PIB do Paraguai cresce três vezes mais que o do Brasil no 1º semestre

Economia paraguaia avançou 5,7%, contra 1,9% da brasileira. Regime tributário para exportações impulsiona a indústria e atrai empresas interessadas em produzir no país vizinho.

Compartilhe
Vista aérea do Palácio de López, em Assunção, no Paraguai, com jardins, bandeira paraguaia e o rio ao fundo.
Vista aérea do Palácio de López, sede do governo paraguaio, em Assunção. O Paraguai registrou crescimento de 5,7% no PIB no primeiro semestre de 2026, três vezes o avanço do Brasil. | Foto: Cmasi/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0 (arquivo, 2018)

Enquanto a economia brasileira cresceu 1,9% no primeiro semestre de 2026, o Paraguai registrou uma expansão de 5,7% no mesmo período. O resultado, divulgado pelo Banco Central do Paraguai (BCP), coloca o país vizinho entre os destaques econômicos da América do Sul e expõe uma diferença expressiva de desempenho em relação ao Brasil.

O avanço paraguaio foi exatamente três vezes o registrado pela economia brasileira, segundo os indicadores oficiais dos dois países. A comparação ganha relevância em meio ao debate sobre competitividade, carga tributária e atração de investimentos industriais.

O crescimento não ficou restrito ao agronegócio ou à geração de energia. Serviços, indústria e construção também contribuíram para a expansão, mostrando que a atividade econômica avançou em diferentes setores.

Paraguai cresce 5,7% e supera seis economias sul-americanas

De acordo com o relatório de Contas Nacionais Trimestrais do BCP, o Produto Interno Bruto (PIB) paraguaio acumulou alta de 5,7% nos seis primeiros meses de 2026. Somente no segundo trimestre, o crescimento foi de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Na comparação regional, o Paraguai registrou desempenho superior ao de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai.

ECONOMIA | AMÉRICA DO SUL
PIB: Paraguai x Brasil
Crescimento acumulado no 1º semestre de 2026
Paraguai
+5,7%
Brasil
+1,9%
DIFERENÇA DE CRESCIMENTO
3,8 pontos percentuais
A barra do Paraguai corresponde ao maior valor da comparação; a do Brasil é proporcional a ela. Dados: Banco Central do Paraguai e IBGE. Variação em relação ao primeiro semestre de 2025.
Paraguai apresentou crescimento econômico três vezes superior ao brasileiro no primeiro semestre de 2026.

Além do Paraguai, o Peru cresceu 3%, a Colômbia avançou 2,9% e a Argentina registrou alta de 2,2%. O Uruguai apresentou expansão de 0,3%, enquanto o Chile teve retração de 0,3%.

O desempenho paraguaio também se destaca por sua composição. Segundo os dados oficiais, o PIB teria crescido 5,2% no semestre mesmo sem considerar a agricultura e as entidades binacionais de energia.

Indústria, serviços e agricultura impulsionam crescimento

A agricultura foi um dos principais motores da economia paraguaia, com expansão de 12,3% no primeiro semestre, beneficiada especialmente pela produção de soja e de outras culturas.

Mas os números mostram que o crescimento foi mais abrangente. A geração de eletricidade e o setor de água, incluindo as operações binacionais, avançaram 8,5%. Os serviços cresceram 5,7%, a construção teve alta de 4,9% e a indústria de transformação registrou expansão de 4%.

O Banco Central do Paraguai também apontou contribuições positivas das exportações líquidas e do consumo. Por outro lado, a formação bruta de capital apresentou resultado negativo na comparação do segundo trimestre, indicando que nem todos os componentes da economia avançaram no mesmo ritmo.

Os dados mostram uma economia em expansão, mas também reforçam a importância de observar a composição do crescimento, e não apenas o percentual geral do PIB.

Regime de Maquila atrai indústrias com tributação de 1%

Uma das principais ferramentas utilizadas pelo Paraguai para atrair investimentos industriais é o chamado Regime de Maquila, que concede condições tributárias especiais a empresas que produzem bens ou prestam serviços destinados à exportação.

O sistema estabelece um tributo único de 1% calculado sobre o maior valor entre a fatura de exportação e o valor agregado nacional, além de prever outros benefícios fiscais e aduaneiros.

O modelo reduz determinados custos de operação e favorece empresas que pretendem utilizar o Paraguai como base produtiva para atender mercados externos, inclusive o brasileiro.

Para Suelen Raizer, fundadora da consultoria Frontexa, a combinação de incentivos ao investimento e instrumentos de financiamento pode estimular novos empreendimentos industriais.

“Quando um país combina incentivos ao investimento, mecanismos de garantia e crédito de longo prazo, ele reduz parte da incerteza financeira associada à implantação industrial.”

Segundo a especialista, mecanismos bem estruturados podem atrair capital privado, ampliar cadeias produtivas e gerar empregos. Os resultados, contudo, dependem da capacidade de transformar os incentivos em investimentos efetivos.

Exportações industriais ultrapassam US$ 1 bilhão

O desempenho das indústrias que operam sob o Regime de Maquila ajuda a dimensionar o avanço do setor produtivo paraguaio.

Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações dessas empresas somaram US$ 1,01 bilhão, crescimento de 26% em comparação com os US$ 801 milhões registrados no mesmo período de 2025.

Autopeças, confecções, bebidas e produtos de alumínio responderam por aproximadamente 70% das exportações realizadas sob o regime.

Segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, 77% dos produtos exportados pelas maquiladoras tiveram como destino países do Mercosul, principalmente Brasil e Argentina.

A expansão também se refletiu no mercado de trabalho, com o setor alcançando cerca de 40 mil empregos diretos.

O crescimento das exportações e a geração de postos de trabalho ajudam a explicar por que o país vizinho vem despertando interesse de empresas estrangeiras, inclusive brasileiras.

Empresas brasileiras ampliam presença no Paraguai

A combinação de incentivos tributários, custos operacionais e acesso ao Mercosul tem estimulado companhias brasileiras a instalar unidades produtivas em território paraguaio.

Segundo dados atribuídos à Confederação Nacional da Indústria (CNI), o número de empresas brasileiras presentes no Paraguai passou de aproximadamente 40, em 2015, para mais de 200 em 2025.

O movimento envolve principalmente setores industriais que buscam condições competitivas para produzir e exportar. A instalação de fábricas no país vizinho não significa necessariamente o encerramento das operações no Brasil, mas revela uma reorganização de investimentos e cadeias de produção.

Para a economia brasileira, a expansão desse movimento levanta uma questão relevante: como tornar o ambiente de negócios mais competitivo para preservar e atrair atividades industriais?

Diferença entre Paraguai e Brasil reforça debate sobre competitividade

O contraste entre os resultados econômicos dos dois países ocorre em um momento de discussão sobre crescimento, produtividade e condições de investimento no Brasil.

O desempenho do Paraguai não pode ser atribuído exclusivamente à menor tributação. A expansão agrícola, a geração de energia, as exportações e o consumo também tiveram participação importante nos números apresentados pelo Banco Central.

Ainda assim, o avanço das indústrias exportadoras e o interesse de empresas brasileiras pelo país vizinho colocam a competitividade tributária e regulatória no centro do debate econômico.

Enquanto o Paraguai amplia sua presença como destino de investimentos produtivos, o desafio brasileiro é criar condições para que suas próprias empresas encontrem vantagens em investir, produzir e gerar empregos dentro do país.

Mais sobre o assunto

Comentários 0

Participe da conversa. Opiniões são bem-vindas quando mantêm respeito e relação com o assunto. Comentários podem passar por moderação antes da publicação.

Deixe seu comentário

Seu comentário deve contribuir com a discussão. Consulte também nossa Política de Privacidade.