O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou nesta sexta-feira (30) a Atlanta, nos Estados Unidos, para participar da reunião de chanceleres do G20. A viagem marca o primeiro contato entre autoridades dos dois governos desde a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cujo resultado ainda não havia recebido reconhecimento público da Casa Branca.
O encontro é organizado pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, mas não há uma reunião bilateral com Vieira prevista na agenda oficial. A expectativa é de que os dois possam conversar informalmente durante os compromissos do grupo.
A reunião deste fim de semana prepara a Cúpula de Líderes do G20, marcada para dezembro. Os chanceleres devem trabalhar na declaração final que será submetida aos chefes de Estado. Integrantes do governo brasileiro tratam as conversas com cautela e não esperam avanços significativos nas relações com Washington.
Trump questiona eleição brasileira e mantém silêncio sobre Lula
Donald Trump ainda não se pronunciou em reconhecimento à vitória de Lula, eleito para um quarto mandato. Nos últimos dias, o presidente americano levantou suspeitas de fraude no processo eleitoral brasileiro e classificou a disputa como uma “desgraça”.
Em declaração registrada em vídeo, Trump evitou dizer quem considerava vencedor da eleição, afirmou que poderia conversar com Lula e declarou que não havia apoiado nenhum candidato, a pedido do petista. O registro foi divulgado pelo jornalista Sam Pancher no X, na quinta-feira (29).
Outro ponto de atrito é a aproximação do governo americano com a família Bolsonaro. Rubio é apontado como um dos principais interlocutores dos Bolsonaro em Washington, enquanto a saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil passou a ocupar espaço nas relações entre os dois países.
Saída de Flávio Bolsonaro amplia os atritos
Derrotado por Lula na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil na terça-feira (27), seguiu para a Argentina e chegou a Miami na manhã de quarta-feira (28). A viagem contrariou uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que o senador entregasse seus passaportes.
A ordem foi expedida sete minutos depois da divulgação do resultado eleitoral, a partir de um alerta da Polícia Federal sobre risco de fuga. Flávio utilizou um passaporte italiano para deixar o país. Ele é alvo de três investigações que envolvem suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Segundo informações divulgadas pelo jornal The New York Times e citadas na reportagem, o governo Trump providenciou um jato para o deslocamento do senador. O Departamento de Estado americano também informou que concederia vistos a Flávio e à família.
Embora Trump não tenha declarado apoio formal à candidatura do senador, fez gestos de aproximação a ele nos meses anteriores à votação.
Governo Lula critica condução do G20 pelos Estados Unidos
As divergências diplomáticas também alcançam a própria agenda do G20. Em setembro, durante uma reunião sobre economia realizada em Milwaukee, no Estado de Wisconsin, o Brasil se opôs à maior parte das propostas apresentadas pela presidência americana, dificultando a aprovação de iniciativas por consenso.
Auxiliares de Lula avaliam que o grupo perdeu relevância sob a liderança dos Estados Unidos. Na visão desses integrantes do governo, Washington avançou pouco nas discussões multilaterais e abandonou prioridades da presidência brasileira, entre elas a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza.
A administração Trump, por sua vez, tem priorizado negociações diretas entre países e questionado a eficácia de organismos multilaterais. Segundo a posição apresentada pelo governo americano, dezenas dessas instituições deixaram de atender aos interesses dos Estados Unidos, razão apontada para sua retirada ao longo de 2026.
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