A Uber notifica Boulos extrajudicialmente e eleva o tom de um embate que já vinha ganhando espaço no debate sobre aplicativos e política. A empresa reagiu a declarações públicas do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que sugeriu possível atuação irregular de agentes políticos em defesa dos interesses da plataforma.
O documento foi enviado na quinta-feira, 26 de março de 2026, e mira falas feitas por Boulos em dois conteúdos publicados recentemente. Para a empresa, as declarações avançam além da crítica política e passam a atribuir condutas potencialmente criminosas sem comprovação.
Uber reage a falas de Boulos
A notificação foi baseada em um vídeo publicado em 22 de março, no YouTube, e em uma live exibida no canal oficial do governo em 17 de março. Nesses materiais, Boulos afirmou que políticos e influenciadores poderiam estar “a serviço” das plataformas e levantou a hipótese de que haveria pagamento em troca dessa atuação.
A empresa sustenta que mantém políticas rígidas de compliance e integridade, com tolerância zero a práticas de suborno e corrupção. Ao mesmo tempo, afirma que divergência pública faz parte da democracia, mas não pode ser confundida com acusações criminais sem lastro.
Empresa pede provas e interrupção das acusações
No texto assinado por advogados, a Uber solicita que o ministro apresente provas, encaminhe detalhes das alegações, informe nomes de eventuais envolvidos e indique valores que sustentem as insinuações feitas contra a companhia. A empresa também pede que Boulos interrompa novas acusações que considera inverídicas e sem respaldo probatório.
A reportagem destaca que a notificação extrajudicial funciona como um aviso prévio e pode anteceder eventual medida judicial, embora não produza consequência legal imediata. Procurada, a assessoria de Boulos disse à Gazeta do Povo que não comentaria. À Folha de S.Paulo, o ministro afirmou que não se intimidaria com a iniciativa.
Tema dos aplicativos vira aposta política
O episódio acontece em meio à ofensiva de Boulos em defesa da regulamentação do mercado de aplicativos. Segundo a reportagem, o ministro tem tratado a pauta como uma das vitrines do governo em ano eleitoral e costuma associá-la a outras bandeiras trabalhistas, criticando a postura das empresas do setor.
Com a notificação, a disputa deixa de ser apenas política e entra também no terreno jurídico. O caso agora concentra atenção não só sobre o embate entre governo e plataformas, mas sobre os limites entre crítica pública, acusação sem prova e responsabilidade institucional no debate político.