Lula é reeleito presidente da República neste domingo (25), em uma noite na qual a Justiça Eleitoral interrompeu a totalização dos votos depois de uma decisão de Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro mandou prorrogar a votação até as 19h em todo o Brasil, atendendo a uma solicitação da coligação do próprio presidente. A ordem, divulgada depois do horário originalmente previsto para o encerramento das urnas, alterou o cronograma da apuração presidencial.
Com 98,76% das urnas apuradas, Lula (PT) registrava 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL). A vantagem de 3,5 pontos percentuais já era irreversível, embora a totalização ainda não estivesse concluída. O resultado garante ao petista mais quatro anos no Palácio do Planalto e seu quarto mandato como presidente. Geraldo Alckmin (PSB) também foi reeleito vice-presidente.
Flávio venceu o primeiro turno, mas Lula virou a disputa
O resultado inverteu a ordem estabelecida pelos eleitores em 4 de outubro. Na primeira votação, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. O senador chegou ao segundo turno depois de abrir uma diferença de 1,87 ponto percentual sobre o presidente.
Três semanas depois, Lula ultrapassou a marca dos 50% e assegurou a reeleição. A confirmação ocorreu após uma sequência incomum de acontecimentos envolvendo a campanha petista, o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável pela condução do processo eleitoral.
Lula pressionou pela prorrogação antes da decisão de Zanin
Na tarde deste domingo, ainda durante a votação, Lula cobrou publicamente mais duas horas para o comparecimento dos eleitores às urnas. O presidente acusou prefeitos de dificultar o deslocamento da população mediante a suposta redução da frota de ônibus e chegou a falar em pedidos de prisão de gestores municipais.
Em declaração a jornalistas em São Paulo, Lula dirigiu cobranças a Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, e ao ministro André Mendonça. A campanha petista também buscou providências judiciais contra autoridades do transporte público paulistano, sob a alegação de irregularidades na circulação dos veículos.
A pressão ganhou um desdobramento decisivo quando a coligação Brasil Pronto Pra Mais apresentou uma reclamação sobre dificuldades de transporte em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia. Seus advogados recorreram ao TSE e também acionaram o Supremo, onde o processo foi distribuído a Cristiano Zanin.
Pedido envolvendo três cidades terminou em ordem nacional
Segundo as informações divulgadas sobre a decisão, os fatos chegaram ao conhecimento do STF às 16h32, menos de meia hora antes do encerramento da votação previsto no calendário eleitoral. Zanin invocou a gravidade dos relatos e, em decisão individual, determinou que o horário fosse prorrogado das 17h para as 19h.
A determinação foi além dos municípios citados na reclamação: alcançou todas as seções eleitorais do Brasil. O TSE, que já examinava uma demanda sobre o assunto, recebeu a responsabilidade de cumprir a ordem expedida pelo ministro do Supremo.
O alcance nacional da medida tornou-se o centro das críticas. A reclamação tratava de dificuldades relatadas em três cidades baianas, mas a decisão afetou o encerramento da eleição em todo o país. A fundamentação para estender a determinação às demais localidades passou a ser questionada publicamente.
Cristiano Zanin atuou como advogado de Lula em processos da Operação Lava Jato e foi indicado pelo presidente ao STF em 2023. Essa relação profissional anterior também foi mencionada por críticos da decisão, que questionaram a atuação do ministro no processo movido pela coligação petista.
TSE interrompeu a totalização dos votos até depois das 19h
A decisão teve consequência imediata sobre a divulgação dos resultados. O TSE interrompeu temporariamente o recebimento dos boletins de urna, a totalização dos votos e a publicação dos números da eleição presidencial.
Em esclarecimento publicado às 18h44 e atualizado às 19h02, a Corte Eleitoral informou que a votação continuaria somente nas seções que ainda não haviam encerrado os trabalhos às 17h. As seções já fechadas não seriam reabertas. O tribunal anunciou a retomada do recebimento dos boletins, da totalização e da divulgação dos resultados depois das 19h.
A sequência alterou o andamento previsto para o encerramento do segundo turno. Enquanto parte das seções já havia concluído a votação, outras receberam autorização para continuar, e o público deixou de acompanhar temporariamente a totalização nacional.
A extensão da ordem exige respostas documentadas sobre sua execução: quantas seções permaneceram abertas depois das 17h, quantos eleitores votaram no período adicional e quais critérios justificaram a abrangência nacional? Esses números não constavam das informações inicialmente divulgadas.
Van Hattem fala em ‘golpe nas eleições’ e anuncia pedido de impeachment
A decisão de Zanin provocou reação do senador eleito Marcel van Hattem (Novo-RS). O parlamentar anunciou que apresentaria um pedido de impeachment do ministro e o acusou de interferir no processo eleitoral. Nas redes sociais, classificou a prorrogação como um “golpe nas eleições” e contestou a competência do magistrado para determinar a mudança naquele momento.
“Protocolarei impeachment de Zanin por atuação desidiosa!”
Marcel van Hattem, senador eleito pelo Rio Grande do Sul
Van Hattem também apontou o passado de Zanin como advogado de Lula e questionou sua imparcialidade. As declarações expressam a acusação política do senador eleito. Até a atualização examinada, não havia confirmação de que o pedido de impeachment tivesse sido formalmente protocolado.
Ranking dos Políticos acusa STF de criar insegurança jurídica
O Ranking dos Políticos também condenou a intervenção. Em nota divulgada às 17h53, a organização classificou a decisão como um “caos institucional produzido pelo próprio Judiciário” e afirmou que o Supremo havia interferido em uma atribuição do tribunal responsável pela organização das eleições.
“Mais uma vez, o STF atropela o Tribunal Superior Eleitoral, juiz natural do processo eleitoral”
Ranking dos Políticos, em nota divulgada neste domingo
A entidade advertiu que a prorrogação poderia fundamentar contestações judiciais e pedidos de anulação do pleito. Na avaliação do grupo, a mudança de horário, anunciada quando já havia seções encerradas, comprometeu a previsibilidade das regras eleitorais.
A crítica apresentada pelo Ranking e a acusação formulada por Van Hattem não equivalem, por si, à comprovação de fraude ou de alteração do resultado. A discussão sobre a legalidade da decisão depende de sua fundamentação, dos documentos do processo e das providências efetivamente adotadas pela Justiça Eleitoral.
Reeleição ocorre após medidas econômicas anunciadas na campanha
A vitória de Lula também foi precedida por uma série de decisões e anúncios do governo nas semanas decisivas da campanha. Em 17 de setembro, o Executivo anunciou um reajuste de 15% no valor mínimo do Bolsa Família, que passou de R$ 600 para R$ 691 em outubro, depois do primeiro turno.
Segundo os valores atribuídos ao Ministério do Planejamento, a mudança representa impacto estimado de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027. O reajuste recebeu aval do ministro Gilmar Mendes, do STF. O calendário da medida e suas consequências fiscais também fazem parte das decisões do governo que estarão sob escrutínio no novo mandato.
Em 25 de setembro, Lula anunciou uma medida provisória voltada à proibição das apostas esportivas on-line, as chamadas bets. No dia seguinte, a equipe econômica comunicou a prorrogação, por mais 30 dias, do subsídio ao diesel.
Depois do primeiro turno, o governo também buscou apoio no Congresso para o fim da escala de trabalho 6×1, medida que enfrenta críticas de setores produtivos preocupados com o aumento dos custos. Na mesma reta final de campanha, Lula anunciou uma nova versão do Desenrola, voltada à renegociação de dívidas, e medidas de perdão de débitos de microempreendedores individuais.
Os anúncios envolveram despesas, mudanças regulatórias e propostas de impacto econômico. A execução dessas iniciativas, seus custos e os compromissos assumidos durante a campanha passarão a integrar as cobranças dirigidas ao governo reeleito.
Lula terá mais quatro anos no Planalto
Lula venceu pela primeira vez uma eleição presidencial em 2002 e foi reeleito em 2006. Voltou ao cargo em janeiro de 2023, depois de derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022. A vitória deste domingo garante a continuidade de seu governo até 2030.
Além do PT e do PSB, a coligação vencedora reúne PDT, PCdoB, PV, Psol e Rede Sustentabilidade. Geraldo Alckmin seguirá como vice-presidente da República.
A reeleição foi confirmada com vantagem irreversível na atualização de 98,76% das urnas. Já as perguntas sobre a prorrogação continuam exigindo informações públicas precisas: o fundamento do alcance nacional da ordem, sua execução em cada região e os números da votação realizada após as 17h. São respostas necessárias para esclarecer um procedimento que alterou o encerramento do segundo turno no mesmo dia em que o presidente conquistou mais quatro anos no poder.
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