amostras de materiais utilizados na fabricação de trajes espaciais. Entre eles estão o Teflon e o Vectran, submetidos às condições ambientais de Marte desde a chegada do robô, em 2021.
Ao examinar essas superfícies com o instrumento PIXL, capaz de analisar a composição química de materiais por raios X, os pesquisadores encontraram partículas extremamente finas acumuladas nos tecidos.
O comportamento variou de acordo com o material. O Vectran reteve uma quantidade maior de partículas relativamente grandes, enquanto o Teflon acumulou menos poeira, mas com fragmentos menores. A eletricidade estática parece influenciar essa diferença.
Os resultados não comprovam que a poeira tenha atravessado os trajes ou danificado os materiais analisados. O alerta é que partículas aderidas à parte externa dos equipamentos poderiam contaminar os ambientes internos das futuras bases marcianas, especialmente durante a entrada e a saída dos astronautas.
Nasa busca formas de proteger astronautas em Marte
A agência espacial estuda sistemas capazes de impedir que a poeira seja transportada para dentro dos locais onde as tripulações viverão. Entre as alternativas estão câmaras de entrada com compartimentos separados e mecanismos que permitem vestir e retirar os trajes sem levá-los para o interior dos habitats.
A preocupação não é inédita. Durante as missões Apollo, a poeira lunar arranhou viseiras, desgastou partes dos trajes e prejudicou vedações. Alguns astronautas também apresentaram sintomas semelhantes aos de alergias após o contato com o material.
Em Marte, os grãos de poeira tendem a ser menos cortantes que os encontrados na Lua, porque são desgastados pelo vento. Em compensação, podem ser extremamente pequenos e permanecer suspensos na atmosfera durante tempestades que atingem grandes áreas do planeta.
As novas medições permitirão aperfeiçoar os materiais dos trajes, os sistemas de filtragem e os procedimentos de limpeza antes das primeiras missões tripuladas à superfície marciana.
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