Horas depois de a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formar maioria para torná-lo réu pelo crime de coação no curso do processo, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL) afirmou não ter ficado surpreso com a decisão da Corte. Instalado nos Estados Unidos, onde vive em exílio político, o parlamentar vê no mais recente avanço do Supremo uma oportunidade para expor as ilegalidades cometidas pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, e pela própria composição da Primeira Turma — que, segundo o deputado, reúne ministros abertamente contrários ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A denúncia aceita pelo STF sustenta que Eduardo teria atuado, a partir dos Estados Unidos, para pressionar autoridades brasileiras por meio de sanções internacionais — especialmente a Lei Magnitsky.
Em entrevista a Oeste, o deputado condenou os abusos cometidos pelo STF, defendeu a liberdade de Bolsonaro, avaliou os cenários das eleições de 2026 e comentou as sanções impostas pelos EUA ao Brasil.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como o senhor recebeu a decisão do STF que o transformou em réu?
Sem surpresas. Vejo, mais uma vez, uma oportunidade para expor as ilegalidades do ministro Alexandre de Moraes e da Primeira Turma do STF. Isso reforça quanto foi justa a aplicação da Lei Magnitsky contra esse violador de direitos humanos. Vale lembrar que não só Moraes, como também o procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi sancionado com a perda do visto norte-americano. E, agora, Gonet e Moraes não se declaram impedidos de me julgar e levam adiante uma acusação fajuta contra mim.
A decisão é juridicamente frágil?
O crime de coação, do qual sou acusado, tem dois requisitos. Um deles seria o “meio” supostamente usado para a suposta coação — e Moraes fala que a Lei Magnitsky seria o instrumento utilizado. Só que a Lei Magnitsky não é assinada por Eduardo Bolsonaro; é assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; pelo secretário do Tesouro, Scott Bassett; e por Marco Rubio, do Departamento de Estado. O segundo requisito para o crime de coação é que seja utilizado um meio ilícito. Mas a Magnitsky é uma legislação norte-americana, aprovada pelo Congresso. Não é meio ilícito. O crime de coação é quando uma pessoa pega uma arma, bota na cabeça de outra e obriga a vítima a ter determinada conduta. Isso não aconteceu.
Como o senhor viu a condenação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro?
Não espero justiça vindo desse STF contaminado. Notoriamente, Jair Bolsonaro foi dragado para uma condenação. Ex-presidentes, como Lula e Michel Temer, foram julgados na primeira instância. Quem julgou Lula foi o ex-juiz Sergio Moro. Temer também não foi julgado pelo STF. E, nas palavras do ministro Luiz Fux, se fosse para dar a Bolsonaro o tratamento de presidente, ainda que ex-presidente, a Suprema Corte deveria tê-lo julgado no plenário — e não na Primeira Turma, onde há uma composição notoriamente contra Bolsonaro.
Como o senhor avalia as relações entre os EUA e o Brasil, diante da imposição das tarifas?
Muito se fala nas tarifas, mas pouca gente presta atenção no essencial. Na carta de Trump, em que houve o anúncio das tarifas, o presidente norte-americano disse que o Brasil está entre os países com as maiores tarifas por causa do lawfare, da perseguição política. Agora, Moraes dobra a aposta contra Trump ao me pôr como réu por atividades que exerci nos EUA. Pode colocar o Dream Team (Time dos Sonhos) da diplomacia brasileira, que não vai desatar esse nó. Isso é consequência do mau funcionamento da democracia no Brasil.
Ao todo, 40% das tarifas são por motivos políticos: lawfare, perseguição a Jair Bolsonaro, interferência em liberdade de expressão e pressão sobre big techs. Se a anistia for aprovada, poderá resolver parte dos problemas citados pelo representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, que citou o problema da perseguição à direita no Brasil. A decisão final cabe ao presidente Trump.
Qual balanço o senhor faz da sua atuação nos EUA?
Cheguei no último dia de fevereiro, antes do Carnaval. Desde o primeiro vídeo, deixei claro que ficaria exilado aqui e tracei minha missão: sancionar o Alexandre de Moraes, o maior violador de direitos humanos da história do Brasil. Logramos êxito. Sem recursos financeiros, quase sem ajuda logística, conseguimos atrair a atenção do governo mais disputado do mundo — graças à genialidade de Paulo Figueiredo e aos meus contatos, muitos deles hoje em posições-chave. Também sancionamos a esposa de Moraes, Vivi Barsi, e suas empresas. Ainda falta muito, porque a Magnitsky é extremamente burocrática. Há milhares de casos, e Moraes está no meio desse bolo. Mas é questão de tempo: a Magnitsky é rigorosa e praticamente impossível de reverter judicialmente.
Moraes deu sinais de recuo, em virtude da aplicação da Lei Magnitisky?
Depois da Magnitsky, Moraes reduziu o ímpeto abusador. Ele já não bloqueia contas como antes. Meu caso é exemplo disso: se o ministro estivesse confortável, já teria derrubado minhas redes sociais. Antes, Moraes tinha apoio do governo de Joe Biden: dinheiro da Usaid, ONGs, agências de checagem, FBI. Isso acabou. Ele está mais fraco. E digo mais: Moraes tem prazo de validade. Ele vai tentar sobreviver barrando uma maioria de direita no Senado em 2026. Como? Condenando pessoas e inserindo-as na Lei da Ficha Limpa. Por isso, sou a favor da revogação total da Lei da Ficha Limpa. Hoje, só é usada contra a direita.
Como o senhor consegue saber notícias do ex-presidente Jair Bolsonaro?
Atualmente, não tenho contato com meu pai. Falávamos por telefone, mas antes das medidas cautelares impostas por Moraes a Bolsonaro. O ministro, ilegalmente, não permite que um filho fale com o pai.
O senhor apoiaria qualquer candidato da direita nas eleições presidenciais de 2026?
A certeza é que haverá um candidato — e não apoiarei Lula. Mas há muita água pra passar debaixo da ponte. O que vejo é pressão para que Bolsonaro tome uma decisão antecipada. Por quê? Porque está acabando a ferramenta de ameaça contra o ex-presidente: enviá-lo para um presídio comum. Se fizerem isso, vão ameaçar com o quê depois? Morte? Querem que Bolsonaro apoie alguém logo para torná-lo politicamente desinteressante. Ele não morre politicamente; o que Bolsonaro fez será estudado por décadas.
Como o senhor vê a pressão para que haja logo uma definição do candidato da direita à Presidência?
Não quero que Bolsonaro seja vítima de extorsão. Quando o tubarão sente cheiro de sangue, vai para cima. Se perceberem que funciona, vão fazer meu pai sofrer mais.Sobre Tarcísio de Freitas: o governador de São Paulo esteve em Nova York e não me procurou para falar de Brasil. Ao voltar ao Brasil, também não chamou o Flávio Bolsonaro para conversar. Depois, disse a Jair Bolsonaro que é candidato à reeleição em São Paulo. Então, tudo bem. Mas não venham me empurrar apoio goela abaixo.Meu time é Jair Messias Bolsonaro. Não vi meu pai levar facada para agora entregar poder a quem quer dialogar com nossos algozes.
Há algumas semanas, houve uma cisão no PL de Santa Catarina sobre os candidatos do partido ao Senado. Como o senhor vê essa situação?
Foi um erro expor uma questão interna do PL publicamente. Eu apoio Carlos Bolsonaro e Carol De Toni para o Senado, como meu pai já disse. O resto é página virada.
O senhor pensa em disputar o Senado?
A vaga no Senado é o melhor dos mundos — mas só existirá se Bolsonaro for presidente. Se Bolsonaro não puder ser candidato, significa que o regime está forte o suficiente para me barrar também. Eles vão tentar me colocar na Lei da Ficha Limpa. Então, minha candidatura não depende da indicação do PL: depende do STF.
O senhor chegou a estar mais próximo dos libertários, na época em que aprofundou os estudos na Escola Austríaca de Economia. Hoje, aderiu a um discurso que parece mais próximo dos ideais de Aleksander Dugin, mentor político do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Como se deu essa mudança?
Zero influência de Dugin. O que tenho é influência da minha experiência nos EUA. O mundo inteiro está revendo o conceito de liberalismo clássico. Trump, por exemplo, comprou ativos da Intel para não perder a soberania em microchips. Um liberal clássico diria que isso é intervenção estatal — mas há setores estratégicos. Não esqueci o que aprendi no Instituto Mises. O debate é: o que é estatal necessário e o que é privatizável?
Estou passando por um momento de maturidade. Lendo mais, estudando mais, conversando com pessoas de alto nível. Sair do turbilhão do Congresso ajuda a ver o Brasil com mais clareza as situações.