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Mais Mendonça, menos Gilmar

Mais Mendonça, menos Gilmar

Na sessão que manteve a prisão dos familiares do banqueiro Daniel Vorcaro, André Mendonça fez o que se espera dos ministros: enfrentou com clareza narrativas distorcidas e ataques reputacionais contra o enfrentamento do crime organizado e da corrupção política. O caso, que mistura colarinho branco e violência concreta, exigia firmeza moral — e a obteve.

A disposição em falar a verdade e aplicar a lei produziu efeitos imediatos. Diante do peso dos fatos concretos expostos na investigação, o ministro Nunes Marques, até então sob forte pressão para soltar os investigados, recuou. Em um voto de improviso, tático e lacônico, preferiu postergar sua posição à espera de novos elementos.

O momento mais pedagógico da sessão, contudo, foi o comportamento de Gilmar Mendes. O decano consumiu boa parte de seu tempo em digressões descabidas sobre a Lava Jato, tentando aplicar à Compliance Zero a mesma receita de desmoralização.

Ao final, isolado diante das provas do julgamento, acabou se atrapalhando na hora de manter sua posição. A astúcia jurídica, desta vez, não conseguiu esconder a fragilidade das teses da defesa que encampou. O advogado deixou o plenário revoltado.

Esse tipo de confronto não é novidade no tribunal. Joaquim Barbosa, no Mensalão, e Luís Roberto Barroso, na Lava Jato, já haviam enfrentado o decano e vencido. O antídoto contra a retórica distorcida e o malabarismo jurídico sempre foi o mesmo: apego aos fatos e recusa em aceitar a impunidade disfarçada de defesa de direitos.

Nos últimos anos, para “derrotar o bolsonarismo”, ministros celebraram uma união pela suposta “defesa da democracia”. Além de injustiças, criou-se um efeito colateral grave: a pasteurização do debate interno. As divergências hoje se limitam a questões menores. O choque real de visões sobre os problemas mais escandalosos do país praticamente desapareceu.

Sob o manto dessa falsa harmonia, ministros como Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino converteram-se em atores virtualmente imunes à crítica de seus pares. Quase sempre impõem suas vontades sob o pretexto de que defendem algo maior — a sobrevivência do tribunal ou do próprio Estado —, como se a democracia dependesse da infalibilidade de suas opiniões pessoais.

Nesse ambiente, o isolamento de André Mendonça preocupa. Ele precisa de mais do que segurança física contra ameaças; necessita de aliados internos que entendam as armadilhas processuais criadas para sufocar investigações e que ajudem a trazer a verdade dos autos para o plenário.

Na série Chernobyl, atribuiu-se ao cientista Valery Legasov frase que resume o custo de se viver sob aparências e conveniências políticas: “Cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Mais cedo ou mais tarde, essa dívida é paga.”

A sociedade brasileira, por experiência própria, já entendeu o que acontece nos bastidores do Supremo Tribunal Federal. Resta saber quando o restante do plenário terá a coragem de encarar a realidade e afirmá-la de frente.

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