Vômitos frequentes, falta de apetite, perda de peso, apatia, desorientação e até convulsões. Essa pode ser a evolução de uma das doenças hepáticas mais comuns entre cães, o shunt (ou desvio) portossistêmico.
A condição leva esse nome por ser causada por um desvio vascular que não permite que o fígado filtre o sangue adequadamente, levando ao acúmulo de toxinas que causam prejuízos a todo o corpo do animal — principalmente aos sistemas nervoso e digestivo.
O acúmulo de amônia é o maior causador de problemas nessa doença. “A amônia deriva da degradação de proteínas presentes na naturalmente na alimentação. O fígado é o órgão responsável por transformá-la em ureia, que, então, é filtrada pelos rins e eliminada na urina”, explica Raquel Pedreira, médica veterinária, pesquisadora e gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Nutrição Clínica da PremieRpet, marca brasileira de rações.
“No entanto, quando o fígado não consegue fazer esse processo, a amônia circula pelo organismo e pode chegar ao cérebro, prejudicando o funcionamento do neurônios. Esse quadro é chamado de encefalopatia hepática e pode ser fatal aos pets“, ressalta.
Segundo um estudo belga, até 0,6% dos cães desenvolvem a doença — ou seja, cerca de um a cada 167. Raças pequenas, como Yorkshire, Maltese e Pug, são as que mais costumam apresentar o problema — ainda que cães de grande porte também possam tê-lo, mas são casos menos comuns.
Fórmula inédita
Para minimizar os sintomas e ajudar a tratar esses pacientes, a PremieRpet desenvolveu uma ração feita à base de soja e enriquecida com vitaminas que leva a uma menor produção da amônia, ajudando a melhorar o quadro clínico desses animais.
Chamado Nutrição Clínica Hepato para Cães Pequenos, o produto foi lançado em agosto e deve chegar às lojas em breve, após cinco anos de desenvolvimento.
“O que vimos é que a digestão de proteínas de origem animal leva a uma maior produção de amônia do que a de origem vegetal”, explica Pedreira, que apresentou dados sobre a ração no 30º Congresso da Sociedade Europeia de Nutrição Veterinária e Comparativa (ESVCN).
A matéria-prima passou pelo processo de hidrólise, que consiste na quebra de ligações químicas presentes na proteína para facilitar o aproveitamento dos aminoácidos — moléculas fundamentais para várias funções do nosso corpo, da produção de energia ao fortalecimento dos músculos.
“Além disso, a fórmula é enriquecida com ômega 3, um ácido graxo que ajuda a diminuir inflamações, e vitaminas E e C, que têm ação antioxidante”, lista a médica-veterinária.
Estudo clínico
Para chegar ao produto final, os pesquisadores da PremieRpet avaliaram 35 cães, sendo 20 deles com desvio portossistêmico e 15 saudáveis.
Entre os cachorros adoentados, observou-se que após 60 dias de dieta com a ração, o escore clínico (escala usada para mensurar a gravidade do quadro) diminuiu de uma média próxima a 7 para uma abaixo de 3, melhorando sintomas gastrointestinais e neurológicos.
As concentrações de ácido úrico, que costumam ser altas em cães com a hepatopatia, também diminuíram.
Outro sinal de melhora foi o ganho de peso observado em filhotes e adultos. Os cães mais novos ganharam cerca de um quilo no período, enquanto os adultos tiveram um aumento mais modesto, de cerca de 100 gramas.
Boas novas aos filhotes
Um diferencial da fórmula é que ela é a primeira do mundo que também pode ser usada filhotes com desvio portossistêmico. “O maior desafio técnico consistiu em conciliar a alta necessidade de proteína para o crescimento do filhote com a restrição proteica necessária para controlar a doença hepática“, explica Pedreira.
A ração pode ser prescrita por médicos-veterinários para filhotes a partir das 14 semanas de vida. “O manejo nutricional possibilita que o filhote se desenvolva até que tenha o porte adequado para uma eventual cirurgia de correção do desvio vascular, ou pode ser usada como como parte do tratamento contínuo”, ressalta a especialista.