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Saúde

Vacina de RNA mensageiro contra a influenza: o que muda com ela?

Na última semana, a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária dos Estados Unidos, aprovou a primeira vacina contra o influenza baseada na tecnologia de RNA mensageiro, ou mRNA, do mundo.

Chamada de mFlusiva (mRNA-1010), ela é produzida pela farmacêutica Moderna, a mesma criadora da vacina Spikevax contra a Covid-19.

Agora,  assim como aconteceu durante a pandemia de coronavírus, esta vacina já está causando polêmica, sobretudo em relação à fobia de mRNA que tem se espalhado pela população.

Para comentar especificamente sobre a mFlusiva, precisamos antes rever alguns conceitos que, mesmo parecendo óbvios, precisam ser reafirmados, já que o óbvio só é óbvio quando é demonstrado. Então, vamos lá:

O que é a influenza?

A influenza é uma doença viral, também chamada de , que é predominantemente respiratória e causa no mundo. Destes, a são graves.

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Ao todo, o quadro é responsável por 290 mil a 650 mil mortes respiratórias por ano. Além disso, entre crianças menores de 5 anos, 99% dos óbitos ocorrem em países em desenvolvimento.

O grupo mais comum de vírus da influenza é o chamado , mas os do grupo B também têm importância em Saúde Pública.

O seu nome vem do italiano e significa “influência”. O quadro recebeu esse apelido, pois, no passado, acreditava-se que ele era causado pela influência dos astros — algo, obviamente, já demonstrado como falso.

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Já o título “gripe deriva do verbo francês gripper, que significa “agarrar”— o que faz sentido se pensarmos em como nos sentimos agarrados quando temos influenza.

Como é a estrutura desse vírus?

O chamado vírus da influenza é um micro-organismo envelopado, de tamanho médio, com genoma formado por RNA e espalhado em oito pedaços diferentes dentro do seu “núcleo viral”.

Aliás, ele se parece bastante com o coronavírus, ainda que não tenha nenhum parentesco com ele.

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Do envelope do vírus da influenza brotam duas proteínas importantes: a hemaglutinina, chamada de H, que faz a ligação com as células a serem infectadas; e a neuraminidase, chamada de N, que ajuda o vírus a se libertar das células quando nasce.

É por isso que cada vírus da influenza tem um nome H e um sobrenome N, por exemplo: H1N1 e H3N2. Para ter imunidade, é preciso ter anticorpos específicos contra os tipos de H em questão.

Como é produzida a vacina atual contra a influenza?

Uma vacina é um medicamento baseado em substâncias biológicas que são derivadas de organismos causadores de doenças, como protozoários, vírus e bactérias.

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Essas substâncias previnem doenças ao agirem como antígenos, ou seja, estimularem o sistema imune para que ele se contraponha à infecção, mas sem a necessidade de uma contaminação real pelo patógeno em questão.

Assim, as vacinas servem para evitar totalmente uma doença, reduzir sua severidade e/ou diminuir a transmissão, dependendo do tipo de doença em questão.

Para isso, a tecnologia mais usada hoje contra a gripe utiliza-se ovos de galinha com embriões para a fabricação do imunizante.

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Nos ovos, o vírus da influenza se replica eficientemente. Depois de alguns dias, ele é coletado, inativado e preparado para ser envasado como vacina.

Acontece, porém, que o uso de ovos embrionados tem problemas logísticos, dada a necessidade de ovos estéreis e difíceis de produzir em grande quantidade.

Além disso, há problemas relacionados a possíveis reações em pessoas que têm alergia a ovos, além de questões sobre bem-estar animal, já que os embriões são mortos no processo.

Mesmo assim, esta é uma vacina confiável, eficiente e que salva milhões de vidas humanas anualmente.

O que é o RNA?

Todos conhecemos o famoso DNA, o ácido desoxirribonucleico, que vive dentro do núcleo das nossas células e é fundamental para a complexidade da vida na Terra.

Só que o DNA não fabrica proteínas diretamente. Para isso, ele usa uma molécula intermediária: o RNA (ácido ribonucleico), que tem uma estrutura química diferente e é formado a partir de instruções copiadas do DNA.

Essa molécula carrega a mensagem genética até as estruturas da célula responsáveis por produzir as proteínas — daí o nome mRNA, ou RNA mensageiro.

Como uma vacina de mRNA funciona?

Uma vacina de RNA é uma molécula de RNA sintética que carrega instruções para a síntese da proteína de um patógeno. Essa proteína é produzida pela própria célula de quem recebeu a aplicação, ao reconhecer a mensagem.

Ela tem duas partes importantes: uma fixa e uma variável. A parte fixa fica nas duas extremidades da fita de RNA e contém sinais moleculares que a tornam reconhecível como mensageira. Já a parte variável fica no meio e traz a sequência que codifica a proteína que servirá de antígeno.

Essa parte interna pode ser trocada de acordo com a doença — ou mesmo com uma nova variante de vírus que surja —, permitindo atualizar a vacina de forma muito mais rápida do que nos métodos tradicionais de produção.

Essa é sua grande vantagem. A outra é que esse tipo de vacina dispensa o uso de animais e até mesmo o cultivo de células, necessário em algumas vacinas convencionais.

O processo, em ordem, é assim: a molécula de RNA, protegida por uma nanopartícula lipídica (LNP), é injetada no paciente e captada pelas células; o mRNA leva à produção do antígeno, que sobe até a membrana celular e estimula o sistema imune.

Parte do receio em relação às vacinas de mRNA era a ideia de que elas deixariam o mRNA viral na célula quase para sempre — mas isso é falso.

O mRNA da vacina segue o mesmo comportamento do mRNA natural de vírus em infecções reais, ou seja, é degradado pela célula após cumprir sua função.

Outro ponto de desconfiança é o fato de essas vacinas terem sido desenvolvidas “tão rápido” — também um equívoco: foram anos de pesquisa até se chegar a essa plataforma, que agora, sim, permite adaptação rápida a novas doenças.

E sobre a vacina de mRNA para Influenza?

No artigo científico que conta como foram os testes da mFLUSIVA (mRNA-1010), os pesquisadores mostram que ela deu maior proteção do que as vacinas tradicionais.

Não houve mais ocorrência de reações graves do que as vacinas já em uso e ela só se destacou por ter mais reação local após infecção intramuscular.

A função de uma vacina de influenza é tanto diminuir a severidade dos sintomas quanto diminuir a transmissão por baixar a carga viral. Ela traz a proteína HA de três tipos de vírus da influenza, cada um em um mRNA.

Há alguns empecilhos, entretanto.

Um deles é que seu custo impede sua distribuição ampla para quem precisa. O outro é o monopólio da Moderna.

Mas tudo isso pode ser superado, como já demonstrado para tantas vacinas.

Portanto, que venham mais vacinas de mRNA baratas e que possam ser produzidas de modo descentralizado. Sua segurança já foi demonstrada além do óbvio.

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