Durante muitos anos, falar em sarampo no Brasil parecia falar de uma doença do passado. A vacinação em massa conseguiu interromper a circulação contínua do vírus e, em 2024, o país recuperou a certificação internacional de território livre do sarampo endêmico. Mas eliminar a circulação de uma doença não significa eliminar o vírus do planeta.
Enquanto o sarampo continuar circulando em outros países, pessoas infectadas podem chegar ao Brasil. Se encontrarem uma população amplamente vacinada, a transmissão tende a ser interrompida. Se encontrarem grupos de pessoas desprotegidas, porém, o vírus ganha espaço novamente. É justamente esse risco que estamos vendo agora.
Sarampo é muito mais do que manchas vermelhas
O sarampo é uma doença viral extremamente contagiosa, transmitida principalmente pelo ar e por secreções respiratórias. Geralmente começa com febre alta, tosse, coriza e irritação nos olhos. Depois surgem as manchas avermelhadas características, inicialmente no rosto e posteriormente espalhadas pelo corpo.
Embora muitas pessoas ainda enxerguem o sarampo como uma doença comum da infância, ele pode provocar complicações importantes. Pneumonia, infecções de ouvido e alterações neurológicas estão entre as possíveis consequências.
Crianças pequenas, gestantes, pessoas desnutridas e pacientes com comprometimento do sistema imunológico apresentam maior risco de evolução grave. Por isso, não devemos confundir uma doença conhecida há séculos com uma doença inofensiva.
Quando a vacinação cai, o vírus encontra uma porta aberta
O sarampo é um exemplo extraordinário da importância da vacinação coletiva. O Brasil conseguiu interromper sua transmissão endêmica graças, principalmente, às campanhas de imunização. O problema é que essa conquista precisa ser preservada continuamente.
Nos últimos anos, quedas na cobertura vacinal deixaram grupos de pessoas suscetíveis. Em 2025, por exemplo, a cobertura nacional chegou a 92,9% para a primeira dose da tríplice viral, mas ficou em apenas 78,3% para a segunda dose.
Quando o vírus é introduzido em uma comunidade com muitas pessoas sem proteção adequada, pode se espalhar rapidamente.
É por isso que casos importados ou surtos localizados precisam ser levados a sério. Eles funcionam como um alerta de que a doença pode encontrar novamente condições para circular.
Adulto também precisa conferir a vacinação
Existe uma ideia equivocada de que vacina contra sarampo é assunto apenas de criança. Não é.
O Calendário Nacional de Vacinação prevê a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, para pessoas até 59 anos que não estejam adequadamente vacinadas.
Na rotina, pessoas de até 29 anos precisam comprovar duas doses. Entre 30 e 59 anos, uma dose é considerada suficiente. Trabalhadores da saúde têm recomendação específica de duas doses, independentemente da idade.
Quem perdeu a carteira de vacinação, não sabe se recebeu as doses necessárias ou está com o esquema incompleto deve procurar uma unidade de saúde para receber orientação.
Além disso, diante da circulação atual do vírus, o Ministério da Saúde ampliou temporariamente a vacinação em áreas de São Paulo. Na capital, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo, a campanha de agosto recomenda a vacinação contra o sarampo para pessoas de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal, conforme a estratégia estabelecida pelas autoridades sanitárias.
A vacina é segura e continua sendo nossa maior proteção
As vacinas contra o sarampo estão entre as mais estudadas e utilizadas no mundo.
Como qualquer vacina, podem provocar efeitos adversos, geralmente leves e passageiros, mas seu perfil de segurança é amplamente conhecido. A tríplice viral utiliza vírus vivos atenuados e, por isso, existem contraindicações específicas, como durante a gestação e em determinadas situações de imunossupressão, que devem ser avaliadas pelos profissionais de saúde.
O benefício coletivo da vacinação também é fundamental. Quanto maior o número de pessoas protegidas, menor a possibilidade de o vírus circular e atingir quem não pode receber a vacina. O sarampo nos ensina uma lição importante: o sucesso de uma vacina pode criar a falsa impressão de que a doença deixou de ser perigosa.
Na realidade, acontece exatamente o contrário. Deixamos de ver crianças e adultos com sarampo porque a vacinação funcionou. Quando a cobertura diminui, o vírus não precisa reaprender a infectar. Basta encontrar novamente pessoas desprotegidas.
*Alfredo Salim Helito é clínico geral e head nacional de Clínica Médica da Brazil Health.
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)