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Flávio Gordon — A ‘atora’ principal da FLOP30

Em maio deste ano, a primeira-dama do regime, dona Janja da Silva, recebeu do descondenado-em-chefe, seu marido, a comenda da Ordem do Mérito Cultural. Ela foi condecorada na classe grão-cruz, a mais alta distinção da principal honraria cultural do Brasil.

Como se sabe, a entrega de comendas, títulos e honrarias a familiares e camaradas é uma tradição na cultura política comunista. Na Romênia de Ceaucescu, sua mulher, Elena, era uma funcionária medíocre e notoriamente incapaz em química — área na qual, por isso mesmo, “recebeu” diversos títulos. Por decreto, o ditador romeno transformou-a sucessivamente em “doutora honoris causa” de várias universidades, “cientista de renome mundial”, “heroína do trabalho socialista” e, por fim, “Mãe da Nação”.

O regime de Enver Hoxha, na Albânia, também converteu honrarias nacionais em patrimônio doméstico. A mulher de Hoxha, Nexhmije, recebeu títulos e postos culturais que a qualificavam como guardiã da revolução e intérprete superior da cultura socialista. Foi assim na Rússia, na Coreia do Norte, no Cambodja, em Cuba, na Venezuela e em todo lugar em que a corte comunista ascendeu ao poder. É assim também no Brasil do luloalexandrismo.

Pois bem. Na COP30 (evento maliciosamente apelidado de “FLOP30” pela extrema direita nacional-populista ultrabolsonarista carnívora, patriarcal, cisgênero e heteronormativa), a primeira-comendadora não deixou barato e fez questão de exibir ao público os excelsos talentos culturais que lhe granjearam a honraria. Em entrevista recente à CNN Brasil, a líder feminista foi questionada sobre o papel das mulheres na agenda climática global, ao que respondeu de bate-pronto:

“Eu tenho trabalhado muito, como enviada especial, para colocar as mulheres na centralidade da agenda climática. Mais do que participantes, nós somos atoras [sic] principais da mudança climática”.

Sim. Ela disse “atoras”. Mas engana-se o leitor reacionário se imagina que a comendadora quis dizer “atrizes” e apenas tropeçou no idioma. Não, esse é o tipo de pensamento arcaico de quem ainda vive no tempo dos combustíveis fósseis, do machismo estrutural e do racismo climático. O pensamento de uma maioria de ignorantes que não reconhecem os evidentes méritos e inovações culturais da patroa do descondenado. 

“Atoras” é, obviamente, um neologismo brilhante, uma composição por aglutinação que mistura os radicais “atriz” e “gestora”, sugerindo a centralidade do papel da mulher na gestão do clima (para não falar a dos coquetéis de vanguarda lamentavelmente incompreendidos). A comenda não foi entregue ao acaso. O regime julgou adequadamente os méritos que uma sociedade atrasada — além de ambientalmente misógina, estruturalmente racista e informacionalmente desordenada — não teria condições de reconhecer. Sendo assim, uma salva de palmas para a nossa atora principal!



Via Revista Oeste

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