O orçamento doméstico está cada vez mais apertado para uma parcela significativa dos brasileiros. Em setembro de 2026, 24,9% da população precisou contrair dívidas ou recorrer ao dinheiro guardado para pagar despesas básicas, como contas de água, energia elétrica e gás.
O levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostra que praticamente um em cada quatro brasileiros já enfrenta dificuldades para cobrir gastos essenciais com os recursos disponíveis no mês.
O percentual é o maior registrado para setembro desde 2022, quando chegou a 25,4%. O resultado também se aproxima dos níveis observados durante a recessão de 2015 e 2016, período marcado pela deterioração da situação financeira das famílias.
Dívidas e poupança entram no orçamento do dia a dia
O dado chama atenção porque o endividamento e o uso de reservas financeiras estão sendo utilizados para cobrir despesas recorrentes, e não apenas compras de maior valor ou situações extraordinárias.
Na prática, isso significa que parte dos consumidores precisa recorrer ao crédito ou retirar recursos acumulados anteriormente para conseguir manter compromissos mensais, como contas de consumo e outros gastos indispensáveis.
O economista Rodolpho Tobler, pesquisador do FGV Ibre, avalia que o quadro é preocupante porque a estabilização do mercado de trabalho tem reduzido a capacidade de compensar o peso das dívidas sobre as famílias.
Em períodos anteriores, a recuperação dos rendimentos do trabalho ajudava a aliviar a percepção negativa sobre as finanças domésticas. Agora, segundo o pesquisador, o elevado endividamento dificulta uma melhora mais consistente.
Aperto financeiro também atinge famílias de renda mais alta
A pesquisa mostra que as dificuldades para pagar despesas básicas não estão restritas às famílias de menor renda.
Entre os brasileiros com renda familiar superior a R$ 4,8 mil, 25,7% relataram necessidade de contrair dívidas ou utilizar recursos guardados para fechar as contas. Na faixa de renda familiar de até R$ 4,8 mil, o percentual foi de 24,3%.
Embora o resultado do grupo de renda mais alta tenha superado o das famílias de menor renda, Tobler observa que essa diferença pode representar um movimento pontual de setembro, influenciado também por programas de renegociação de débitos.
Os números indicam que o comprometimento do orçamento doméstico alcança diferentes faixas de renda, ainda que as condições financeiras e a capacidade de pagamento variem entre os grupos.
Brasil tem quase 84 milhões de inadimplentes
O quadro se soma ao elevado número de consumidores com dívidas em atraso. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o Brasil encerrou agosto de 2026 com quase 84 milhões de pessoas inadimplentes.
Desse total, 20,7% das pendências estavam relacionadas a contas básicas, como água, energia elétrica e gás. A categoria aparecia atrás apenas das dívidas com bancos e cartões de crédito, responsáveis por 27,3% dos registros.
Na cidade de São Paulo, as contas básicas representavam 28,58% das pendências, percentual superior ao observado no conjunto do país.
Os dados reforçam a pressão das despesas essenciais sobre o orçamento. Quando uma família precisa financiar gastos recorrentes ou utilizar suas reservas para quitá-los, sobra menos dinheiro para emergências e compromissos futuros.
Confiança do consumidor também recua
Outro levantamento da FGV Ibre aponta que a confiança do consumidor brasileiro caiu pelo quinto mês consecutivo em setembro.
O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) recuou 0,5 ponto, chegando a 84,2 pontos, menor nível desde novembro de 2022. O resultado foi influenciado principalmente pela piora das expectativas para os próximos meses.
A combinação de dívidas elevadas, dificuldades para pagar despesas essenciais e perspectivas econômicas menos favoráveis evidencia a fragilidade das finanças de parte da população.
Mesmo com o acesso ao crédito e a possibilidade de renegociar débitos, o desafio permanece: garantir que a renda mensal seja suficiente para pagar as contas sem comprometer continuamente a poupança ou assumir novas dívidas.
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