O plano do governo Lula pelo controle efetivo da mineradora Vale deu um passo importante na última quarta-feira (22), com a eleição de Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o “Ollie”, para presidente do Conselho de Administração da companhia.
A ascensão de um aliado de Lula ao posto mais alto da governança da empresa acendeu alertas no setor privado para o risco de aparelhamento ideológico de uma das maiores exportadoras do país.
A manobra governamental também reativou o sinal de alerta entre parlamentares de oposição no Congresso Nacional porque visa o controle administrativo da mineradora, o que abre espaço para indicações políticas na Vale.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a principal preocupação é que uma maior influência política leve a companhia a priorizar projetos alinhados aos interesses do governo, ainda que ofereçam menor retorno econômico aos acionistas.
Na prática, isso significaria substituir decisões pautadas por critérios técnicos e de rentabilidade por objetivos de natureza política, o que pode afetar a eficiência operacional da empresa, alterar sua política de investimentos e aumentar a percepção de risco entre investidores nacionais e estrangeiros.
O cientista político Elias Tavares, professor de pós-graduação da Damásio Educacional, explica que a tentativa de interferência estatal no ecossistema de uma empresa privada desestabiliza o ambiente de negócios e atinge diretamente a confiança de investidores institucionais e fundos globais.
“Vale é uma empresa privada e possui mecanismos de governança mais fortes. Mas isso não significa que ela esteja completamente blindada. Sempre que existe a percepção de influência política sobre uma grande empresa, o mercado reage e passa a acompanhar esse movimento com muito mais atenção”, explica.
Nos bastidores, a oposição já articula abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com o objetivo de investigar os abusos e a pressão regulatória exercida pelo governo Lula sobre a mineradora.
Fantasma do aparelhamento ronda a Vale
O avanço sobre a mineradora, privatizada na década de 1990, ocorreu por meio do uso estratégico da participação do Fundo de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), que detém 6,8% das ações da Vale.
O Planalto pressionou pela substituição do antigo presidente do conselho, Daniel Stieler, visto por interlocutores governistas como um obstáculo às pretensões de Lula.
Fragilizado pelas investidas do acionista estatal e sem apoio unânime entre os conselheiros independentes, Stieler renunciou no dia 6 de julho, abrindo caminho para a vitória do indicado petista.
Com o Conselho de Administração sob influência do Planalto, o passo seguinte do governo tende a ser forçar a substituição do principal executivo (CEO) da mineradora.
O cargo é ocupado por Gustavo Pimenta, profissional bem avaliado pelo mercado financeiro e que chegou ao comando da companhia com base em critérios técnicos, sem dependência de apadrinhamento político.
O principal receio dos investidores e congressistas de oposição é que a maior produtora mundial de minério de ferro seja submetida a uma política de governança semelhante à adotada na Petrobras ao longo dos governos petistas dos anos 2000.
Naquela ocasião, a estatal petrolífera foi transformada em balcão de negócios políticos, trajetória que culminou nas revelações desvendadas pela Operação Lava Jato no maior caso de corrupção já registrado no Brasil: o “petrolão”.
O especialista em Mercado Financeiro e sócio da QR Capital, Felippe Hermes, ressalta que a Vale é uma gigante corporativa operando em setores “sensíveis ao regulador: mineração, transporte e energia”. Segundo ele, como as agências reguladoras brasileiras enfrentam graves limitações orçamentárias, “é fácil pressionar a Vale”, concluiu.
A estratégia de tomar a empresa “por dentro”
O movimento registrado em 2026 marca a conclusão de um plano que sofreu percalços no início do mandato de Lula. Em 2024, o Planalto tentou emplacar o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega na presidência executiva da Vale.
O plano do governo ruiu após forte rejeição dos acionistas privados e do mercado financeiro, que apontaram a falta de enquadramento técnico de Mantega às exigências do estatuto corporativo da companhia.
Naquela ocasião, a simples especulação de interferência política provocou turbulência imediata na Bolsa de Valores (B3). Em um intervalo de apenas dez dias, em janeiro de 2024, a Vale perdeu R$ 14,4 bilhões em valor de mercado, evidenciando o temor de pulverização do capital dos minoritários.
Impossibilitado de alterar diretamente a legislação, como fez na Lei das Estatais para facilitar nomeações na Petrobras, o Executivo encontrou na Previ o atalho necessário para contornar o estatuto e impor a vontade política “por dentro”.
Segundo Felippe Hermes, a sujeição da mineradora ao modelo estatal, como o governo pretende, trará prejuízos à eficiência operacional da companhia.
“A Vale será pressionada a entrar em projetos pouco úteis para o acionista e pretensamente úteis para o governo. Na mesma visão que já deu errado inúmeras vezes pois ignora o conceito de produtividade como indispensável ao desenvolvimento”, avalia Hermes.
Ingerência na governança e pressão de bastidor
A substituição de Daniel Stieler por Ollie expôs os bastidores da pressão do governo Lula sobre a Vale. Em junho de 2026, a Previ formalizou um pedido de convocação de Assembleia Geral Extraordinária (AGE) com o objetivo explícito de destituir Stieler. Sem sustentação política diante do maior bloco acionário articulado, a renúncia do executivo foi precipitada antes mesmo da realização da assembleia.
Com a vacância no cargo, a articulação política migrou diretamente para a Esplanada dos Ministérios. Segundo a CNN Brasil, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, teria atuado diretamente junto aos conselheiros da mineradora para assegurar os votos necessários em favor de Ollie. O governo nega qualquer atuação direta de seus ministros nas decisões internas da companhia.
A Gazeta do Povo pediu esclarecimentos aos ministérios de Minas e Energia e de Relações Institucionais, além da liderança do governo na Câmara dos Deputados. Apenas a assessoria do líder do governo, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), respondeu, mas informou que o parlamentar não se manifestaria sobre o assunto.
Alocações de caixa e os riscos ao investidor
Garantida a presidência do Conselho de Administração, o raio de ação do governo Lula se espalha pela Vale e alcança as competências mais estratégicas da companhia: aprovação do plano de investimentos (Capex), alocação de capital para projetos de infraestrutura local, repactuação de indenizações ambientais e a política de distribuição de dividendos, por exemplo.
A apreensão dos acionistas está na possibilidade de retenção de lucros para o financiamento de obras de interesse do governo federal, em detrimento do retorno financeiro aos investidores e da eficiência do negócio.
Para Elias Tavares, embora o estatuto da Vale preveja travas de proteção, a presença de uma liderança alinhada ao Planalto mantém a desconfiança em patamares elevados.
“Politicamente, esse receio existe porque o histórico brasileiro faz com que qualquer sinal de influência política em grandes empresas desperte preocupação. O mercado sempre teme que uma influência maior no conselho possa, no futuro, abrir espaço para indicações mais políticas do que técnicas”, disse.
Articulação por CPI ganha força na Câmara
As investidas do Planalto sobre o setor privado já renderam discursos duros da oposição no Congresso Nacional. Durante as primeiras movimentações do governo sobre a Vale, no início de 2024, o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) discursou na tribuna da Câmara para denunciar o uso de cobranças regulatórias e de fundos de pensão como instrumentos de pressão.
“A interferência do governo Lula na Vale é inaceitável. Trata-se de uma empresa privada, privatizada nos anos 90, e que não pode ficar sujeita ao assento e ao loteamento político do PT. Usar a Previ e o poder regulatório do Estado para chantagear o Conselho da Vale atenta contra a segurança jurídica e afugenta qualquer investidor do Brasil”, disse o parlamentar na ocasião.
No mesmo tom, o deputado Evair de Melo (Republicanos-ES) vem reiterando a necessidade de o Congresso exercer o papel fiscalizador para conter abusos do governo sobre o setor produtivo, sustentando que a ingerência estatal compromete o ambiente de negócios e afugenta o capital externo.
“O papel do Congresso Nacional é fiscalizar rigorosamente qualquer tentativa do Poder Executivo de influenciar o setor privado por vias transversais. O Brasil precisa de regras claras, respeito à governança corporativa e segurança jurídica para atração de investimentos”, disse em pronunciamento no Congresso.
A liderança da oposição na Câmara confirmou à reportagem que o requerimento de abertura da CPI da Vale e a coleta final de assinaturas serão pautados nas reuniões da bancada logo após o recesso parlamentar. Procurados, os deputados Marcel van Hattem e Evair de Melo não responderam aos questionamentos até a publicação desta matéria.