A proibição das bets anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira, 25, repercutiu positivamente nas redes sociais, mas o petista aparece pouco associado à iniciativa. Segundo levantamento da consultoria AP Exata, Lula não é mencionado em 68,2% das publicações sobre o tema.
O estudo analisou 180 mil menções à medida provisória (MP) que proibiu as apostas online no Brasil, publicadas no X e no Instagram em 25 e 26 de setembro. Em 18,6% das manifestações, o presidente é elogiado, recebe crédito pela decisão ou é defendido. Outros 6,2% apoiam a proibição, mas fazem ressalvas à atuação do governo.
“As críticas ao presidente exploram sobretudo a decisão anterior do governo de regulamentar o setor e a proximidade da eleição”, afirma Sergio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados. O estudo foi obtido e divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo.
O anúncio ocorreu a nove dias da eleição e em meio à tentativa do PT de ampliar o apoio entre as mulheres, segmento em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem ganhando espaço nas pesquisas Quaest.

Regulamentação das bets no governo Lula alimenta críticas
A popularidade da proposta de proibir as apostas encontra respaldo em pesquisas de opinião. Levantamento Atlas/Bloomberg divulgado neste mês indica que 75% dos brasileiros concordam total ou parcialmente com a retirada das bets do país. Entre as mulheres, o índice chega a 82%, ante 68% entre os homens.
A repercussão favorável à proibição, contudo, contrasta com o histórico da atuação do governo petista no setor. Embora Lula agora defenda o fim das apostas em nome da proteção das famílias, foi durante seu mandato que a atividade passou a contar com regras de funcionamento e tributação.
As apostas online foram legalizadas em 2018, durante o governo Michel Temer. No mandato de Jair Bolsonaro, as empresas continuaram operando sem a regulamentação específica que seria estabelecida posteriormente.

Com a chegada de Lula ao poder, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), defendeu a regulamentação. Na ocasião, Haddad criticou a gestão anterior e afirmou que o governo Bolsonaro havia sentado “em cima do problema, como se ele não existisse”.
A legislação foi sancionada por Lula em dezembro de 2023, depois da aprovação pelo Congresso Nacional. A norma estabeleceu requisitos para a exploração das apostas, regras tributárias, critérios para a distribuição da arrecadação e sanções para as empresas que descumprissem as exigências.
A mudança permitiu organizar a atividade sob um marco regulatório, em vez de manter o setor sem as regras específicas que passaram a valer posteriormente.
O histórico legislativo também expõe uma contradição entre o discurso atual de proteção às famílias e a posição adotada pela base governista durante a discussão da regulamentação.

Na tramitação do projeto que estabeleceu as regras para as bets, as bancadas do PT e do governo na Câmara votaram contra uma emenda que impediria beneficiários de programas sociais de fazer apostas online.
O projeto de regulamentação havia sido enviado ao Congresso pelo próprio governo Lula e acabou aprovado com votos de parlamentares governistas. A lei foi sancionada pelo presidente em dezembro de 2023.
Agora, ao anunciar a proibição, Lula apresenta a proteção das famílias como justificativa para a medida. Nas redes sociais, porém, a iniciativa ainda aparece pouco vinculada ao presidente, enquanto as críticas identificadas pela AP Exata destacam justamente a decisão anterior de regulamentar o setor e o contexto eleitoral do anúncio.