Os vídeos de conteúdo sexual das festas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades de diferentes espectros políticos e membros do Judiciário ainda não estão no centro do caso Master. Isso porque a Polícia Federal apura, segundo pessoas próximas às investigações, se os conteúdos eram usados para pressionar e até para chantagear autoridades e figuras públicas que participaram dos eventos regados a bebidas caras, charutos exclusivos e “acompanhantes” estrangeiras.
Os vídeos passarão a ocupar um lugar central nas investigações se ficar comprovado que o conteúdo serviu para ameaçar ou obrigar figuras dos três Poderes a sustentar politicamente o Banco Master ou se foram promovidos com o uso de recursos públicos. Esses recursos poderiam ter sido desviados do banco a partir de fundos de previdência de estados e municípios ou mesmo do desconto indevido de beneficiários do INSS.
O que importa para os investigadores não é o teor sexual e de caráter íntimo, mas a possibilidade de as festas terem sido usadas como moeda de troca para garantir proteção institucional a Vorcaro e ao banco que acabou liquidado em 2025.
Enquanto essa possível ligação não for estabelecida, o material segue como peça lateral de diferentes inquéritos dentro da operação Compliance Zero. Ele pode ganhar peso a partir do que for encontrado nas perícias, no cruzamento de informações e nos demais indícios de crimes ligados ao esquema bilionário e supostamente fraudulento liderado pelo ex-banqueiro.
A defesa de Vorcaro tem contestado essa interpretação e afirmou que os encontros tinham caráter estritamente privado entre adultos, negando que tenham sido utilizados para influenciar decisões de autoridades ou favorecer interesses empresariais.
O assunto voltou a ocupar o noticiário após o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, afirmar ter visto um vídeo de 12 minutos de uma festa promovida por Vorcaro em que estariam autoridades dos mais diferentes partidos políticos, membros do Judiciário e do setor empresarial.
Um evento com essas características foi realizado em Nova York em 2024, com duração de três dias, mas não se descarta a possibilidade de ter sido replicado com as mesmas características no Brasil ou em outros países. Não está claro onde aconteceu o evento descrito por Garotinho.
Haveria, inclusive, registros de festas privês registradas em discos rígidos (HDs) e celulares do ex-banqueiro, apreendidos em diferentes fases da Compliance Zero. Também não se descarta a possibilidade de haver vídeos com terceiros que participavam desses eventos, pois em parte deles apenas as mulheres eram obrigadas a entregar os celulares na portaria. Os homens estavam liberados para portá-los.
O que os investigadores querem descobrir que pode envolver as festas privadas
Uma das linhas de apuração tenta entender se as gravações feitas durante os encontros com acesso restrito e proibição de celulares eram usadas por Vorcaro para monitorar e, eventualmente, chantagear figuras públicas. A pergunta dos investigadores está focada em se os registros serviram para obrigar autoridades do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário a dar sustentação política ou institucional ao Master ou a figuras ligadas ao ex-banqueiro.
Se essa conexão for confirmada, o material pode passar a ser uma prova de um suposto esquema de chantagem institucional, o que mudaria o nível de gravidade do caso. O acesso a esses materiais apreendidos tem sido bastante rígido porque vazamentos seletivos poderiam ser usados por diferentes defesas para justificar anulação de investigações, caso se tratem somente de eventos de foro íntimo.
Há ainda uma segunda frente de apuração, ligada não ao conteúdo das imagens, mas à logística das festas. O suposto recrutamento de mulheres estrangeiras que atuavam como acompanhantes de autoridades é analisado sob suspeitas de exploração sexual e tráfico de pessoas.
Ainda se esperam respostas, por exemplo, como essas mulheres, que costumavam ser do Leste Europeu, entravam nos países onde eram realizados os eventos; como era o trânsito aduaneiro e em que aeronaves eram deslocadas. Suspeita-se que o translado era feito em aviões do próprio empresário.
A investigação também apura com que dinheiro os encontros foram bancados. Se há indícios de recursos provenientes de desvios de fundos de investimentos e previdenciários de estados ou municípios ou ainda, se há alguma relação com as fraudes dos descontos de aposentados e pensionistas do INSS, injetados no Master.
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Vídeos geram polêmica, mas ameaçam operação
O acesso e o compartilhamento de arquivos de teor íntimo com autoridades, entre elas membros da CPMI do INSS, levou o ministro do STF André Mendonça, relator do inquérito, a suspender o acesso aos dados sigilosos e abrir apuração sobre possíveis vazamentos.
Depois disso, a defesa de Vorcaro chegou a apresentar duas propostas de colaboração premiada à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR). Nenhuma foi aceita. Para os investigadores, tudo o que Vorcaro se dispôs a falar já havia sido mapeado nas provas colhidas durante as diferentes fases da investigação. Todo esse material, incluindo o que foi recuperado de aparelhos eletrônicos, permanece sob sigilo judicial.
Dentro da estrutura investigativa da PF, houve a determinação de compartilhamento limitado das informações na tentativa de evitar novos vazamentos, como o dossiê que teria sido feito por um perito que acabou afastado das funções.
Garotinho e a polêmica sobre a “festa das astronautas”
O assunto das festas íntimas e possíveis chantagens voltou a ser tratado depois que o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho detalhou publicamente, na semana passada, o que teria visto em um vídeo gravado durante um dos encontros de Vorcaro, apelidado de “festa das astronautas”.
Segundo o relato de Garotinho, tanto os homens, políticos e empresários brasileiros, quanto as mulheres, supostamente estrangeiras contratadas como acompanhantes, estavam nus durante o evento. As mulheres usavam apenas capacetes similares aos de astronautas. Informações de fontes a par das investigações reforçam que mais de uma dessas festas pode ter sido realizada. Em algumas delas, porém, as mulheres estavam vestidas com roupas justas ao corpo e capacetes, e os homens as escolhiam apenas levantando a viseira.
Garotinho afirma ter a gravação, mas optou por não divulgar nem enviar a ninguém, dizendo que foi alertado de que o vídeo está sob segredo de Justiça e integra os autos da investigação sobre o Master. O ex-governador afirmou que preferiu não tornar o material público para não se antecipar a uma eventual quebra de sigilo pela própria Justiça.
Mesmo sem revelar nomes, o relato descreveu um ambiente em que mulheres desfilavam enquanto homens públicos sinalizavam interesse. Garotinho disse ainda que entre os presentes estavam autoridades, políticos de diferentes espectros e empresários, mas não citou nomes.
A apuração das festas e dos vídeos corre em paralelo a outras frentes da Compliance Zero, que resultou em nove fases da operação incluindo prisões de Vorcaro, buscas contra políticos e questionamentos sobre uso de fundos de previdência pública para aplicações no Master.
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Agendas sociais e festivas são vastas
As agendas sociais de Vorcaro foram muito além do caso mencionado por Garotinho. Elas teriam se replicado dezenas de vezes em endereços badalados no Brasil e no exterior, sempre reunindo empresários, autoridades e convidados exclusivos em ambientes de alto padrão e com muito controle.
No Brasil, além do Rio de Janeiro e de São Paulo, o principal ponto de encontro teria sido uma mansão localizada em Trancoso, no litoral sul da Bahia. O imóvel ficou conhecido como “Cine Trancoso” após relatos de que recebia festas privadas durante feriados e temporadas de verão.
De acordo com representações encaminhadas ao Tribunal de Contas da União (TCU), os eventos reuniam convidados selecionados em um ambiente reservado, com apresentações musicais, serviço de alto padrão e rígido controle de acesso.
A participação de autoridades levou o Ministério Público junto ao TCU a pedir o aprofundamento das apurações sobre eventual conflito de interesses. Posteriormente, técnicos do tribunal entenderam que não havia elementos que demonstrassem uso de recursos públicos federais nas festas. A PF ainda analisa o caso.
Nos Estados Unidos, especialmente em Nova York, um dos principais encontros teria ocorrido em paralelo à programação da Semana do Brasil, a Brasil Week de 2024. Foram jantares exclusivos, degustações de charutos, uísques, além de recepções em suítes de hotéis de luxo na Quinta Avenida. Os eventos incluíam hospedagens de alto custo, gastronomia sofisticada e programação reservada para convidados, com despesas que sempre alcançariam cifras milionárias.
Em Portugal, houve registro de encontros promovidos durante o tradicional fórum jurídico realizado em Lisboa, conhecido informalmente como “Gilmarpalooza”. Neste caso os registros teriam sido exclusivamente de encontros entre homens para degustação de bebidas e charutos. Tratava-se de empresários, advogados, magistrados e políticos em reuniões focadas em relacionamento institucional e networking.
Em Londres, durante fóruns jurídicos internacionais, Vorcaro também teria promovido recepções privadas destinadas a autoridades e convidados selecionados. Apesar de nem todas as reuniões estarem focadas em eventos íntimos ou sexuais, elas costumeiramente incluíam degustações de uísques, como Macallan, em espaços exclusivos, mantendo sempre o mesmo perfil reservado, mas de vigilância. O circuito de eventos teria se repetido durante cerca de cinco anos.
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