A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) acaba de atualizar suas recomendações para o tratamento do diabetes tipo 2, condição com a qual convivem milhões de brasileiros. Dois pontos chamam a atenção na nova diretriz: um medicamento antigo e barato segue firme e forte nas prescrições e as combinações entre diferentes classes de remédios ganham relevância no manejo do problema.
O objetivo é um só: otimizar o controle dos níveis de glicose no sangue, fator que, uma vez desequilibrado, abre portas a complicações de curto e longo prazo, bem como cercar situações que podem piorar o diabetes e o estado de saúde geral, como excesso de peso.
Metformina segue com tudo
Apesar das inovações recentes no manejo da doença, representados sobretudo pelas canetas de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, quem continua com protagonismo na diretriz é um medicamento centenário, seguro e barato, usado há pelo menos 60 anos pelos médicos.
A metformina, comprimido diário que mitiga a resistência à insulina — fenômeno que impede o aproveitamento do açúcar no sangue, fazendo com que ele sobre na circulação —, segue como o fármaco de entrada no tratamento do diabetes tipo 2.
Estudos de longa data sedimentam seu papel no controle glicêmico, mesmo em pessoas que já convivem com comorbidades, como as A droga pode, ainda, ser indicada pelo médico para a contenção do pré-diabetes e de sua evolução para a enfermidade propriamente dita.
Cabe lembrar que, a despeito da prescrição de medicações, todo paciente precisa ser incentivado a mudar hábitos, incorporar atividade física à rotina e ajustar a alimentação — pontos ressaltados pelo documento da SBD.
Combinar é preciso
A questão é que, mesmo em pessoas recém-diagnosticadas, nem sempre as mudanças no estilo de vida e o uso da metformina sozinha são suficientes para domar a glicemia e os riscos.
E aqui a SBD convoca os profissionais que tratam o diabetes a vencerem a inércia terapêutica e, quando necessário, somar classes diferentes de medicamentos para melhorar as taxas de glicose e o estado de saúde em geral.
A palavra de ordem aqui é combinação. “E a diretriz organiza o tratamento em combinações: duplas, triplas e até quádruplas, a depender da necessidade do paciente”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.
A escolha dos remédios se pauta, assim, pela efetividade do controle glicêmico e pela atuação em outros fatores de risco, como doença cardiovascular, presença de doença renal ou problemas no fígado.
Mas como assim? Dois, três, quatro medicamentos? “A ideia é agir em diversos mecanismos do organismo descompensados no diabetes”, resume Couri.
Alguns exemplos ajudam a entender. Pessoas com diabetes e obesidade, por exemplo, podem se beneficiar da conjugação entre metformina e análogos de GLP-1, como as canetas de Ozempic e Mounjaro e os comprimidos de Rybelsus.
Indivíduos com a glicose desequilibrada e gordura no fígado, por sua vez, tirariam proveito de combinações envolvendo a semaglutida, por ora o único tratamento medicamentoso aprovado para esteatose hepática no país.
Quando existe doença renal crônica na parada, unir metformina a um inibidor de SGLT2, comprimido que aumenta a excreção de açúcar pela urina, é uma opção, que pode ser alavancada com a introdução concomitante do análogo de GLP-1.
A nova diretriz enfatiza, assim, uma abordagem personalizada, agregando, quando necessário, drogas com papéis diferentes para ter resultados mais sinérgicos e eficazes.
Nesse processo, é preciso pesar contraindicações, reações adversas e até efeitos esperados ou inesperados. A metformina, por exemplo, sequestra vitamina B12, o que pode cobrar uma eventual suplementação.
Do mesmo modo, é fundamental traçar estratégias entre médico e paciente para que o sujeito com diabetes tipo 2 se engaje realmente no tratamento, tomando os remédios conforme o roteiro estabelecido e realizando as demais mudanças de hábito.