Depois de um ano marcado por atritos com o Palácio do Planalto, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), passou a atuar como um aliado estratégico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em temas sensíveis às vésperas das eleições.
Além de servir de anteparo para propostas aprovadas pelo Senado com impacto nas contas públicas, o deputado é visto por governistas como peça-chave para barrar pautas de forte apelo popular que podem favorecer a oposição, como a redução da maioridade penal.
A aproximação ocorre em meio ao desgaste na relação do governo federal com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Nos bastidores, integrantes do Palácio do Planalto avaliam que hoje há maior capacidade de interlocução com Motta do que com a cúpula do Senado, que, nas últimas semanas, acelerou a tramitação de propostas consideradas preocupantes pela equipe econômica.
A parceria ganhou novos contornos após o governo retirar a urgência constitucional do projeto que regulamenta o fim da escala 6×1. A medida atendeu a um pedido do presidente da Câmara e foi interpretada por aliados como um gesto para preservar o bom ambiente entre os dois lados. Em contrapartida, governistas esperam contar com Motta para retardar a análise de matérias que ampliam gastos públicos e evitar a abertura de novas frentes de desgaste para Lula.
Entre as propostas que preocupam o governo está o projeto aprovado pelo Senado que permite a utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para renegociar dívidas de produtores rurais. Segundo estimativas da equipe econômica, a medida pode ter impacto de R$ 140 bilhões em dez anos. A Frente Parlamentar do Agronegócio diz que o impacto é de R$ 3,5 bilhões ao ano.
Também estão no radar do Palácio do Planalto iniciativas que elevam o piso salarial de médicos e dentistas e criam regras próprias de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias. Ao mesmo tempo, a atuação de Motta é vista por governistas como importante para impedir que a oposição transforme temas de grande apelo popular em bandeiras da campanha de 2026.
Um dos principais exemplos é a proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A admissibilidade da proposta de emenda à Constituição (PEC) foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas a tramitação depende da instalação de uma comissão especial pelo presidente da Câmara.
“Ao não instalar a comissão especial, Motta utiliza o regimento para ‘congelar’ um tema de alto potencial de polarização ideológica”, afirma Érico Oyama, consultor de análise política da BMJ Consultores Associados. Segundo ele, a medida representa uma escolha política voltada a evitar desgastes com o governo em um tema de forte apelo eleitoral.
Relação entre Lula e Motta muda em ano eleitoral
A mudança na relação entre Lula e o presidente da Câmara acontece após um ano marcado por embates e acusações de quebra de acordos. Em 2025, integrantes do governo chegaram a classificar o deputado paraibano como “imprevisível” diante do avanço de pautas defendidas pela oposição, como a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro.
O desgaste atingiu o ápice com o rompimento público entre Motta e o então líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ). Aliados do presidente da Casa acusavam o petista de tentar impor posições do governo nas reuniões de líderes e de estimular ataques nas redes sociais. Na época, Motta comunicou ao Palácio do Planalto que deixaria de tratar diretamente com Lindbergh.
O cenário, no entanto, começou a mudar com a aproximação das eleições deste ano e o agravamento da crise entre o governo e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Nos bastidores, auxiliares de Lula passaram a apostar em uma relação mais próxima com Motta para avançar em pautas de interesse do governo e conter propostas aprovadas pelos senadores que ameaçam o equilíbrio fiscal.
Para Oyama, a reaproximação é resultado de interesses mútuos e não representa uma aliança permanente. “Trata-se de uma convergência puramente tática e circunstancial. Não há alinhamento programático de longo prazo; o que existe é uma troca de conveniências”, afirma.
Segundo o especialista, a aproximação atende a necessidades dos dois lados. “Para o Palácio do Planalto, diante do desgaste acentuado no Senado, a Câmara tornou-se a trincheira essencial para frear a agenda de pautas-bomba que ameaça o arcabouço fiscal. Para Motta, a interlocução direta com Lula garante protagonismo na condução de temas de alto impacto popular e fortalece sua liderança interna”, analisa.
Aproximação tenta favorecer pré-campanha do pai de Motta ao Senado
O presidente da Câmara também intensificou os gestos de aproximação a Lula de olho nas eleições de outubro na Paraíba, onde seu pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley (Republicanos-PB), é pré-candidato ao Senado. A avaliação entre aliados de Motta é que o capital eleitoral do petista no Nordeste pode fortalecer o projeto político do grupo do presidente da Câmara no estado.
O movimento, porém, sofreu um revés após o presidente gravar um vídeo em apoio à reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), adversário de Nabor na disputa por uma das duas vagas ao Senado. Apesar do gesto, integrantes do PT minimizam os efeitos sobre a relação com o presidente da Câmara.
O presidente nacional do partido, Edinho Silva, afirma que os laços construídos entre Lula e Motta transcendem a disputa local na Paraíba. “Penso que as relações que o presidente construiu com Hugo Motta são relações sólidas. São relações políticas de interesse do país, portanto, de longo prazo. Não significa que ele declarar apoio ou gravar um vídeo com um aliado também histórico vá estremecer essa relação”, declara.
Na mesma linha, interlocutores de Motta afirmam que a relação com o Palácio do Planalto não foi abalada e sustentam que o PT continuará na aliança estadual ao lado do Republicanos, do PP e do PSB.
Ao comentar o episódio, Motta preferiu direcionar as críticas ao senador paraibano. “Na hora em que meu pai começa a tracionar, ele se desespera; se apega ao único bastião de sobrevivência: o prestígio do presidente Lula. É desespero total [do Veneziano], inclusive queimando a largada do processo eleitoral”, rebate o presidente da Câmara.
Motta segura pautas-bomba do Senado e propostas de interesse da direita
Além do interesse eleitoral na Paraíba, a relação entre Motta e Lula tem como pano de fundo temas considerados sensíveis pelo PT no Congresso. Um dos principais focos de preocupação está nas chamadas “pautas-bomba” aprovadas pelo Senado, que ampliam despesas do Executivo.
Só nas últimas semanas, os senadores avançaram com propostas que podem gerar impacto de aproximadamente R$ 215 bilhões para os cofres públicos. Aos líderes partidários, Motta tem demonstrado resistência em pautar matérias com elevado impacto fiscal, em um movimento interpretado por governistas como um contraponto ao presidente do Senado. A parceria entre Motta e o governo também se estende a temas que podem favorecer a oposição na disputa eleitoral, como a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.
A avaliação entre governistas é que Motta não deve dar andamento à discussão antes das eleições, apesar do apoio popular à proposta. O PT teme que o avanço da matéria possa prejudicar Lula em um dos pontos mais sensíveis do governo, que é a segurança pública.
A pesquisa Real Time Big Data, divulgada em maio, mostrou que 90% dos brasileiros são favoráveis à redução da idade de responsabilização penal, enquanto apenas 8% se declaram contrários à medida e 2% não souberam responder. O apoio à proposta se estende inclusive a parcelas do eleitorado de esquerda.
Para o analista Érico Oyama, o Planalto espera que o presidente da Câmara dos Deputados exerça o papel de anteparo para as propostas aprovadas pelo Senado. “O governo projeta e vocaliza publicamente a expectativa de que Motta atue como um escudo fiscal contra o avanço das matérias aprovadas pelo Senado”, afirma.
- Metodologia da pesquisa citada: A pesquisa Real Time Big Data ouviu 2 mil pessoas em todo o país entre os dias 2 e 4 de maio. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi realizado com recursos próprios do instituto e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-03627/2026.