O fisiculturista norte-americano Dwayne Quamina, conhecido como “King Q“, morreu neste domingo, 16, aos 40 anos.
Quamina era conhecido no circuito profissional do fisiculturismo e, em 2018, chegou a figurar entre os 10 melhores participantes do Mr. Olympia, principal competição da modalidade.
Em 2020, ele anunciou sua aposentadoria, mas voltou às disputas no ano passado.
A causa da morte de King Q não foi divulgada pela família, mas acrescenta mais um nome à lista de fisiculturistas que tiveram óbitos precoces em 2026, como Mailson Araújo e Gabriel Ganley.
Uma das principais explicações apontadas pelos especialistas para esse fenômeno no esporte é o uso abusivo de esteroides anabolizantes, além de práticas como o consumo não prescrito de , que podem ser usados na tentativa de alterar a composição corporal ou a aparência dos músculos.
Em contrapartida, desde 2023 o uso desses produtos com fins estéticos e esportivos é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
Ainda assim, os anabolizantes têm ganhado cada vez mais espaço nas prateleiras de jovens, graças a conteúdos nas redes sociais que estimulam a prática.
Para ter ideia, dados do Google Trends, fornecidos com exclusividade a VEJA SAÚDE, mostram que as buscas sobre a reposição de testosterona aumentaram 110% no Brasil em cinco anos. Além disso, em outubro de 2025, alcançaram o maior volume das últimas duas décadas.
Assim, embora muitos atletas rejeitem a pressão pelos anabolizantes, inclusive chamando a si mesmos de “naturais”, os casos de pessoas que sofreram com males à saúde ou mortes precoces decorrentes do seu uso são inúmeros (e crescentes).
Bomba para o sistema cardiovascular
Um estudo publicado no fim do mês passado, na revista The Lancet, acompanhou por 10 anos mais de 113 mil pares de pessoas que haviam iniciado terapia com testosterona.
Os pesquisadores observaram que aqueles que faziam uso do hormônio sem necessidades de saúde apresentaram risco 90% maior de morrer por qualquer causa e 51% maior de sofrer eventos cardiovasculares graves.
Entre esses eventos, houve aumento de 23% no risco de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico, 32% no de insuficiência cardíaca e 41% no de parada cardíaca.
Outro estudo, publicado no ano passado, comparou o histórico de saúde de 1 189 usuários de esteroides com os de 60 mil cidadãos que nunca recorreram a essas substâncias. Como resultado, eles viram que os ‘bombados’ tinham:
- 3 vezes mais risco de infarto
- 3 vezes mais chances de ter de fazer uma angioplastia ou cirurgia cardíaca
- 2,4 vezes maior probabilidade de uma trombose venosa e embolia pulmonar
- 2,2 vezes maior propensão a arritmias
- 9 vezes mais risco de cardiomiopatia
- 3,6 vezes maior possibilidade de insuficiência cardíaca
Por que o coração sofre?
Uma das preocupações é o aumento do colesterol LDL, o chamado colesterol “ruim”, e a redução do HDL, o colesterol “bom”. Esse desequilíbrio favorece a formação de placas de gordura nas artérias, aumentando o risco de infarto e AVC.
Além disso, essas substâncias podem contribuir para arritmias e para um estado mais favorável à formação de coágulos sanguíneos. Quando um coágulo bloqueia uma artéria do coração ou do cérebro, pode provocar infarto ou AVC; quando chega aos pulmões, pode causar uma embolia pulmonar.
Mas o principal problema é que o coração também pode sofrer mudanças estruturais.
Sim, o uso prolongado de anabolizantes está associado ao aumento da massa não só dos músculos dos bíceps ou glúteos, mas também do cardíaco.
Com isso, o coração pode se tornar mais rígido e perder eficiência para bombear sangue. Em alguns casos, isso pode evoluir para cardiomiopatia(doença crônica do músculo cardíaco ) e insuficiência.
Aliás, estudos já mostraram que existem receptores da testosterona e similares nas células do coração, que podem ser ativados, levando à hipertrofia do músculo cardíaco.
Para quem já carrega alguma mutação genética, como a que favorece a cardiomiopatia hipertrófica, muitas vezes sem saber, os riscos se multiplicam.
“A pessoa pode desenvolver ainda mais hipertrofia, mais alterações cardíacas e maior risco das mesmas complicações associadas à doença, como arritmias e obstrução da saída de sangue do coração. Ou seja: uma condição potencializa a outra”, explicou para a VEJA SAÚDE Elry Medeiros, cardiologista do Núcleo de Medicina Afetiva (NuMA) e do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.
O vício em anabolizantes também pode acontecer, causando uma dependência psicológica e comportamental que induz o sujeito a seguir com as substâncias mesmo diante de prejuízos à saúde.
Por isso, nem mesmo pequenas doses dessas substâncias podem ser consideradas utilizáveis. “Não existe nenhum contexto em que o uso de anabolizantes [para fins estéticos] seja seguro para o coração”, avisa Medeiros.