A mãe do rapper Oruam, Márcia Gama, e o irmão do cantor, Lucas Santos Nepomuceno, foram presos nesta segunda-feira (19), no Rio de Janeiro, durante uma operação da Polícia Federal contra uma rede de exploração ilegal do serviço de internet ligada ao Comando Vermelho (CV). A ofensiva também resultou na prisão do vereador carioca Fabio Silva (Podemos). Ao todo, 19 pessoas foram detidas até a atualização das informações.
A investigação revelou como a facção teria transformado o fornecimento de internet em uma fonte de arrecadação milionária nos Complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. Segundo a PF, criminosos armados destruíam equipamentos de operadoras concorrentes, impediam reparos e obrigavam moradores e comerciantes a contratar provedores autorizados pelo grupo.
A Justiça determinou o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões, atingindo 40 pessoas físicas e 42 empresas. A operação busca interromper tanto o domínio territorial sobre o serviço quanto o sistema financeiro utilizado para movimentar os recursos.
Mãe de Oruam e outros familiares de Marcinho VP estão entre os presos
Márcia Gama é esposa de Marcinho VP, apontado como liderança do Comando Vermelho. Oruam, nome artístico de Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, é filho do casal.
Além da mãe do rapper, a PF prendeu seu irmão Lucas Santos Nepomuceno. A inclusão dos familiares entre os alvos ocorre em uma investigação que procura rastrear o caminho do dinheiro arrecadado com a exploração dos serviços de telecomunicações em áreas controladas pela facção.
De acordo com a Polícia Federal, parte dos lucros obtidos com o esquema chegava à família de Marcinho VP por meio de empresas arrecadadoras, operadores financeiros e contas utilizadas para movimentar os recursos.
O vereador Fabio Silva, do Podemos, também está entre os detidos. Sua defesa informou que ainda não havia tido acesso aos autos do processo e que se manifestaria depois de examiná-los.
Criminosos cortavam cabos e incendiavam equipamentos de operadoras
O esquema investigado pela PF funcionava por meio da imposição de um monopólio nas comunidades. Operadoras regulares e empresas que tentavam competir com os provedores ligados ao Comando Vermelho eram alvo de ações violentas.
Segundo as investigações, integrantes armados da facção cortavam cabos de conexão, incendiavam caixas de distribuição e impediam que técnicos realizassem reparos. Sem alternativas para contratar o serviço, moradores e comerciantes ficavam submetidos aos provedores autorizados pelos criminosos.
As empresas que recebiam permissão para funcionar nessas áreas precisavam pagar uma cobrança mensal à organização. A exploração da internet passou, assim, a combinar controle territorial, intimidação da população e arrecadação permanente.
A expansão desse mercado também alimentava disputas pelo domínio das comunidades. Cada território controlado representava uma nova população obrigada a contratar os serviços impostos pela facção.
Internet respondeu por mais de 40% da arrecadação na Penha em um mês
Um dos resultados mais expressivos da investigação aparece nos registros contábeis atribuídos ao próprio Comando Vermelho.
De acordo com a PF, em um único mês, os valores cobrados sobre o fornecimento de internet representaram mais de 40% de toda a arrecadação do grupo no Complexo da Penha.
O percentual revela o peso financeiro alcançado pela atividade. O domínio das conexões deixou de funcionar apenas como instrumento de controle das comunidades e se tornou uma das principais fontes de receita da organização criminosa naquela região.
Dinheiro era movimentado por produtoras, empresas e imóveis de luxo
Os investigadores também identificaram mecanismos utilizados para ocultar a origem do dinheiro. Segundo a Polícia Federal, os recursos passavam por empresas arrecadadoras, operadores financeiros e contas intermediárias antes de serem direcionados a outros negócios.
Entre os destinos identificados estão produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão adquiridos com dinheiro em espécie e criptoativos.
O rastreamento dessas operações integra a apuração sobre lavagem de dinheiro e possíveis vínculos financeiros entre os envolvidos. A investigação procura identificar como os valores arrecadados nas comunidades eram distribuídos e quem se beneficiava da estrutura.
Operação cumpre mandados em seis municípios e bloqueia até R$ 558 milhões
A operação recebeu autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), que expediu 23 mandados de prisão preventiva e 24 mandados de busca e apreensão.
As ordens judiciais são cumpridas nos municípios do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé.
Além das prisões e buscas, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 558 milhões em bens e valores relacionados a 40 pessoas físicas e 42 empresas.
Também foi ordenada a suspensão das atividades econômicas de pessoas jurídicas investigadas, entre elas provedores de internet, produtoras de eventos, uma empresa de contabilidade e empresas apontadas como estruturas de fachada utilizadas nas operações criminosas.
A PF informou que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será comunicada para adoção das providências relacionadas à cassação de autorizações e à interrupção dos serviços prestados pelas empresas envolvidas.
Investigados podem responder por extorsão e lavagem de dinheiro
A Polícia Federal enquadra as condutas investigadas no crime de domínio social estruturado, relacionado ao uso de violência, ameaças e coerção para impor controle sobre territórios e populações.
Os investigados também poderão responder por extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviços de utilidade pública, interrupção de serviços telemáticos, exploração clandestina de telecomunicações e lavagem de dinheiro.
A operação continua com a análise dos materiais apreendidos, a apuração das movimentações financeiras e a identificação dos demais envolvidos na exploração ilegal da internet em comunidades do Rio de Janeiro.
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