É relativamente comum ouvir adultos contarem, quase como uma lembrança afetiva da adolescência, que abriam uma lata de leite condensado e comiam diretamente dali. Às vezes escondidos, às vezes diante da televisão, depois de um dia difícil ou simplesmente porque aquilo proporcionava uma sensação imediata de prazer.
A cena pode mudar de geração para geração. Pode ser o leite condensado, o chocolate, o sorvete, o biscoito ou qualquer outro alimento saboroso. O mecanismo por trás da escolha, porém, merece uma reflexão que vai muito além de classificar esses alimentos como “bons” ou “ruins”.
Nós não comemos apenas para obter energia e nutrientes.
O comportamento alimentar humano também está relacionado ao prazer, à recompensa, às memórias, ao ambiente social e aos estados emocionais. Por isso, a busca por determinados alimentos pode aumentar em momentos de estresse, tédio, tristeza, solidão, frustração ou cansaço.
Isso não significa que todo consumo de um alimento prazeroso seja uma tentativa de compensação emocional. Comer por prazer é parte normal da experiência humana. O problema talvez apareça quando a comida se transforma em uma das poucas — ou na única — disponíveis no cotidiano.
Imagine um adolescente que passou o dia entre cobranças escolares, conflitos, inseguranças, pouco descanso e poucas experiências genuinamente prazerosas. À noite, ele abre a lata de leite condensado.
Durante alguns minutos, encontra ali uma recompensa rápida, acessível e previsível.
É fácil olhar para essa cena e concluir: “O problema é o leite condensado”.
Mas será?
Se a comida é a única forma de prazer disponível, retirar esse alimento se torna punição, não solução.
Porque, ao simplesmente proibir o alimento, eliminamos uma fonte de recompensa sem necessariamente oferecer outra em seu lugar. A necessidade que estava sendo atendida continua existindo.
Essa discussão é especialmente importante porque nosso comportamento não é determinado exclusivamente pela fome fisiológica. O cérebro também responde ao valor de recompensa dos alimentos. E nossos estados emocionais podem interferir naquilo que desejamos comer, na intensidade desse desejo e na dificuldade de interromper o consumo.
Por isso, talvez uma pergunta mais interessante do que “por que você come tanto chocolate?” seja:
“Que lugar esse chocolate está ocupando na sua vida?”
Quando existem vínculos afetivos, movimento, lazer, descanso, curiosidade, hobbies, contato social, pequenas conquistas e outras experiências capazes de gerar satisfação, a comida pode continuar sendo prazerosa sem precisar carregar sozinha a responsabilidade de produzir prazer.
O objetivo, portanto, não deveria ser construir uma vida em que o alimento deixe de proporcionar prazer. Isso seria tão artificial quanto desnecessário.
Talvez o caminho seja justamente o contrário: aumentar o repertório de prazeres.
Voltar a caminhar porque gosta. Encontrar alguém. Ouvir música. Cozinhar. Ler. Dançar. Praticar um esporte. Ter momentos de descanso sem culpa. Aprender algo novo. Conversar. Rir. Criar pequenos acontecimentos que façam o dia valer a pena.
Quando todas essas possibilidades desaparecem ou se tornam muito escassas, não deveria surpreender que uma recompensa tão disponível quanto a comida ganhe uma importância desproporcional.
Nesse sentido, responsabilizar exclusivamente o alimento pode ser uma simplificação confortável. Uma lata de leite condensado não sabe se tivemos um dia difícil. Um chocolate não conhece nossa solidão. Um sorvete não provoca nossas frustrações.
Eles apenas oferecem algo que o cérebro humano naturalmente valoriza: prazer.
A questão começa a ficar mais interessante quando perguntamos por que, em determinados momentos da vida, precisamos buscar tanto desse prazer justamente ali.
Talvez, antes de tentar retirar o alimento hedônico, seja importante descobrir o que podemos acrescentar à vida para que ele não precise ser a única recompensa do dia.