Brasileiro atravessa o Atlântico sozinho a remo após 136 dias e é recebido por Amyr Klink em Salvador

Engenheiro Raphael Garcia financiou a própria expedição, partiu da Namíbia e enfrentou tempestades, encontros com tubarões e o risco de colisão com um navio para repetir a rota histórica de 1984.

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Raphael Garcia e Amyr Klink durante encontro na Bahia Marina, em Salvador, após travessia solitária do Oceano Atlântico.
Raphael Garcia é recebido por Amyr Klink na Bahia Marina, em Salvador, após atravessar o Oceano Atlântico sozinho em um barco a remo | Foto: Reprodução/Redes sociais

O engenheiro brasileiro Raphael Garcia passou 136 dias sozinho em um barco a remo para atravessar o Oceano Atlântico, partindo da Namíbia até Salvador, na Bahia. A viagem terminou em 22 de agosto de 2026, quando o navegador chegou à Bahia Marina e encontrou no píer Amyr Klink, responsável pela travessia que o inspirou a realizar a expedição.

Garcia deixou a cidade de Lüderitz, na costa africana, em 8 de abril, seguindo a rota percorrida por Klink em 1984. Ao contrário de uma aventura organizada com patrocinadores, o engenheiro bancou o próprio barco, os equipamentos e os custos da viagem. Foram quatro anos de preparação, realizados longe da imprensa.

O projeto nasceu em 2022, quando Garcia encontrou o livro Cem Dias entre Céu e Mar em um sebo de Foz do Iguaçu, no Paraná. Aos 30 anos, ele desconhecia a possibilidade de atravessar um oceano utilizando apenas remos. A leitura despertou o interesse pela navegação e levou o engenheiro a pesquisar como poderia repetir o feito.

Quatro anos de preparação para enfrentar o Atlântico

Quando decidiu iniciar o projeto, Raphael Garcia não tinha experiência com remo. Precisou aprender técnicas de navegação, estudar o comportamento das embarcações e avaliar os riscos de permanecer meses em alto-mar.

Ele comprou um barco para treinar na costa, fez um curso de vela e realizou viagens de preparação em águas costeiras e oceânicas.

Em abril de 2023, começou a desenvolver o projeto da embarcação com um arquiteto naval na Inglaterra. O desenho foi concluído no fim daquele ano, e a construção começou em 2024. Problemas com fornecedores atrasaram a entrega de componentes e ampliaram o prazo previsto para a partida.

Garcia batizou o barco de Sater, em homenagem ao músico Almir Sater.

Antes de começar a travessia, também procurou Amyr Klink. Os dois conversaram por quase uma hora, quando o navegador mais experiente compartilhou orientações práticas para enfrentar o oceano.

Uma das recomendações foi instalar uma borda de madeira ao redor da embarcação para facilitar a movimentação a bordo. Segundo Garcia, o recurso se tornou importante durante a viagem, especialmente porque realizar tarefas simples em um barco constantemente atingido pelas ondas exige apoio e equilíbrio.

Navio passou perto do barco e quase provocou uma tragédia

Entre os momentos mais perigosos da travessia esteve a aproximação de um navio de grande porte, detectado quando Garcia estava prestes a dormir.

O brasileiro mantinha uma rotina de remadas, alimentação e descanso. Em determinado dia, depois de concluir a primeira parte das atividades, decidiu verificar novamente o GPS, algo que normalmente não fazia naquele horário.

O equipamento indicou que um navio seguia praticamente na mesma rota da pequena embarcação. Pelos cálculos do engenheiro, a diferença entre as trajetórias era de apenas quatro metros.

Garcia conseguiu entrar em contato com a tripulação, que alterou o curso a tempo de evitar o encontro entre os barcos.

“Se eu tivesse ido dormir diretamente, que era o que eu fazia antes, provavelmente não estaria aqui.”

O episódio foi especialmente perigoso pela diferença de tamanho entre as embarcações. Um barco a remo pode passar despercebido para a tripulação de um navio comercial, sobretudo em condições desfavoráveis de visibilidade.

Tempestades atrasaram a chegada em mais de um mês

O planejamento inicial previa aproximadamente 105 dias de navegação. A travessia, entretanto, durou 136 dias, principalmente por causa das tempestades enfrentadas depois que Garcia deixou a região da Corrente de Benguela, na costa sudoeste africana.

Durante os períodos de mau tempo, ele precisava permanecer protegido na cabine, algumas vezes por cinco dias ou até uma semana. O movimento constante do barco também dificultava atividades como reorganizar os equipamentos e recolher o lixo acumulado.

A alimentação era composta principalmente por comida desidratada. Para obter água potável, o engenheiro utilizava um dessalinizador, equipamento que transforma água do mar em água própria para consumo.

O sistema representava uma diferença importante em relação à travessia de Amyr Klink. Em 1984, o navegador precisou transportar toda a água necessária para a viagem, utilizando parte do peso como lastro para estabilizar a embarcação.

Garcia também encontrou tubarões e baleias que se aproximavam do barco. Alguns animais chegaram a poucos centímetros da estrutura, proporcionando encontros que ele tentou registrar com câmeras.

Boa parte das imagens foi perdida quando uma câmera GoPro caiu no oceano. O navegador ainda possuía outro equipamento, mas os principais registros dos animais ficaram no mar.

Chegada a Salvador teve encontro com o navegador que inspirou a viagem

Depois de mais de quatro meses no Atlântico Sul, Raphael Garcia alcançou Salvador em 22 de agosto. Na Bahia Marina, foi recebido por Amyr Klink, que havia realizado a mesma travessia 42 anos antes.

A chegada aconteceu em um momento próximo ao lançamento de 100 Dias, filme dirigido por Carlos Saldanha sobre a expedição de Klink. A produção tem estreia prevista para 29 de outubro de 2026.

Com a viagem concluída, Garcia começou a trabalhar em um livro sobre a própria experiência, que pretende publicar até meados de 2027. Ele também recebeu convites para palestras e considera transformar o conhecimento adquirido na expedição em uma atividade paralela.

O engenheiro pretende dedicar os próximos meses ao descanso, mas já considera outras viagens. Entre as possibilidades estão uma expedição em um pequeno veleiro ou uma aventura pela Amazônia.

Depois de atravessar o Atlântico sozinho, ele não demonstra interesse em um desafio menor.

“Se eu fizer algo menor, isso pessoalmente não vai me satisfazer.”

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