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Saúde

TOD: quando o que parece “falta de limites” é uma condição neurobiológica

Não conseguir sair de casa, não sentir prazer na companhia do próprio filho. Receber reclamações em todos os lugares que ele frequenta. Estar no meio desse furacão sem entender como agir. Essa é a realidade de quem convive com o transtorno opositor desafiador (TOD), um caos carregado de culpa e do julgamento de todos os dedos apontando para você.

Quando percebi a mudança no comportamento do meu caçula, repetiam que era “falta de limites”. Como já era mãe de outros dois filhos e comparava as condutas, aquela carapuça de mãe “permissiva” não me servia, mas nem médicos nem psicólogos me davam direcionamento claro. Foi um psicopedagogo, em conversa informal, quem trouxe a hipótese do TOD, confirmada depois por uma neuropediatra.

Busquei especialização para entender o cérebro do meu filho e mudar minha forma de conduzi-lo, pois notei logo que autoritarismo não funcionava. Nessa trajetória, senti falta de recursos lúdicos que o ajudasse a encarar a terapia e a se autorregular. Daí surgiu meu livro, Lucas vai à terapia (Clique para comprar), que além de ajudar meu filho, hoje apoia outras crianças e profissionais.

É difícil lidar com a situação quando muitos acham que é tudo e falta de “pulso firme” dos pais. O TOD consta no DSM-5, mas mesmo entre médicos ainda está longe de ser plenamente reconhecido.

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Estudos recentes apontam que muitos casos permanecem subdiagnosticados ou mal diagnosticados, inclusive por sobreposição de sintomas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou transtorno de conduta, o que atrasa o tratamento adequado, como vivi em minha família.

O que a ciência mostra sobre o TOD

Pesquisas já mostram o que está por trás do comportamento. Estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, em 2024, encontrou TOD em 53% das crianças com TDAH tipo combinado, número que sobe para 62% quando há também autismo associado, e 24% em crianças apenas autistas.

O TOD costuma caminhar ao lado de outras condições do neurodesenvolvimento e é preciso compreender para saber lidar.

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Também é essencial dizer que o TOD não é falta de educação. Longe disso, ainda que seja a visão de muitos. Uma meta-análise de neuroimagem publicada na Neuropsychology Review, por exemplo, identificou mudanças no cérebro de crianças com o transtorno: volume reduzido em áreas cerebrais como amígdala, ínsula e giro frontal, regiões ligadas à regulação emocional e ao autocontrole.

Há uma base neurobiológica real por trás dos comportamentos, e não é o que resumem, erroneamente, como “má criação”.

Os sinais de alerta do TOD

Os sinais de alerta incluem irritabilidade frequente e desproporcional, oposição que vira um “cabo de guerra” diante de pedidos simples, comportamento vingativo após repreensões, dificuldade de controlar impulsos, conflitos na escola e, consequentemente, prejuízo notável nas relações com outras crianças e familiares. A criança com TOD também sofre ao não conseguir se controlar.

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O papel dos pais no tratamento

Um ponto que sempre ressalto é: os pais não causam o TOD, mas são os responsáveis pelo sucesso do tratamento! Como educadora parental reforço que o manejo comportamental em casa é o pilar central da intervenção, mais decisivo do que poucas horas semanais de terapia em consultório – ainda que a terapia também seja fundamental.

A orientação parental ajuda a substituir reações autoritárias por comunicação firme e sem ruído emocional, a desescalar crises e a criar rotina previsível, reduzindo a reatividade do cérebro infantil.

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Unindo os meus estudos teóricos à vivência prática como mãe que sentiu na pele o peso desse diagnóstico, hoje me dedico a guiar outras famílias, ofereço ferramentas concretas, acolhimento e direcionamento claro para transformar o caos em conexão.

Eu sei que é possível conquistar um desenvolvimento saudável e respeitoso para essas crianças e fiz disso minha missão.

*Cintia Matos é educadora parental, autora de “Lucas vai à terapia” e mãe de uma criança diagnosticada com Transtorno Opositor Desafiador (TOD)

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