OMS desaconselha canetas emagrecedoras e cirurgia bariátrica para crianças menores de 10 anos

Primeiras diretrizes globais para obesidade infantil priorizam alimentação saudável, atividade física e acompanhamento familiar; no Brasil, 16,5 milhões de crianças e adolescentes vivem com a doença

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Canetas de medicamentos para tratamento da obesidade, cujo uso em crianças menores de 10 anos é desaconselhado pela OMS.
OMS divulga novas diretrizes para o tratamento da obesidade infantil e desaconselha medicamentos emagrecedores para menores de 10 anos | Imagem ilustrativa

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou novas recomendações para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes, estabelecendo restrições ao uso de medicamentos emagrecedores e cirurgias bariátricas em pacientes menores de 10 anos. As orientações, publicadas na quarta-feira (7), fazem parte das primeiras diretrizes globais da entidade voltadas especificamente ao enfrentamento da doença nessa faixa etária.

A principal recomendação da OMS é que o tratamento comece com mudanças na alimentação, incentivo à atividade física e acompanhamento comportamental, envolvendo diretamente os pais ou responsáveis. Essas medidas devem ser mantidas por pelo menos seis meses antes da avaliação de outras alternativas terapêuticas.

A organização publicou dois documentos: um destinado a crianças com menos de 10 anos e outro voltado a adolescentes de 10 a 19 anos. As recomendações levam em consideração as diferenças de desenvolvimento físico, as condições de saúde e os possíveis riscos associados aos tratamentos.

Obesidade infantil quadruplicou no mundo desde 1990

O avanço da obesidade entre crianças e adolescentes é um dos principais motivos para a publicação das novas orientações.

Segundo a OMS, aproximadamente 170 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com obesidade em 2024. A proporção de pessoas afetadas nessa faixa etária passou de 2% em 1990 para 8% em 2024.

No Brasil, os números também são elevados. Dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026 apontam que cerca de 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos convivem com a doença.

Entre os adolescentes de 10 a 19 anos, o número chega a aproximadamente 9,9 milhões. Somadas, as duas faixas etárias representam 16,5 milhões de brasileiros afetados pela obesidade.

OMS aponta falta de evidências sobre canetas em crianças

As chamadas canetas emagrecedoras, que incluem medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, não são recomendadas pela OMS para menores de 10 anos.

A organização considera que ainda existem evidências insuficientes sobre os benefícios e a segurança desses tratamentos em crianças pequenas.

Entre as principais preocupações estão os possíveis efeitos adversos sobre o crescimento, o desenvolvimento físico, o funcionamento do organismo e a saúde mental.

A endocrinologista Maria Edna de Melo, coordenadora do Departamento de Advocacy da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), explicou que já existem pesquisas envolvendo medicamentos como liraglutida e semaglutida em crianças de 6 a 11 anos.

Entretanto, a especialista destacou que a existência de estudos não significa autorização automática para utilização dos medicamentos.

No Brasil, a indicação formal de um tratamento depende da avaliação e da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Adolescentes podem receber medicamentos em situações específicas

Para pacientes entre 10 e 19 anos, as recomendações admitem a possibilidade de tratamento medicamentoso em determinadas circunstâncias.

O uso de medicamentos pode ser considerado quando o adolescente apresenta complicações associadas à obesidade, como diabetes tipo 2, e não obtém resposta suficiente após pelo menos seis meses de mudanças no estilo de vida.

Nesses casos, a decisão deve levar em conta as condições clínicas do paciente e os riscos e benefícios envolvidos.

A orientação não representa uma liberação generalizada das canetas emagrecedoras para adolescentes. A utilização de cada medicamento continua dependendo das indicações aprovadas pelas autoridades sanitárias e de avaliação médica individualizada.

Cirurgia bariátrica deve ser evitada antes dos 10 anos

A OMS também desaconselha cirurgias bariátricas e outros dispositivos destinados à perda de peso em crianças menores de 10 anos.

A restrição está relacionada à falta de evidências suficientes sobre a segurança desses procedimentos e aos riscos de interferência no desenvolvimento infantil.

Maria Edna de Melo explicou que a cirurgia bariátrica envolve mudanças irreversíveis e pode provocar complicações, o que exige cautela ainda maior em pacientes dessa idade.

Para adolescentes, a cirurgia é considerada uma alternativa excepcional, reservada a casos de obesidade grave nos quais outros tratamentos não tenham apresentado resultados satisfatórios.

A avaliação deve considerar a gravidade da doença, as condições de saúde e as particularidades do desenvolvimento de cada paciente.

Saúde mental também deve fazer parte do tratamento

Além dos aspectos físicos, a OMS recomenda atenção aos efeitos emocionais e psicológicos associados à obesidade infantil.

Crianças e adolescentes que convivem com a doença podem enfrentar episódios de preconceito, constrangimento e bullying, situações que prejudicam a autoestima e o bem-estar emocional.

Problemas como ansiedade, depressão e dificuldades de regulação emocional também podem contribuir para comportamentos alimentares inadequados, sedentarismo e isolamento social.

Por isso, a entidade orienta que os profissionais de saúde considerem conjuntamente as necessidades físicas e psicológicas dos pacientes, com estratégias adequadas à idade e participação da família.

OMS cobra políticas públicas para combater obesidade infantil

As novas diretrizes também destacam que o enfrentamento da obesidade não depende exclusivamente das decisões individuais das famílias.

A diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, Luz María De Regil, defendeu a ampliação do acesso a serviços de saúde e a ambientes que favoreçam hábitos saudáveis desde a infância.

Entre as medidas recomendadas estão o fortalecimento da atenção primária, a ampliação da assistência à saúde, a educação nutricional e a criação de espaços públicos destinados à prática de atividades físicas.

A organização também incentiva investimentos em ciclovias, praças e áreas de recreação, além de iniciativas que facilitem o acesso a uma alimentação adequada.

As diretrizes estabelecem que o tratamento da obesidade infantil deve priorizar o acompanhamento contínuo e individualizado, com atenção às condições sociais, culturais e familiares de cada criança ou adolescente.

 

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