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Quando o crédito cooperativo se torna oportunidade

Quando o crédito cooperativo se torna oportunidade

Empreender no Brasil continua sendo um desafio. Dados do IBGE apontam que cerca de 20% das empresas encerram as atividades antes de completar um ano de funcionamento. Levantamentos do Sebrae mostram que aproximadamente 60% dos negócios não chegam ao quinto ano de vida.

Apesar desse cenário, milhões de brasileiros seguem apostando. Em 2025, o país registrou mais de 5 milhões de novos negócios, segundo dados compilados pelo Sebrae com base em registros da Receita Federal. O empreendedorismo feminino teve participação expressiva, respondendo por cerca de 42% das novas empresas abertas no período.

Por trás desses números existem experiências marcadas por dificuldades, perdas, recomeços, persistência e falta de crédito. Histórias que ajudam a explicar por que tantas pessoas continuam apostando no próprio negócio, mesmo diante de obstáculos econômicos e pessoais.

A Gazeta do Povo reuniu trajetórias de quatro mulheres (veja a seguir) que vivem em diferentes regiões do país e que encontraram no empreendedorismo e no crédito cooperativo uma forma de reconstruir suas vidas. Em comum, elas enfrentaram situações extremas: guerra, pobreza, doença, luto e desafios à inclusão.

Também tiveram acesso a um programa chamado Capital Incentivo, iniciativa da cooperativa de crédito Sicredi que, em 2025, selecionou 130 pequenos empreendedores para receber apoio financeiro e orientação em gestão.

“Mais do que os recursos recebidos, as histórias revelam como pequenos negócios podem se tornar instrumentos de transformação”, explica Manfred Alfonso Dasenbrock, representante da instituição financeira no Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito.

Das pedras à culinária

Quando fala sobre o passado, Lúcia do Amaral Silveira mostra as mãos. Aos 36 anos, elas ainda guardam marcas de uma rotina que começou muito distante do universo do empreendedorismo.

Nascida em Planalto, no sudoeste do Paraná, ela trabalhou durante cinco anos em uma pedreira. O serviço exigia força física para quebrar e assentar pedras em calçamentos, em uma fase em que as oportunidades eram escassas.

Depois vieram outras ocupações: foi frentista, borracheira e desempenhou diferentes atividades para complementar a renda. A virada aconteceu quando percebeu que suas habilidades na cozinha poderiam se transformar em fonte de sustento.

Cursos oferecidos pela prefeitura ajudaram a desenvolver conhecimentos básicos e abriram caminho para a abertura da Lanches LV, panificadora e lanchonete instalada no centro da cidade.

Com o tempo, o negócio cresceu. Além do estabelecimento fixo, a família passou a operar uma Kombi adaptada para a venda de pastéis e caldo de cana. O empreendimento se transformou na principal fonte de renda da família e envolve o marido e as filhas.

Lúcia, contudo, já cogitou encerrar as atividades. Custos elevados, dificuldades financeiras e problemas de saúde do marido colocaram em dúvida a continuidade do negócio.

Foi nesse contexto que ela participou do projeto oferecido pelo Sicredi. O valor recebido foi utilizado na compra de uma assadeira industrial e de equipamentos para a produção de caldo de cana, permitindo ampliar a capacidade produtiva e melhorar o faturamento.

“Para muita gente pode parecer um valor pequeno, mas fez diferença em um momento decisivo. Crescemos e continuamos trabalhando”, relata.

Das mãos calejadas de quem quebrava pedras, Lúcia vive o sonho de ganhar a vida com a delicadeza da culinária. (Foto: Lúcia do Amaral Silveira/Arquivo Pessoal)

Memórias de guerra em joias

A história de Myria Tokmaji começa a 11 mil quilômetros do Paraná. Em Aleppo, na Síria, ela viveu um dos períodos mais violentos da guerra civil que devastou o país. Durante dois anos, enfrentou bombardeios e escassez.

Foi nesse ambiente de insegurança que surgiu uma habilidade que mais tarde mudaria sua vida. Sem acesso regular à eletricidade, Myria aprendeu crochê com a avó para ocupar o tempo e aliviar o medo provocado pela guerra.

O que era apenas uma forma de enfrentar a rotina de conflitos se transformaria em instrumento de sobrevivência. Há 12 anos, ela deixou a Síria praticamente com a roupa do corpo e buscou refúgio no Brasil, estabelecendo-se em Curitiba.

Os primeiros meses foram marcados por dificuldades típicas enfrentadas pelos refugiados: barreiras culturais, idioma e necessidade de gerar renda. Myria começou vendendo peças artesanais em frente a igrejas para pagar despesas básicas e garantir alimentação.

A experiência despertou a vontade de construir algo maior. Filha de joalheiro e formada em design gráfico, ela decidiu unir referências culturais à atividade artesanal.

Criou a Ebla Joias, marca que utiliza elementos inspirados na cultura síria e árabe. Bordados tradicionais, marchetaria, símbolos históricos e inscrições em aramaico — língua associada à tradição cristã oriental — integram suas peças.

Cada coleção carrega fragmentos de sua história pessoal e da migração forçada. A madrepérola utilizada em suas criações simboliza a ligação afetiva com o país natal.

Além da atuação como empreendedora, Myria participa de atividades culturais e educacionais. Tornou-se palestrante, musicista e defensora da integração de refugiados à sociedade brasileira.

Segundo ela, o apoio recebido por meio do crédito cooperativo ajudou a fortalecer a imagem da marca e ampliar a estrutura do negócio. “Foi importante perceber que as pessoas acreditavam no potencial do meu trabalho e da minha história”, afirma.

Acolher quem ficou de fora

Em Franca, no interior de São Paulo, a origem de um negócio está ligada às dificuldades enfrentadas dentro de casa. Aos 50 anos, Denize Rodrigues Magalhães é mãe de Felipe, de 28, diagnosticado com autismo severo, surdez profunda e limitações motoras.

Durante anos, ela encontrou dificuldades para realizar algo simples: cortar o cabelo do filho. A falta de preparo de profissionais e a ausência de ambientes adaptados transformavam uma atividade rotineira em uma experiência desgastante.

Com o passar do tempo, Denize percebeu que outras famílias enfrentavam situações semelhantes. Foi o estopim para a criação de um serviço especializado, voltado para pessoas com deficiência, acamadas, autistas e com dificuldades de locomoção. Assim nasceu o Acolher Cabeleireira Inclusiva.

Antes de colocar a ideia em prática, ela investiu em formação profissional. Fez cursos, estudou técnicas e aprendeu Libras. Muitos atendimentos acontecem na residência dos pacientes e exigem tempo, paciência e adaptação às necessidades individuais.

Em alguns casos, ela passa horas conquistando a confiança de uma pessoa que há meses ou anos não conseguia cortar o cabelo — uma atividade que vai além da estética.

“Existem pessoas que passam muito tempo sem conseguir acessar serviços básicos. Quando isso acontece, autoestima e qualidade de vida também são afetadas”, explica.

O recurso recebido no Capital Incentivo foi utilizado na ampliação da estrutura física do projeto, permitindo alcançar mais famílias. Denize reconhece que a iniciativa surgiu de uma experiência pessoal, mas resultou em um serviço capaz de atender a uma demanda pouco explorada e frequentemente invisibilizada.

Recomeço após o câncer e o luto

Duas experiências mudaram completamente a trajetória de Helena Lima Soares: o tratamento contra o câncer de mama e o cuidado com os sobrinhos após a morte da irmã.

Nascida no norte do Paraná, ela tinha apenas 29 anos quando precisou conciliar os deslocamentos para a radioterapia com as exigências da nova configuração familiar. Em meio ao luto, assumiu a criação de três crianças órfãs. A mudança trouxe desafios emocionais e financeiros.

Tentando oferecer conforto a uma das sobrinhas, ela começou a produzir laços e acessórios artesanais. O que surgiu como um gesto de carinho se transformou em uma atividade econômica.

Sem experiência empresarial, Helena aprendeu sozinha. Assistia a vídeos, fazia testes e utilizava os poucos recursos disponíveis para comprar materiais. A mesa de casa se transformou em oficina, estoque e ponto de produção.

Cada venda representava a possibilidade de reinvestir e garantir renda complementar. O crescimento foi gradual. Os produtos passaram a alcançar novos clientes e a atividade ganhou características de um empreendimento formal.

Mas o projeto cooperativo foi a chave para sua profissionalização. O recurso financeiro ajudou na compra de equipamentos e materiais. Já as orientações permitiram aprimorar a gestão do negócio.

“O dinheiro foi importante, mas aprendi a administrar melhor e enxergar o empreendimento como empresa”, conta, ao afirmar que o negócio se tornou fonte de estabilidade em um período marcado por profundas transformações.

Vidas se transformam quando empreendedorismo avança com cooperação. (Foto: Juliet manfrin/Gazeta do Povo/ChatGPT)

A economia em um cenário maior

Apesar de origens e trajetórias diferentes, as histórias têm uma característica comum ao empreendedorismo brasileiro: todas começaram por necessidade. “Nenhuma surgiu de um planejamento sofisticado ou de grandes investimentos iniciais”, reforça a economista e especialista em crédito empreendedor Regina Martins.

O acesso à orientação técnica, à educação financeira e à inclusão produtiva ajuda a aumentar as chances de sobrevivência das empresas de pequeno porte, avalia o presidente do Sistema Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), José Roberto Ricken.

Ele ressalta que trajetórias distintas podem transformar dificuldades em oportunidades. “Essa é a função social do cooperativismo de crédito”.

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