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A França ainda reza

Papa Leão XVI durante visita à França neste fim de semana | Foto: Divulgação/X/@obscat

Neste sábado, 26, a Praça da Concórdia viu ajoelhar-se diante de um altar a mesma cidade que, em 1793, ali se aglomerou para assistir à guilhotina. Naquele tempo, a praça chamava-se Praça da Revolução, e a lâmina que decapitou o rei cristianíssimo era o sacramento da nova fé. Meses depois, na Notre-Dame profanada, os jacobinos entronizariam a Deusa Razão.

Agora, centenas de milhares de fiéis ocupavam três quilômetros de Paris, do Arco do Triunfo à Concórdia, para receber o Papa Leão XIV. No lugar do cadafalso, 2,4 mil sacerdotes, cem bispos e 1,3 mil cantores celebraram uma missa dedicada não à Razão divinizada, mas à Virgem Maria, padroeira da França.

A cena desmente três séculos de catequese secularista. Foi Rousseau quem, no Contrato Social, formulou o credo da nova fé: uma “religião civil” cujos dogmas seriam fixados pelo soberano e cujos hereges poderiam ser banidos ou punidos com a morte.

A Revolução levou o programa a sério. Vieram o culto da Razão, depois o do Ser Supremo de Robespierre e, por fim, o laicismo republicano, versão burocrática e envergonhada do mesmo impulso. Eric Voegelin e outros chamaram isso de “religião política”: a redenção transferida do Céu para o Estado.

Ocorre que não há vazio religioso. Onde a religião civil esvaziou os altares, outra religião política veio ocupar o espaço: o islamismo radical, que, como bem mostra Bernard Lewis em A Linguagem Política do Islã (1988), ignora até o conceito mesmo de laicidade — conceito de origem eminentemente católica, nascido do “dai a César o que é de César”.

Não por acaso, quando Notre-Dame pegou fogo, jihadistas celebraram nas redes o incêndio da catedral erguida no século 12 em louvor da Virgem, sonhando com a revanche de Poitiers, Lepanto e Viena. O “drama do humanismo ateu”, na expressão do cardeal Henri de Lubac, pavimentou o caminho para uma teocracia implacável.

“O que é a Europa?”, perguntava Christopher Dawson. “É uma comunidade de povos que partilham uma tradição espiritual comum.” Antes de ser um aglomerado de Estados, a Europa foi Cristandade, e a França foi o seu berço. Em 496, São Remígio batizou Clóvis em Reims com a ordem célebre: “Inclina a cabeça, orgulhoso sicambro; adora o que queimaste, queima o que adoraste”.

No Natal de 800, o Papa coroava Carlos Magno. Dessa aliança brotaram os mosteiros, as universidades e as catedrais, o cimento que uniu povos tão distintos quanto poloneses, húngaros e irlandeses. As divindades de Bruxelas tentaram apagar essa história ao redigir uma Constituição Europeia sem uma única menção ao Cristianismo. Quiseram fabricar em laboratório uma comunhão espiritual sem espírito.

Os estatísticos dirão que metade dos adultos franceses já não declara religião alguma. Têm razão, mas o número mede a superfície, não as profundezas. Na Páscoa deste ano, o país registrou cerca de 20 mil batismos de adultos e adolescentes, 20% a mais que no ano anterior. Na véspera da missa, 80 mil jovens lotaram o Stade de France para encenar a vida de Teresa de Lisieux, Bernadette Soubirous, Charles de Foucauld e Vicente de Paulo e gritar “Leão, Leão” ao pontífice. Não se trata de nostalgia de velhos, mas de sede de moços. É a geração criada no deserto laicista descobrindo que o poço nunca secou.

Na sexta-feira, Leão XIV rezou as vésperas na Notre-Dame restaurada e venerou a coroa de espinhos que sobreviveu às chamas de 2019. Aos franceses, disse que a catedral renasceu para que eles também renasçam com ela. É a síntese perfeita. A filha primogênita da Igreja pode ter sido sequestrada por sacerdotes da Razão e ameaçada por profetas da jihad, mas continua a reconhecer a voz do Pai.

Dawson escreveu também que a tradição sagrada guardada pela Igreja permanece, por mais secularizado que seja o mundo, “como um rio no deserto”. Neste sábado, esse rio correu pelos Campos Elísios e desaguou na Concórdia. Pela primeira vez em muito tempo, o nome da praça pareceu fazer sentido.

“O cristianismo deu forma à Europa, imprimindo-lhe alguns valores fundamentais. Mesmo a modernidade europeia, que deu ao mundo o ideal democrático e os direitos humanos, recebe os seus próprios valores da herança cristã… Igreja na Europa, continua, pois, a contemplar Maria” (Papa João Paulo II, Ecclesia in Europa, exortação apostólica pós-sinodal, junho de 2003)

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