Lula empilha promessas na eleição, mas governo já prevê aperto de R$ 53,7 bilhões

Bolsa Família maior, Pix de R$ 5 mil e ônibus grátis nem entraram na projeção. De onde sairá o dinheiro para bancar tudo isso?

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Lula, de terno cinza e gravata vermelha, está sentado diante de uma mesa, com as mãos unidas próximas à boca e o olhar voltado para baixo, diante de um painel de madeira.
O presidente Lula durante reunião, em fotografia de arquivo. Projeção do governo aponta necessidade de ajustes de R$ 53,7 bilhões até 2030, sem incluir parte das promessas eleitorais. | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anuncia novos benefícios na reta final da campanha presidencial, seu próprio governo projeta a necessidade de rever R$ 53,7 bilhões em despesas entre 2028 e 2030. O cálculo foi encaminhado ao Congresso Nacional e traz um detalhe decisivo: parte das promessas eleitorais do presidente nem sequer entrou nessa conta.

A projeção foi elaborada em agosto e considera as políticas que já existiam. Ficaram de fora o reajuste do Bolsa Família, o Pix de R$ 5 mil para microempreendedores e a proposta de transporte público gratuito aos domingos. Ou seja, o aperto previsto já aparece antes de esses novos compromissos serem incluídos no planejamento para os anos seguintes.

A campanha apresenta os benefícios. Mas onde estão os recursos para bancá-los? Se a equipe econômica já prevê a necessidade de rever bilhões em despesas, quais gastos terão de perder espaço para acomodar as novas promessas? O documento enviado ao Congresso não oferece uma resposta completa.

Os R$ 53,7 bilhões não representam cortes já realizados, tampouco uma decisão de reduzir o Bolsa Família. São ajustes projetados para os próximos orçamentos. O problema é que a conta poderá ficar mais apertada justamente quando o governo anuncia despesas adicionais.

Governo projeta aperto de R$ 53,7 bilhões a partir de 2028

A equipe econômica comparou o custo das políticas em funcionamento com o limite de despesas permitido pelas regras fiscais. Para 2027, o levantamento inicial não aponta insuficiência de recursos. A proposta orçamentária prevê R$ 222,1 bilhões para gastos que o governo tem maior liberdade de administrar.

A partir de 2028, a situação muda. A diferença entre as despesas previstas e o espaço disponível chega a R$ 15,8 bilhões naquele ano, passa a R$ 14,9 bilhões em 2029 e alcança R$ 23 bilhões em 2030.

Necessidade projetada de ajustes nas despesas federais
Ano Valor
2028 R$ 15,8 bilhões
2029 R$ 14,9 bilhões
2030 R$ 23 bilhões
Total R$ 53,7 bilhões
Valores projetados, sujeitos à elaboração dos próximos orçamentos. Não são cortes já executados.

O Planalto chama a necessidade de revisão de gastos de um esforço “contido e estável”. A expressão tenta transmitir tranquilidade, mas não responde à questão central: quais despesas deverão ser revistas para que a conta feche?

O Ministério do Planejamento ressalta que os números são uma projeção contábil, não a constatação de um rombo nas contas públicas. Em manifestação sobre o levantamento, afirmou:

“A diferença não indica descumprimento do arcabouço fiscal nem desequilíbrio nas contas”

A ressalva é relevante. Mas há uma diferença entre dizer que a situação ainda não constitui um desequilíbrio efetivo e explicar como serão financiadas as despesas futuras. O próprio levantamento mostra que essas escolhas terão de ser feitas.

Bolsa Família maior e ônibus grátis ficaram fora da conta

É na comparação com as promessas de campanha que o planejamento fiscal se torna mais incômodo para o governo. O reajuste do Bolsa Família, o Pix de R$ 5 mil para microempreendedores e a proposta de transporte gratuito aos domingos não foram incorporados à projeção de gastos para 2028 a 2030.

Segundo os números apresentados, as novas medidas exigiriam ajustes de pelo menos R$ 39,8 bilhões no Orçamento de 2027. Trata-se de uma estimativa para outro exercício, distinta dos R$ 53,7 bilhões projetados para os três anos seguintes.

O 40graus já noticiou a antecipação do pagamento do Bolsa Família reajustado em 15% na reta final da campanha e a promessa de transporte público gratuito aos domingos.

Prometer mais benefícios é uma decisão política. Apresentar como serão pagos é uma obrigação de transparência. Quanto custará cada medida? De onde virá o dinheiro? O que será reduzido ou remanejado? O eleitor conhece os anúncios, mas a projeção fiscal apresentada ainda não incorpora esses compromissos.

Os ministros Dario Durigan, da Fazenda, e Bruno Moretti, do Planejamento, defendem mecanismos para conter o crescimento das despesas obrigatórias. A equipe econômica também prevê reavaliar programas e mudar prioridades. O levantamento, porém, não apresenta uma lista definitiva de cortes que resolva toda a pressão estimada.

Consultorias do Congresso questionam o otimismo das contas

O alerta não se limita ao custo dos programas sociais. As consultorias de Orçamento da Câmara dos Deputados e do Senado Federal manifestaram preocupação com as previsões econômicas utilizadas pelo Executivo, sobretudo as estimativas de crescimento, inflação e juros.

Para 2027, o governo trabalha com crescimento de 2,5% da economia. A mediana das projeções de mercado citadas no levantamento é de apenas 1,43%. Se a arrecadação ficar abaixo do esperado, o espaço para acomodar despesas poderá ser ainda menor.

A diferença também aparece nas previsões para o resultado das contas públicas. O governo espera um superávit de R$ 18,6 bilhões em 2027; a estimativa de mercado mencionada no material aponta déficit de R$ 45,4 bilhões. São projeções distintas, não resultados já registrados.

Há ainda uma pressão difícil de contornar: entre 2027 e 2030, as despesas obrigatórias devem crescer 22,8%, enquanto os gastos sobre os quais o governo tem maior liberdade de decisão aumentariam apenas 8%. Isso deixa menos margem para novas promessas sem rever prioridades.

O documento expõe, portanto, uma cobrança que a campanha ainda não resolveu: o governo já calcula ajustes bilionários para manter as políticas atuais e continua anunciando benefícios que ficaram fora dessa projeção. Antes de transformar as promessas em despesas permanentes, terá de mostrar onde elas cabem no Orçamento.

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