O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, está pressionando o governo israelense e o Hamas para que o cessar-fogo estabelecido em outubro entre em sua segunda fase. Trump conversou por telefone com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no início do mês. No entanto, a posição israelense é clara: uma segunda etapa só pode ter início quando se encerrar a primeira. Algo que, segundo Netanyahu, ainda não ocorreu.
O argumento do primeiro-ministro se baseia na garantia de que o Hamas iria devolver todos os reféns vivos e os corpos dos que foram assassinados pelos terroristas. Isso ainda não ocorreu. O Hamas devolveu a Israel os restos mortais de 26 reféns.
O único corpo que ainda não foi devolvido é o do oficial da polícia israelense Ran “Rani” Gvili, de 24 anos. Enquanto ele não retornar a Israel, o acordo não foi cumprido, na visão do governo.
O governo israelense, inclusive, tem buscado divulgar sua posição. Passou a exibir a foto de Ran Gvili na Times Square, em Nova York, com o objetivo de convencer Trump a não preparar a próxima fase do acordo até que o Hamas devolva seu corpo. Israel quer que Trump aumente a pressão para que o Hamas devolva o corpo de Ran.
Na conversa entre os dois líderes, autoridades norte-americanas revelaram à mídia israelense que Trump teria cobrado de Netanyahu um ajuste de postura para dar início à próxima fase. O norte-americano quis se inteirar a respeito dos confrontos em Rafah.
Netanyahu afirmou que este episódio mostrou que o Hamas não vem cumprindo o acordo também neste quesito, já que, além de não ter se desarmado, mantém combatentes “armados e perigosos”. O israelense fez tal afirmação depois ter sido interpelado por Trump sobre o porquê “eles estavam sendo mortos em vez de autorizados a se render”.
Depois do cessar-fogo entre Israel e Hamas
A presença da Turquia numa fase de pacificação, dentro da Força Internacional de Estabilização (ISF), também é rejeitada por Israel neste momento. Nenhum país anunciou oficialmente que participará da ISF até o momento, inclusive aqueles que, no plano de cessar-fogo apresentado, tinham sido incluídos na lista de adesão.
Para Karina Calandrin, pesquisadora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e colaboradora do Instituto Brasil-Israel, a ideia de transformar Gaza em uma área próspera, com apoio internacional e integração regional, é um trunfo importante nesta busca de enfraquecer moralmente o Hamas.
“Essa possibilidade desperta interesse e esperança, sobretudo entre os mais jovens e as famílias que perderam tudo”, afirmou a pesquisadora a Oeste. “Essa visão contrasta fortemente com o ciclo contínuo de conflito promovido pelo Hamas e pode, sim, enfraquecer a narrativa do grupo se for bem articulada por lideranças locais e internacionais.”
A realidade, no entanto, mostra que ainda há muitos problemas a serem superados, segundo ela. O principal é a resistência dos terroristas em se desarmarem.
“Grupos como o Hamas não desistem do uso da força voluntariamente, o que faz com que a pressão militar ainda seja vista por muitos governos como necessária para desmantelar a capacidade bélica do grupo”, observou Calandrin, que acrescenta. “A chave está em combinar segurança com uma proposta política e econômica real para os civis. Sem isso, o ciclo de radicalização tende a continuar.”