Uma união inédita entre a Confederação Única dos Trabalhadores (CUT), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e federações industriais foi formada nas últimas semanas para pressionar o governo federal a não prorrogar as cotas com alíquota zero para veículos eletrificados chineses.
A pressão, entretanto, não impediu a Câmara de Comércio Exterior (Gecex), vinculada ao governo, de prorrogar por mais seis meses as cotas de importação para veículos eletrificados desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD), no valor total de R$ 2,4 bilhões.
A decisão favorece principalmente a montadora chinesa BYD, que começou a produzir carros no Brasil em 2025 por meio do modelo SKD – com os veículos chegando pré-montados e sendo finalizados no complexo industrial de Camaçari (BA), onde antes funcionava a unidade da Ford.
Anfavea e CUT pressionaram governo Lula
A pressão sobre o governo e os conselheiros do Gecex ganhou força ao longo da semana passada. A Anfavea encaminhou uma carta na última sexta-feira (19) ao presidente Lula (PT) pedindo a recomposição do imposto de importação aplicável aos veículos eletrificados implementada em julho de 2025.
Segundo a entidade, a recomposição tarifária é essencial para a manutenção e a criação de empregos qualificados e para o fortalecimento da cadeia produtiva automotiva nacional.
Em tom parecido, Sérgio Nobre, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), enviou uma carta a Lula em nome de centrais sindicais, confederações e sindicatos de metalúrgicos. O líder sindical pediu a imediata suspensão da portaria da Secex de julho de 2025, que ampliou para US$ 463 milhões a cota de importação de veículos elétricos desmontados com alíquota zero.
“Os sindicatos entendem que as fabricantes proponentes já tiveram plenas condições de ampliar sua presença no mercado nacional e conduzir suas operações em caráter de fabricação plena. Nesse momento, é fundamental que as empresas envolvidas avancem na produção local, com investimentos industriais, transferência de tecnologia, aumento do conteúdo local e geração de empregos decentes”, escreveu ele.
Sindipeças e federações também acionaram Lula, sem sucesso
Outra entidade ligada ao setor automotivo, o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes de Veículos Automotores (Sindipeças), também pediu em carta ao presidente Lula a revisão dos benefícios.
“A medida proporcionou um expressivo aumento das vendas de veículos eletrificados importados, com impacto notável na distribuição desigual nas vendas dos veículos aqui produzidos, além de gerar um tratamento não isonômico às montadoras de veículos instaladas no Brasil”, destacou o presidente do Sindipeças, Cláudio Sahad.
A mobilização também reuniu federações das indústrias de estados onde está concentrada a maior parte da indústria automobilística brasileira.
Indústria reage e ameaça rever investimentos de R$ 140 bilhões
A decisão do Gecex foi mal recebida pela indústria automobilística e ameaça investimentos das fabricantes tradicionais. “Ao prolongar benefícios que haviam sido criados como temporários, o governo coloca em xeque a confiança de empresas que ajustaram seus planos de investimento contando com as regras pactuadas”, destacou a Anfavea em nota oficial.
A associação ressalta que a indústria respondeu aos estímulos criados pela política pública do governo, anunciando investimentos que podem chegar a R$ 140 bilhões até 2033.
Segundo ela, a decisão foi tomada sem consulta ao setor produtivo e altera de forma intempestiva uma política definida pelo próprio governo federal, que teve como objetivo combinar a expansão da eletromobilidade no Brasil com a atração de investimentos produtivos de longo prazo para o país.
Críticas também vieram dos fabricantes de autopeças. Nota divulgada pelo Sindipeças informa que a indústria anunciou investimentos, que podem ser reduzidos ou até eliminados pela grave falta de previsibilidade.
Com BYD, chinesas saltam para 15% de participação no mercado
A decisão do Gecex ocorre em um momento em que as montadoras chinesas avançam sobre o mercado brasileiro. As cinco maiores montadoras do país asiático — BYD, GWM, Geely, Omoda e Jaecoo (grupo Chery) e GAC — juntas tiveram 15% de participação nos emplacamentos de automóveis novos entre janeiro e maio de 2026, segundo a Fenabrave.
Somente a BYD teve participação de 8,9% nos emplacamentos de carros novos nos cinco primeiros meses do ano, contra 5,4% no mesmo período de 2025.
O momento também coincide com fortes investimentos da indústria automobilística chinesa no Brasil. Eles foram de US$ 965 milhões em 2025 (cerca de R$ 5 bilhões), segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Além da BYD, a GWM começou a operar em sua planta em Iracemápolis, no interior de São Paulo, onde funcionava uma antiga unidade da Mercedes.
A Geely adquiriu 26,4% da Renault do Brasil, formando a Renault Geely do Brasil. A empresa prevê investimentos de R$ 680 milhões até 2027 para produzir veículos de baixa ou zero emissão no Paraná. A GAC Motors expandiu sua presença comercial com novas concessionárias de importados e tem planos de produção local em Goiás.

Marcas chinesas registram aumento de interesse
Entre as cinco maiores montadoras chinesas em operação no Brasil, todas apresentaram crescimento no volume de pesquisas no Google em 2026, segundo a ferramenta Google Trends, o que indica maior interesse dos consumidores pelas marcas.
A montadora que obteve maior evolução nas buscas foi a Geely, com crescimento de 450% nos seis primeiros meses do ano. Em segundo lugar está a Omoda (+250%), seguida pela GAC (+160%), GWM (+60%) e BYD (+8%).
O crescimento refere-se à evolução do interesse de pesquisa em cada marca em relação ao mesmo período de 2025, e não ao volume absoluto de buscas. Em volume total de pesquisas, a BYD – que lidera o segmento de carros elétricos no Brasil – ocupa a primeira posição.
“Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.”