Teresina - Piauí sexta-feira, 14 de agosto 27°C
Destaque / Internacional

Venezuela oferece controle de petróleo e outros recursos aos EUA

Negociações entre representantes venezuelanos e autoridades dos EUA envolveram, durante meses, propostas de concessão de amplo acesso norte-americano aos setores de petróleo e mineração da Venezuela. A oferta teria partido do regime chefiado por Nicolás Maduro, no contexto da crise diplomática das acusações de narcoterrorismo contra o ditador e do aumento da pressão militar do governo de Donald Trump na região do Caribe.

Durante as tratativas, Maduro propôs aos Estados Unidos a participação de empresas norte-americanas em todos os projetos, presentes e futuros, de petróleo e ouro. O acordo previa ainda contratos preferenciais, redirecionamento das exportações de petróleo da China para os EUA, além da redução de acordos energéticos com empresas de China, Irã e Rússia, segundo fontes próximas às negociações.

A escalada militar dos EUA, o fim do diálogo diplomático e ameaças diretas à permanência de Maduro intensificaram a percepção, nos dois países, de que o objetivo final de Washington era a saída do ditador venezuelano. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional, liderou a campanha contra Maduro, o qual chamou de “fugitivo da Justiça norte-americana”.

Rubio também expressou desconfiança sobre a estratégia diplomática de Richard Grenell, enviado especial dos EUA. Apesar da postura rígida do secretário de Estado, há representantes do governo que acreditam no diálogo com a Venezuela, diante das mudanças inesperadas de Trump em assuntos internacionais, como Ucrânia, China e Irã.

O jornal norte-americano The New York Times (NYT) publicou, nesta sexta-feira, 10, um relato das tratativas entre os dois governos. A redação afirma ter ouvido mais de 12 representantes dos EUA e da Venezuela, que preferiram anonimato.

Nos bastidores, membros do alto escalão venezuelano, autorizados por Maduro, ofereceram concessões que praticamente eliminariam o tradicional nacionalismo de recursos herdado do chavismo. As conversas entre Grenell e representantes do governo venezuelano avançaram em pautas econômicas, mas não houve consenso sobre o futuro político de Maduro.

Cartazes, em inglês e espanhol, que oferecerem recompensa pela captura do ditador Nicolas Maduro | Foto: Reprodução

Em entrevista recente, o ministro das Relações Exteriores, Yván Gil, declarou que Maduro “não negociaria sua saída”. Desde que assumiu em 2013, o ditador tem reprimido manifestações democráticas e se manteve no poder depois de eleições contestadas por fraudes e repressão a protestos. Grenell, assim como o Departamento de Estado, a Casa Branca e autoridades venezuelanas, não se pronunciaram sobre o assunto.

Casa Branca diverge internamente sobre tratativas

Nos EUA, há divergências sobre o andamento das negociações. Um funcionário do governo afirmou que relatos sobre discussões a respeito de sanções e acesso ao mercado venezuelano “não refletem com precisão o que ocorreu”. Outros, porém, confirmaram conversas frequentes sobre uma possível normalização econômica e abertura do setor energético venezuelano a empresas norte-americanas.

Paralelamente, María Corina Machado, principal líder da oposição, apresentou em Nova York uma proposta que prevê ganhos de até US$ 1,7 trilhão em 15 anos para empresas dos EUA caso haja transição política. Ela recebeu o Nobel da Paz nesta sexta-feira, 10, pelo trabalho em prol dos direitos democráticos, conforme destacou o Comitê Norueguês do Nobel. A indicação ao prêmio veio de Marco Rubio.

Sary Levy, assessora de María Corina, avaliou que “os acordos de investimento oferecidos por Maduro nunca se concretizariam sem democracia, Estado de Direito e liberdades individuais”. Segundo ela, “o que Maduro oferece aos investidores não é estabilidade, é controle — controle mantido pelo terror”. Ela acrescenta que “a administração Trump demonstrou clara intenção de não cair nessas ofertas de soluções fáceis.”

A produção de petróleo venezuelano gira em torno de 1 milhão de barris diários, muito abaixo dos 3 milhões registrados no início do governo Chávez. A maior parte é destinada à China, exceto cerca de 100 mil barris por dia vendidos nos EUA pela Chevron. Analistas revelam que a produção poderia aumentar com investimentos externos, mas divergem sobre a viabilidade sob Maduro.

Em junho, María Corina Machado falou a empresários norte-americanos. “Nossa mensagem para as petroleiras é: queremos vocês aqui, certamente. Queremos vocês aqui não produzindo migalhas de alguns centenas de milhares de barris por dia. Queremos vocês produzindo milhões de barris por dia.”

María Corina Machado e o ex-candidato à Presidência da Venezuela Edmundo González | Foto: Reprodução/Instagram
María Corina Machado e o ex-candidato à Presidência da Venezuela Edmundo González | Foto: Reprodução/Instagram

O apoio dos EUA a uma mudança de governo na Venezuela, no passado, foi justificado por questões de direitos humanos. Porém, as atuais propostas venezuelanas para Grenell têm caráter econômico. Exigências similares, como acesso a recursos naturais, foram vistas em outras frentes, como Ucrânia, Iraque e Síria.

O acordo em discussão foi considerado pelos envolvidos como uma tentativa diplomática sem precedentes de garantir recursos naturais no segundo mandato de Trump. A possibilidade de retomada de negócios norte-americanos na Venezuela atrai interesse pelo volume de reservas de petróleo, gás, ouro, ferro, bauxita e coltan do país.

Maduro também buscou aproximação direta com empresas dos EUA para fortalecer sua posição com a Casa Branca. A estatal PDVSA concedeu à Chevron controle total de projetos conjuntos, e ambas analisaram a participação da empresa em outro grande campo petrolífero. Além disso, foram retomadas negociações com a ConocoPhillips para um possível acordo comercial.

Ao NYT, a Chevron declarou cumprir todas as leis aplicáveis dos EUA e da Venezuela. A ConocoPhillips não respondeu aos questionamentos. Segundo fontes ouvidas pelo jornal, as relações entre autoridades venezuelanas e executivos norte-americanos chegaram perto de um avanço diplomático em maio.

Gestos de boa vontade e novos acordos entre EUA e Venezuela

Também em maio, Richard Grenell facilitou o retorno de uma criança venezuelana aos pais deportados, o que foi tido como gesto de boa vontade. Em resposta, o governo de Maduro libertou um militar norte-americano detido e o entregou ao enviado especial dos EUA. Maduro aprovou a maioria dos termos econômicos do acordo discutido com Grenell.

Fontes próximas às negociações relataram que Maduro hesitou diante da exigência dos EUA de limitar vínculos com China, Rússia e Irã, mas concluiu que enfraquecer tais alianças seria o custo para evitar intervenção militar norte-americana. A Venezuela também suspendeu envios de petróleo a Cuba, agravando a crise energética no país.

Venezuela-lagunillas-18-03-2015-,An,Oil,Extraction,Pumps,Are,Seen,At,Oil,Fiel petróleo dólar irã israel
Campo de petróleo em Lagunillas, Venezuela | Foto: Reprodução/Shutterstock

Pequenas conquistas foram alcançadas por partidários do engajamento econômico com Maduro. Em julho, a Chevron teve restabelecida sua licença do Tesouro dos EUA para operar no país, revertendo restrição imposta meses antes pela administração Trump depois de intensa pressão em Washington.

Na última quarta-feira, 8, o Departamento do Tesouro emitiu licença que permite à Shell retomar operações na Venezuela. A empresa poderá produzir gás no campo Dragon, cuja produção será processada e comercializada a partir de Trinidad & Tobago. A Shell não comentou o caso, e autoridades do país caribenho não responderam.

Rubio declarou em setembro que os EUA assegurariam que o projeto Dragon “não beneficia significativamente o regime Maduro”. O ditador venezuelano aceitou que a Shell aplique recursos em projetos sociais no país, em vez de pagamentos diretos ao governo, para demonstrar que a Venezuela permanece aberta a investimentos internacionais.



Via Revista Oeste

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados.