Governo francês acusa partido de Mélenchon de alimentar violência nas ruas

Ministro do Interior aponta vínculos do França Insubmissa com grupos radicais. Líder de esquerda nega envolvimento em saques e depredações.

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Jean-Luc Mélenchon discursa diante de microfones, usando casaco preto e cachecol vermelho, com o dedo indicador levantado.
Mélenchon rejeita acusações contra seu partido após protestos violentos na França. (Foto de arquivo: Pierre-Selim/Wikimedia Commons — CC BY 3.0; imagem recortada)

O governo francês acusou o França Insubmissa (LFI), partido fundado por Jean-Luc Mélenchon, de ter responsabilidade política pelos confrontos violentos que atingiram o país. Saques, ataques a policiais e depredações durante as manifestações do último fim de semana levaram o ministro do Interior, Laurent Nuñez, a apontar vínculos entre integrantes da legenda e grupos radicais envolvidos nos protestos.

A acusação foi feita na terça-feira (20), durante uma discussão na Assembleia Nacional com Manuel Bompard, um dos principais dirigentes do LFI. Nuñez responsabilizou a atuação política da sigla por contribuir para o agravamento dos distúrbios.

“Vocês jogaram mais lenha na fogueira. Portanto, têm uma parcela de responsabilidade pelos graves incidentes ocorridos”

Laurent Nuñez, ministro do Interior da França

Mélenchon, de 75 anos, rejeita a acusação. O dirigente afirma que militantes de seu partido não participaram dos saques e das destruições e atribui ao governo do presidente Emmanuel Macron parte da responsabilidade pela escalada dos confrontos. Também critica a atuação policial contra os manifestantes.

O líder de esquerda participou dos atos realizados em Paris no fim de semana, acompanhado de parlamentares e dirigentes do LFI. As manifestações, que tiveram reivindicações de estudantes e trabalhadores, foram marcadas em diferentes cidades por confrontos, vandalismo e ataques às forças de segurança, já noticiados pelo 40graus.

Ligação com grupo investigado por morte em Lyon agrava acusações

O ministro do Interior também trouxe para a discussão o caso de Quentin Deranque, militante conservador morto após uma agressão em Lyon, em fevereiro de 2026. Entre os investigados estão integrantes da Jeune Garde, organização antifascista dissolvida pelo governo francês.

A Jeune Garde foi cofundada por Raphaël Arnault, deputado do França Insubmissa. Nuñez citou essa ligação ao acusar o partido de manter relações com grupos radicais. Arnault, contudo, não foi acusado de participar da morte de Deranque. Mélenchon manifestou apoio público ao parlamentar.

A presença de um deputado ligado à antiga organização passou a ser utilizada pelo governo como argumento político contra o LFI. As declarações do ministro não equivalem, por si, à comprovação de que Mélenchon ou a direção partidária tenham organizado os ataques ou participado dos crimes.

De ministro socialista a fundador da esquerda radical francesa

Jean-Luc Mélenchon nasceu em 19 de agosto de 1951, em Tânger, no Marrocos. Passou pela militância trotskista nos anos 1970 e ingressou no Partido Socialista francês em 1977. Nove anos depois, conquistou uma cadeira no Senado e iniciou uma trajetória de destaque na política nacional.

Entre 2000 e 2002, ocupou o Ministério do Ensino Profissional no governo do socialista Lionel Jospin. A França vivia então uma situação de coabitação política: Jacques Chirac, de centro-direita, exercia a Presidência enquanto Jospin comandava o governo apoiado pela maioria parlamentar de esquerda. Mélenchon também teve mandatos no Parlamento Europeu e na Assembleia Nacional.

A ruptura com o Partido Socialista veio em 2008. Mélenchon acusava a legenda de abandonar posições tradicionais da esquerda em favor de políticas mais próximas do centro. Ao lado de Marc Dolez, fundou naquele ano o Partido de Esquerda. Em 2016, lançou o França Insubmissa, movimento que passou a defender transformações profundas na economia e nas instituições francesas.

Mélenchon disputou a Presidência em 2012, 2017 e 2022. Na última eleição, recebeu aproximadamente 22% dos votos no primeiro turno e terminou em terceiro lugar, atrás de Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Em maio de 2026, anunciou que pretende disputar novamente o Palácio do Eliseu em 2027.

Em fevereiro deste ano, o Ministério do Interior passou a classificar o França Insubmissa como partido de extrema esquerda para as eleições municipais. A legenda contestou o enquadramento, mas o Conselho de Estado rejeitou o recurso. Essa classificação administrativa é distinta das acusações atuais sobre violência nos protestos.

O que Mélenchon defende para a França

O programa do França Insubmissa, chamado L’Avenir en commun (O Futuro em Comum), propõe elevar impostos sobre grandes fortunas, ampliar a intervenção estatal na economia e aumentar o salário mínimo. A legenda também defende o controle de preços de produtos essenciais, a redução da idade de aposentadoria para 60 anos e a reversão de reformas trabalhistas.

No plano institucional, Mélenchon propõe substituir a atual estrutura da Quinta República por uma Sexta República, com mudanças constitucionais e ampliação de mecanismos de participação popular. Na imigração, o movimento defende a regularização de trabalhadores sem documentos e a revogação de medidas que restringem a permanência de estrangeiros na França.

A segurança pública é outro ponto de confronto com o governo. O LFI quer extinguir a Brigada de Repressão da Ação Violenta Motorizada (BRAV-M), utilizada durante manifestações, restringir armamentos empregados no controle de multidões e criar uma instituição independente para fiscalizar a atuação policial.

Na política externa, Mélenchon defende maior autonomia francesa em relação aos Estados Unidos e já propôs a retirada do país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Seu partido também critica as operações militares de Israel na Faixa de Gaza e apoia o reconhecimento de um Estado palestino.

Posições sobre Hamas e véu islâmico provocaram outras controvérsias

Depois dos ataques do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, o França Insubmissa foi criticado por inicialmente evitar a classificação dos massacres como terrorismo. O partido passou a condenar explicitamente os ataques como atos terroristas em 2024.

Em junho de 2026, três vítimas franco-israelenses dos atentados apresentaram uma denúncia contra Mélenchon e sua legenda por apologia do terrorismo. A iniciativa ocorreu após declarações do político que questionavam a classificação jurídica das ações do Hamas. O advogado das vítimas acusou o dirigente de tentar legitimar os crimes como resistência. Mélenchon afirmou que suas palavras não representavam aprovação de ataques contra civis.

Outra mudança de posição ocorreu em setembro, quando Mélenchon reconheceu que havia se equivocado ao se opor anteriormente ao uso do véu islâmico. Ele passou a defender a liberdade das mulheres para escolher se utilizam a vestimenta religiosa.

Condenação após confronto com policiais marcou sua trajetória

A relação de Mélenchon com as autoridades já havia produzido um episódio de grande repercussão em outubro de 2018. Durante uma operação de busca na sede de seu partido, o político confrontou policiais e representantes da Justiça. Em uma gravação da discussão, gritou: “A República sou eu!”

Em dezembro de 2019, recebeu uma condenação a três meses de prisão e multa de 8 mil euros por resistência e provocação durante a operação. O dirigente classificou a decisão judicial como política.

Presidente do Senado admite discutir proibição do partido

A pressão política sobre o França Insubmissa alcançou também o Senado francês. Na terça-feira (20), seu presidente, Gérard Larcher, afirmou que a possibilidade de proibir a atuação da legenda poderia ser discutida diante das acusações relacionadas à violência. A declaração não representa uma decisão de banimento.

Mélenchon, por sua vez, segue preparando sua quarta candidatura presidencial, anunciada para 2027, quando se encerra o segundo mandato de Macron. A relação entre o LFI e os grupos envolvidos nos confrontos permanece no centro das acusações do governo, enquanto o partido rejeita responsabilidade pelos saques e pelas destruições.

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