Se você começou a usar uma caneta emagrecedora e sentiu mudanças no seu ciclo menstrual, é bem possível que tenha sido pega de surpresa. Afinal, esse efeito colateral não aparece de forma clara nas bulas de medicamentos como a semaglutida (presente no Ozempic e em diversos produtos à base dela que vêm sendo lançados no país) ou a tirzepatida (do Mounjaro).
Mas não é só impressão: relatos individuais e registros de farmacovigilância indicam que pode haver, sim, uma correlação entre esses medicamentos e mudanças na forma como a menstruação ocorre, embora o mecanismo exato para isso ainda não seja bem compreendido.
Veja o que se sabe atualmente sobre essa questão, e como lidar caso aconteça com você.
O que se sabe sobre o impacto das canetas na menstruação
A ciência ainda vem tentando mapear como (ou se) os agonistas de GLP-1 afetam a menstruação.
Um dos trabalhos mais amplos nesse sentido, publicado em julho deste ano por pesquisadores canadenses, analisou o banco de dados de notificação de eventos adversos da FDA, a “Anvisa norte-americana”: entre mulheres de 12 a 55 anos, houve notificações de por usuárias de semaglutida, e de sangramento intermenstrual e coágulos menstruais por quem consome a tirzepatida.
Apesar de significativa em termos numéricos, a própria pesquisa reconhece limitações do banco de dados: em primeiro lugar, são notificações espontâneas de farmacovigilância, que não estabelecem uma relação de causa e efeito. Existem ainda riscos de relatos que confundem a ação do medicamento com impactos que o próprio problema de fundo (como a obesidade) causa sobre o ciclo menstrual.
Além disso, pesquisadores apontam para o chamado , em que há uma notificação exagerada de supostos efeitos adversos por um medicamento em alta na mídia.
Por isso, ainda são necessários mais estudos epidemiológicos para determinar se existe um risco real das caneta emagrecedoras realmente causarem impactos mais severos sobre o ciclo menstrual em um grande número de pessoas. Mas, mesmo sem uma causalidade definida, a realidade está posta: muitas usuárias realmente dizem vivenciar essas alterações na prática.
Os efeitos sobre a saúde ginecológica e reprodutiva, por sinal, são investigados em outras frentes: também há uma associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e efeitos positivos em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP), com um possível ganho na regularidade menstrual e na taxa de gravidez natural, como demonstrou esta meta-análise chinesa de 2023.
Qual a possível explicação?
Ainda não existe uma resposta definitiva para os possíveis impactos das canetas emagrecedoras sobre o ciclo menstrual, mas a hipótese mais plausível diz respeito a um mecanismo já observado na perda de peso de modo geral, independentemente do uso de medicamentos: alterações no metabolismo de estrogênio associadas a uma perda de peso rápida, que podem se refletir na forma como a menstruação ocorre.
Sem se limitar à perda de peso propriamente dita, alguns estudos recentes têm tentado se debruçar sobre um possível impacto direto dos medicamentos sobre o ciclo menstrual. Uma pesquisa in vitro e em estágio inicial (ainda não revisada por pares), divulgada em julho deste ano, sugeriu um possível efeito direto do GLP-1 no endométrio – mas ainda é cedo para extrapolar esse achado para uma influência real sobre a menstruação no corpo humano.
Efeito documentado sobre anticoncepcionais
Além da discussão sobre como as canetas emagrecedoras podem afetar a menstruação, existe um impacto bem documentado relacionado à saúde reprodutiva: a tirzepatida pode reduzir a absorção de anticoncepcionais orais, limitando sua eficácia e aumentando as chances de uma gravidez não planejada. Um caso do tipo que repercutiu bastante na mídia foi o da ex-BBB Laís Caldas, que atribuiu sua gravidez em 2025 a um “corte” no efeito da pílula provocado pelo Mounjaro.
Diferentemente do que ocorre com o ciclo menstrual, nesse caso a influência é sim reconhecida na bula do Mounjaro, que recomenda “o uso de outro método que não seja oral ou acrescentar um método de barreira” para prevenir a gravidez, especialmente no início do tratamento e nas fases de aumento de dose.