Existe uma espécie bizarra de apagão moral na esquerda brasileira quando o assunto é crime organizado. Há uma negação absurda em notar como o país está a caminho de uma rendição vergonhosa. Esse assunto, aliás, devia ser um dos poucos a unir os dois polos ideológicos. Afinal, quando o banditismo se torna exército, busca instaurar o terror, tornar o tráfico onipresente e dominar territórios, sua cor partidária definitivamente não servirá de escudo para o avanço dos neoterroristas.
Nesta semana, vimos uma das líderes do governo Lula, Gleisi Hoffmann, vir a público dizer que o governo petista é “terminantemente contra” classificar o Comando Vermelho (CV) como terrorista. Isso ocorreu a menos de uma semana da cena de guerra que assistimos no Rio de Janeiro, onde a maior organização criminosa do Estado utilizou drones para lançar bombas incendiárias sobre policiais e civis. Para quem não é tão antenado nas questões de guerra, algo muito parecido ocorre hoje na guerra da Ucrânia, em que ambos os exércitos se utilizam de drones como tática de ataque e sabotagem. A diferença? O Brasil supostamente não está em guerra.
Mas os drones são apenas mais um capítulo desse bolo de absurdos. Sabe-se que o CV se utilizou, literalmente, de táticas ministradas por um ex-militar da Marinha brasileira. Os narcoterroristas têm armas de guerra de mais de sete nacionalidades diferentes; já se viram, inclusive, armas antitanque e antiaeronave. Atualmente, o CV não investe apenas no narcotráfico: está tomando territórios, expulsando moradores e também o próprio Estado, que, acuado pela força militar dos bandidos — e pela fraquíssima retaguarda jurídica, além dos corvos ideológicos que se empoleiram em gritarias quando o Estado age —, vê-se cercado em trincheiras políticas por todos os lados.
Não é absurdo imaginar que organizações como o CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC) possam ter amigos em Brasília. Isso já me parece ter saído do campo da especulação conspiratória; parece antes uma daquelas miragens que, de súbito, se materializam ante nossos olhos para deixar claro que o que víamos de forma esfumaçada não era loucura. A população se questiona: o que explicaria a organização célere da esquerda em defender leis menos punitivas para esses narcoterroristas? O que justifica a celeridade político-jurídica em pressionar Cláudio Castro — inclusive ameaçar cassá-lo — logo após a operação amplamente fundamentada, do ponto de vista jurídico, e apoiada pela população no complexo dominado pelo CV? O que explica a dificuldade moral da esquerda em responsabilizar claramente uma organização que trafica, mata, tortura e sitia territórios dentro do país?

Vocês hão de concordar que a explicação mais razoável para o homem comum é a de que há amigos dessa organização espalhados pela capital. E aqui não quero transmitir isso como convicção própria ou coisa do tipo — é a sensação das ruas e bares, das conversas nas mesas de jantar. Não há confirmação oficial disso, e deve-se sempre guardar prudência em condenações sem provas efetivas. Mas as suspeitas — como aquelas miragens que citei acima — não esperam as certezas documentais. E o que eleva isso ao grau de senso comum hoje no país? Obviamente, a ambiguidade do governo, a malemolência moral que só existe nas classes políticas ou politizadas da esquerda, a tentativa de justificar o injustificável, que vai da vitimização do traficante ante o dependente às cansativas soluções alternativas de “render” os traficantes com ações socioculturais teorizadas nas torres de marfim das universidades.
Logo após a incursão policial, várias pesquisas mostraram que a população, em massa — seja no Brasil como um todo ou, especificamente, no Rio de Janeiro —, apoiava os policiais e a decisão do governador carioca. O apagão moral travestido de amor humanitário está apenas no colo da esquerda, e isso gera especulações sérias e dá mais definição às “miragens”. Parece que só a Gleisi não entendeu isso.
Desde o começo do atual governo, a esquerda, sem dúvida, enfrenta sua maior crise perante a opinião pública. Está claro qual é o calcanhar de Aquiles do socialismo brasileiro — e não são mais apenas as questões econômicas e a corrupção, mas também, e talvez de forma mais grave, a segurança pública. O engasgo em condenar o que, para o homem comum, é tão óbvio de ser condenado é a marca do socialismo latino-americano contemporâneo. Ao mesmo tempo que a esquerda se afasta do homem comum, do trabalhador e das famílias, aproxima-se claramente das turbas identitárias e das ideias relativistas no campo da segurança.

Nunca a esquerda brasileira esteve tão moralmente longe do povo. Lula é hoje uma mistura de esquerda forçosamente reinventada — sem espinha moral — e uma persona gagá, munida de uma cansativa e já batida retórica sindical. No cantão de seus especialistas, os doutos sociólogos chegam a bufar de raiva quando a polícia mata os soldados do crime e, como solução acadêmica ante um exército de traficantes armados com drones de guerra e lança-mísseis, oferecem o arremesso de pedras e disparos de teses de doutorado. O povo olha isso e se afasta, tal como nos afastaríamos de um louco em ataque de histeria.
Aos amigos comunistas, notem que esse nó na garganta em condenar o claramente condenável pode até mesmo parecer um apoio deliberado. E vale sempre lembrar que Doca, o segundo chefe maior do CV — um dos motivos da ação policial da semana passada —, ficou nove anos preso até ser liberado em 2016; e Débora Rodrigues, que passou batom em uma estátua, pegou 14 anos. Adivinhem quem não teve engasgo ou dúvida em condená-la publicamente? Como eu disse: o que parecia conspiração, o que era miragem… hoje…