A Geleira do Apocalipse, como é conhecida a geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, está derretendo mais rapidamente do que os cientistas previam. Um novo estudo indica que a perda de gelo pode provocar uma elevação do nível do mar até duas vezes maior que as estimativas anteriores para essa geleira, ampliando os riscos de inundações em regiões costeiras.
Com uma extensão comparável à do estado da Flórida, nos Estados Unidos, Thwaites é uma das geleiras mais monitoradas do planeta. Seu derretimento já responde por cerca de 4% da elevação global do nível do mar, segundo informações divulgadas pela CNN Brasil.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia, em Irvine, e do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. Os resultados, publicados na revista científica Nature Communications, mostram que a água relativamente quente do oceano está penetrando sob a geleira e acelerando a perda de gelo.
Geleira do Apocalipse pode elevar o nível do mar em até 3 centímetros
Ao incorporar novos dados sobre o comportamento da água na base da geleira, os pesquisadores calcularam que Thwaites poderá contribuir com até 3 centímetros para a elevação do nível médio global do mar até 2100.
O valor representa aproximadamente o dobro da contribuição anteriormente estimada para a geleira. O modelo aponta que esse cenário pode ocorrer mesmo sem um aumento adicional da temperatura global.
Embora três centímetros pareçam pouco, os cientistas alertam que essa elevação se soma aos efeitos de outras geleiras e à expansão térmica dos oceanos, aumentando a exposição de cidades e comunidades litorâneas a enchentes.
Para Eric Rignot, professor de ciências do sistema terrestre da Universidade da Califórnia e um dos autores da pesquisa, os resultados indicam riscos de inundação costeira superiores aos previstos para as próximas décadas.
Água quente do oceano acelera derretimento por baixo da geleira
Uma das principais descobertas está relacionada à chamada zona de aterramento, região onde o gelo deixa de se apoiar no fundo do mar e passa a flutuar sobre a água.
Modelos anteriores costumavam representar esse limite como uma linha relativamente estável. Entretanto, observações por satélite revelaram uma área dinâmica, que pode se estender por vários quilômetros.
Nessa região, o movimento das marés faz a água do oceano entrar e sair debaixo da camada de gelo. O fenômeno, conhecido como bombeamento de maré, permite que a água mais quente alcance áreas profundas sob a geleira e intensifique o derretimento.
Segundo o pesquisador Mattia Poinelli, principal autor do estudo, esse mecanismo ajuda a explicar por que a retração de Thwaites pode estar ocorrendo de maneira mais agressiva do que a prevista pelos modelos tradicionais.
Estudo aponta risco de desprendimento de barreira submarina
A configuração do fundo do mar torna a situação ainda mais preocupante. Parte da geleira repousa sobre um terreno que se aprofunda em direção ao interior do continente, condição que pode favorecer seu recuo à medida que o gelo perde sustentação.
Duas grandes cristas submarinas funcionam como pontos de resistência, dificultando o deslocamento do gelo em direção ao oceano.
O novo modelo indica que o derretimento na base está enfraquecendo a ligação da geleira com uma dessas estruturas, conhecida como Crista Mouginot.
Os cientistas estimam em 60% a probabilidade de o gelo se desprender completamente dessa crista até o fim do século. Caso isso aconteça, a geleira poderá recuar com maior rapidez em direção à próxima barreira submarina.
Essa estimativa se refere especificamente ao desprendimento da crista, e não ao desaparecimento completo da geleira até 2100.
Cientistas planejam nova expedição à Antártida em 2028
Apesar dos avanços, os pesquisadores ainda precisam compreender melhor o que acontece na região situada abaixo da geleira, uma das áreas mais difíceis de acessar na Antártida.
Especialistas que não participaram do estudo destacaram a importância dos resultados, mas ressaltaram a necessidade de medições diretas para aperfeiçoar as projeções.
Uma nova expedição está prevista para 2028, quando cientistas pretendem instalar instrumentos capazes de monitorar a entrada e a saída da água do mar sob Thwaites.
As observações deverão ajudar a determinar com maior precisão a velocidade do recuo da geleira e seus efeitos sobre o nível dos oceanos. Para os pesquisadores, compreender esse processo tornou-se fundamental para antecipar os riscos enfrentados pelas populações costeiras nas próximas décadas.
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