A probabilidade de uma ação militar dos EUA contra a Venezuela passou de 10% para 80% em apenas dois meses, segundo James Story, ex-embaixador dos Estados Unidos em Caracas. “A situação no terreno mudou enormemente”, afirmou ao The Guardian. Story, de 54 anos, foi embaixador no país entre 2018 e 2023, no primeiro governo do presidente Donald Trump e em parte do de Joe Biden.
Desde agosto, quando Trump ordenou o envio de fuzileiros, drones e navios de guerra ao Caribe, a movimentação foi inicialmente vista como uma demonstração de força para pressionar o ditador Nicolás Maduro, no poder desde 2013.
Mas a chegada do USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo, e de seu grupo de ataque conferiu à operação um peso estratégico que passou a ser interpretado como prenúncio de uma possível ação militar.
Embora o Pentágono enquadre a missão como parte da ofensiva contra o narcotráfico, Washington acusa figuras do regime venezuelano de envolvimento em redes de narcoterrorismo. Maduro foi acusado de chefiar o chamado Cartel de Los Soles.
Na prática, a combinação entre poder naval, discurso de combate ao crime e presença militar próxima à Venezuela alimenta o temor de uma intervenção direta.
Analistas em Washington divergem sobre as intenções reais da Casa Branca, se busca apenas provocar divisões internas no chavismo ou se prepara o terreno para uma ação cirúrgica.
“Não está claro se o objetivo é apenas assustar, provocar divisões internas ou abrir espaço para uma ação cirúrgica”, avalia, para o jornal, Benjamin Gedan, diretor do programa para a América Latina do Centro Stimson.
Cenários de uma possível ação dos EUA na Venezuela
Entre os cenários discutidos estão ataques a alvos militares estratégicos e bombardeios de precisão. Outros defendem uma operação aérea curta, voltada a “decapitar” o regime, conforme descreve Story.
Qualquer dessas hipóteses, porém, traria riscos elevados: uma guerra prolongada, convulsão social e colapso institucional. “Em poucas horas poderíamos destruir a Força Aérea venezuelana, mas o que viria depois?”, questiona Gedan, ao citar o caos que se seguiu à queda de Muammar Kadafi na Líbia em 2011.
Especialistas ressaltam que um conflito armado poderia se espalhar pelo continente, ampliando a instabilidade. Elías Ferrer, analista da Orinoco Research, lembra que o caso da Líbia ilustra bem o perigo: a queda do ditador não trouxe estabilidade, mas fragmentação e guerra civil.
Grandes reservas de petróleo, grupos armados e redes de crime organizado tornam a situação mais complexa. “A Venezuela se parece mais com o Afeganistão do que com o Panamá”, resume Gedan, prevendo que uma intervenção externa poderia se transformar em um impasse prolongado.