Atividades militares envolvendo crianças e adolescentes têm ganhado espaço na Bielorrússia, onde milhares de estudantes participam de treinamentos, jogos de guerra e exercícios táticos organizados por grupos como os “Patriotas de Bielorrússia”.
Aulas práticas e simulações de combate são frequentes, com jovens de nove a 17 anos aprendendo a operar armas, socorrer feridos e lidar com situações de conflito sob supervisão de ex-militares.
O movimento, que ganhou força depois da repressão às manifestações contrárias ao resultado das eleições presidenciais de 2020, faz parte de uma estratégia do governo de Alexander Lukashenko para formar uma geração leal ao regime.
O estudo “Crianças Sem Futuro: A Militarização da Infância na Bielorrússia”, elaborado por associações opositoras, como BelPol e Administração Popular Anticrise (NAU), aponta que tais iniciativas visam suprir a falta de jovens interessados em ingressar nas forças de segurança do Estado.
A militarização, segundo o relatório, se intensificou em 2022, diante da aproximação entre Bielorrússia e Rússia na guerra contra a Ucrânia.
O governo adotou políticas como o “Programa para a Educação Patriótica da População para 2022-2025”, que formaliza o treinamento militar de menores.
Atualmente, mais da metade das atividades escolares envolve temas ligados a guerra e autossacrifício, incluindo visitas a bases militares e contato com armamentos.
Jogos conhecidos como “Desafio” e “Filhote de Águia” atraem anualmente cerca de 35 mil estudantes, que participam de simulações em que enfrentam tiros, explosões e até exercícios com tanques. “
“Quero experimentar ser um soldado”, “quero testar minha resistência” e “quero vivenciar algo novo”, disseram jovens à televisão estatal.
Alguns adolescentes relataram entusiasmo ao vivenciar essas experiências e expressaram o desejo de seguir carreira militar.
Essas práticas têm raízes na era soviética, quando a doutrinação comunista através do ensino militar nas escolas era comum.
Na Bielorrússia, instrutores militares — geralmente ex-membros das forças de segurança — voltaram a atuar em todas as instituições de ensino.
O processo é acompanhado por doutrinação ideológica: livros didáticos são reescritos conforme interesses do governo e escolas devem prestar contas ao Ministério Público, segundo BelPol e NAU.
Financiamento
Hoje, o ensino militar-patriótico já está presente em 220 escolas, com cerca de quatro mil alunos. Nove escolas de cadetes reúnem outros 1,8 mil jovens.
Cursos de operação de drones FPV, voltados para fins de combate, são oferecidos a crianças a partir de doze anos.
Durante as férias, mais de 57 mil estudantes frequentaram acampamentos de treinamento militar no último ano letivo.
O financiamento para essas atividades vem do orçamento público, fundações e doações de empresas, inclusive obrigatórias.
O Clube Esportivo Presidencial, chefiado por Dmitry Lukashenko, filho do presidente, também direciona recursos para os programas.
Estudantes que se destacam nessas atividades recebem vantagens na seleção para universidades e incentivos financeiros às famílias, explicou Matvey Kupreychik, da BelPol.
Pavel Latushko, chefe da NAU, avaliou que “a militarização em massa está minando o sistema educacional e destruindo os valores do humanismo e do pensamento crítico”.
O estudo alerta que essas práticas violam compromissos internacionais assumidos por Bielorrússia para proteger os direitos das crianças, restringindo liberdade de crença e opinião, além de expor menores à exploração, propaganda e à participação em conflitos armados.