Para integrar uma rede ligada ao Hezbollah, não seria necessário compartilhar a ideologia do grupo. Segundo análise do Washington Institute divulgada nesta quinta-feira (22), a organização terrorista libanesa teria recorrido a criminosos condenados no Brasil, explorando dificuldades financeiras e ressentimento contra a Justiça para envolvê-los na preparação de possíveis atentados contra judeus e israelenses.
A Operação Trapiche, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2023, revelou como funcionaria o esquema. Brasileiros eram enviados ao Líbano para treinamento e, ao retornar ao país, alguns recebiam a missão de vigiar locais e pessoas ligados à comunidade judaica e a Israel.
Um dos investigados é Lucas Passos Lima, que viajou duas vezes ao Líbano em 2023. Depois do retorno, ele teria monitorado três sinagogas, um cemitério judaico, a Embaixada de Israel e um rabino em Brasília. A apuração também apontou treinamento com armas e aquisição de equipamentos de vigilância.
Atentados poderiam parecer crimes isolados
O recrutamento de pessoas sem ligação ideológica com o Hezbollah também poderia ajudar a esconder a participação da organização em eventuais ataques. Segundo o procurador da República Lucas Gualtieri, a estratégia permitiria apresentar atentados planejados pelo grupo como ações criminosas isoladas.
As investigações identificaram o uso de estabelecimentos comerciais para financiar viagens e métodos clandestinos de comunicação. Um deles consistia em compartilhar informações por meio de rascunhos de e-mails, sem a necessidade de enviar as mensagens.
Outra frente envolve movimentações financeiras com criptomoedas. O corretor paulista Dante Felipini é acusado de movimentar recursos destinados ao Hezbollah e à Guarda Revolucionária do Irã. Ele responde a acusações de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.
STJ restabelece condenação por atos preparatórios de terrorismo
Em setembro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) restabeleceu a condenação de Lucas Passos Lima por atos preparatórios de terrorismo.
A Corte entendeu que agir por interesse financeiro não afasta a responsabilidade criminal de quem participa conscientemente de um plano terrorista. A decisão alcança um ponto central da investigação: a possível utilização de pessoas motivadas por dinheiro, mesmo sem identificação ideológica com a organização.
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