A cinco dias do segundo turno presidencial, a Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), candidato que enfrenta Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador, e chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde foi distribuído por sorteio ao ministro Alexandre de Moraes.
A divulgação do caso, no domingo (18), provocou apreensão entre integrantes do PL e apoiadores de Flávio, que questionam os possíveis efeitos da investigação na reta final da campanha. O episódio ganhou dimensão política ainda maior quando Lula desafiou o adversário a abrir seus sigilos bancário e telefônico. Nesta terça-feira (20), integrantes da comunicação do presidente voltaram a cobrar publicamente a abertura do sigilo bancário do senador, mencionando sua ligação com Tomaz.
Até agora, não foram divulgadas provas consistentes de irregularidade cometida por Flávio Bolsonaro. O senador nega qualquer relação financeira ilícita com o advogado. Também não existe denúncia criminal ou condenação decorrente desse novo inquérito.
O que levou a PF a investigar Flávio Bolsonaro
A investigação começou no Rio Grande do Sul, durante uma apuração sobre possíveis crimes financeiros envolvendo plataformas de pagamento digital e empresas de apostas esportivas. Os investigadores suspeitam que negócios ligados a Willer Tomaz possam ter sido utilizados para lavar dinheiro de origem ainda não identificada.
Em uma operação contra o advogado, a Polícia Federal encontrou arquivos que indicariam uma possível ligação financeira entre ele e Flávio. Entre os registros estaria um e-mail enviado por uma funcionária de Tomaz a uma instituição bancária, em 2025, solicitando a retirada do nome do senador de uma conta vinculada a uma empresa no exterior.
A existência desse registro não comprova que os dois tenham compartilhado uma conta ou realizado operações ilegais. As defesas de Flávio e Tomaz negam a existência de conta conjunta, sociedade comercial ou movimentação financeira irregular.
A PF também identificou registros de viagens internacionais realizadas por Flávio e Tomaz em 2025 e documentos que sugeririam a participação de empresas relacionadas ao advogado na intermediação de passagens para o senador e seus familiares. A defesa contesta as suspeitas.
Um ponto relevante da apuração é que os investigadores não encontraram indícios de contrapartida oferecida por Flávio a Tomaz.
Por que o inquérito foi parar nas mãos de Moraes
O procedimento foi encaminhado ao STF porque Flávio exerce mandato de senador. Na Corte, o caso foi distribuído por sorteio a Alexandre de Moraes, ministro que também esteve à frente de processos envolvendo Jair Bolsonaro e outras pessoas ligadas ao ex-presidente.
Moraes não escolheu pessoalmente investigar o candidato, nem instaurou o inquérito por iniciativa própria. Ainda assim, sua designação como relator acirrou o confronto político em torno do Supremo, especialmente pela proximidade da votação.
O constitucionalista André Marsiglia considera que a combinação entre a investigação, a relatoria de Moraes e os últimos dias da campanha provoca questionamentos sobre possíveis efeitos político-eleitorais. O especialista ressalta, contudo, que o procedimento foi distribuído regularmente por sorteio.
Mais contundente, o constitucionalista Alessandro Chiarottino interpreta a sucessão dos acontecimentos como uma possível reação de proteção do sistema político e institucional:
“Certamente, tudo indica que o objetivo é esse: o regime se protegendo”.
Essa é a avaliação do jurista, não uma conclusão estabelecida pela investigação. Até o momento, não há comprovação de que o inquérito tenha sido instaurado para interferir no resultado eleitoral.
Lula cobra sigilos enquanto outra investigação avança
A reação de Lula começou poucas horas depois de o novo caso vir a público. No domingo (18), o presidente propôs que ambos os candidatos abrissem seus sigilos bancário e telefônico. Nesta terça-feira, sua equipe retomou a cobrança em entrevista coletiva, citando diretamente a relação entre Flávio e Willer Tomaz.
O novo inquérito se soma a outra investigação que alcança o entorno do candidato do PL. Sob a relatoria do ministro André Mendonça, a Polícia Federal apura o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e a origem de recursos associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Na sexta-feira (16), a PF pediu mais 90 dias para concluir essa segunda investigação. Os investigadores ainda aguardam perícias e informações financeiras solicitadas ao exterior.
Os dois procedimentos são distintos e não devem ser confundidos. Nenhum deles, por sua simples existência, comprova crime praticado por Flávio ou impede sua candidatura.
Investigação pode desgastar candidato sem produzir condenação
Juristas consultados sobre o caso destacam que a abertura de um inquérito já pode provocar consequências políticas, mesmo sem denúncia formal. Para o criminalista Márcio Nunes, a repercussão de suspeitas nos últimos dias de uma disputa presidencial acirrada pode afetar a campanha, embora não demonstre a existência de uma operação destinada a interferir nas urnas.
O penalista Gauthama Fornaciari também chama atenção para as garantias processuais nas investigações conduzidas pelo Supremo. Ele critica problemas que identifica em procedimentos anteriores, como dificuldades de acesso das defesas às provas, delimitação insuficiente de investigações e medidas cautelares prolongadas.
Já sobre a possibilidade de o inquérito impedir uma eventual posse de Flávio, os especialistas observam que a abertura da investigação, isoladamente, não produz esse efeito. Qualquer consequência dessa natureza dependeria de fundamentos jurídicos e decisões posteriores.
O 40graus já explicou as garantias contra prisão aplicáveis aos candidatos durante o período eleitoral, que também não representam imunidade contra investigações.
A defesa de Flávio sustenta que a relação com Tomaz é pessoal e acusa adversários de explorar politicamente suspeitas sem demonstração de irregularidade. O advogado também nega vínculos comerciais ou financeiros ilícitos com o senador.
Assim, a cinco dias da eleição, Flávio enfrenta uma nova investigação sob a relatoria de Moraes, enquanto Lula utiliza publicamente o caso para cobrar a abertura de sigilos. A apuração prossegue sem denúncia formal contra o candidato e sem prova divulgada de que tenha sido criada para interferir no segundo turno.
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