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Saúde

O que pais devem saber sobre Discord, rede que acumula violações contra adolescentes

A rede social Discord suspendeu, por tempo indeterminado, as transmissões ao vivo e o compartilhamento de vídeos no Brasil, após determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Segundo o órgão, a medida se baseia em “evidências robustas” de que a plataforma não adota medidas “suficientes” para reduzir a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos relacionados à violência, automutilação e suicídio.

A decisão ocorre após a repercussão do caso de uma jovem de 13 anos que tirou a própria vida induzida por uma transmissão ao vivo de grupo extremista na rede.

Aumento nas denúncias de violações

Na resolução, a ANPD menciona que o caso faz parte de um cenário mais amplo e cita dados que recebeu da plataforma SaferNet, Organização Não Governamental (ONG) que atua no combate a crimes na internet.

A organização afirma que mais de links do Discord já foram denunciados aos seus canais desde . E, nos deste ano, houve aumento de em comparação com o mesmo período de que já registrava um número maior que o de .

A própria equipe moderadora do Discord já teve de derrubar diversos links por infrações aos direitos do público infanto-juvenil. É o que mostram informações do DSA Transparency Database, banco que reúne dados das moderações feitas por grandes plataformas digitais na União Europeia.

Entre, quando apareceu o primeiro registro da rede social no banco, e de 2026, das decisões de moderação da plataforma — cerca de — foram explicadas como “”.

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Dentro desse grupo, o termo “material de abuso sexual infantil” foi o mais citado nas decisões, aparecendo 4,37 milhões de vezes (17% de todas as medidas da categoria). Já o “compartilhamento de imagem não consensual” apareceu em 8,4%.

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Em nota, o Discord afirmou que a caracterização feita pela ANPD não reflete o que é a plataforma nem os investimentos da empresa em segurança.

A companhia também disse ter investigado o servidor envolvido na morte da jovem e o removido antes do ocorrido. Agora, também afirma estar em diálogo com a agência para restabelecer os seus recursos de vídeo.

Mas, para além dos números e a polêmica, afinal, o que é o Discord, quando a plataforma pode oferecer riscos a adolescentes e o que os pais podem fazer para acompanhar esse uso?

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O que é o Discord?

O Discord é uma plataforma de comunicação originalmente associada ao público gamer (jogadores de videogames). No entanto, hoje ela reúne comunidades sobre os mais diversos assuntos.

A plataforma permite usuários a partir dos 13 anos e, diferentemente de redes como Instagram ou TikTok, sua estrutura não é baseada principalmente em um feed. Trata-se de um espaço organizado em servidores, que funcionam como comunidades.

Dentro deles, existem diferentes canais, que podem ser de texto, voz ou vídeo. Nos canais de texto, os usuários podem compartilhar mensagens, imagens, links e arquivos. Nos canais de voz e vídeo, conversam em tempo real, fazem transmissões (as lives) e compartilham a tela.

Entre os servidores, há espaços públicos e recursos de comunicação privada, onde conversas só podem ser visualizadas pelos membros.

Outra característica importante é que cada servidor pode estabelecer suas próprias regras e contar com administradores e moderadores próprios, que podem expulsar ou banir usuários.

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Isso significa que a moderação não fica totalmente ou somente a cargo do Discord. Cada comunidade conta com sua própria administração.

Interface do Discord, com a lista de servidores à esquerda, os diferentes canais dentro do servidor selecionado, o painel central exibindo as mensagens do canal ativo e a lista de usuários conectados à direita. (Artigo Discord Revelado/UFMG/Reprodução)

Por que o Discord preocupa a ANPD?

O problema, segundo especialistas, não está na rede social em si, mas na sua capacidade de impedir situações de risco.

Segundo a ANPD, a combinação entre espaços públicos e privados na rede pode aumentar a exposição de crianças e adolescentes a situações como assédio e aliciamento.

Um grande levantamento, feito por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ajuda a dimensionar essa complexidade.

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Batizado de Discord Revelado, o estudo coletou mais de 2 bilhões de mensagens trocadas em servidores públicos do Discord.

Apesar de ainda não divulgar o conteúdo das conversas, o documento sugere que o modelo de moderação descentralizado e flexível da plataforma pode “favorecer a formação e a manutenção de comunidades extremistas e de ódio”.

Outros especialistas concordam com a preocupação. “Como não existe uma regulação, é como se não existisse ninguém olhando o que está acontecendo ali”, resume a educadora Sheylli Caleffi, agente na área de proteção infantil no meio digital.

Além disso, o levantamento diz que diálogos sobre a automutilação e comportamento suicida são amplamente documentados, particularmente entre os grupos demográficos mais jovens.

A propósito, a própria ANPD afirma ter identificado casos graves em que as lives foram utilizadas para induzir essas práticas, além de violência, assédio e maus-tratos de animais.

Outro ponto de preocupação mencionado pela agência é a criptografia de ponta a ponta. Desde março de 2026, algumas comunicações de áudio e vídeo do Discord são protegidas por esse recurso, o que impede a plataforma de acessar diretamente as conversas enquanto elas acontecem.

Segundo a SaferNet, os dados da DSA Transparency Database mostram que o número de moderações feitas pelo próprio Discord caiu 65% desde setembro de 2025, período que coincide com demissões anunciadas pela empresa, incluindo em áreas de confiança e segurança.

A organização ressalva que os dados não permitem estabelecer uma relação direta entre os cortes e a redução. Ainda assim, afirma que “o movimento levanta dúvidas sobre a capacidade de moderação da plataforma”.

Por isso, para a diretora da SaferNet, Juliana Cunha, psicóloga infanto-juvenil e especialista em segurança digital, ainda é cedo para avaliar os efeitos da decisão da ANPD, mas a medida é um passo importante.

“Estamos falando de um fenômeno complexo. Por isso, mais do que resolver o problema, essa é uma resposta que visa obrigar a plataforma a se adequar e ter ferramentas mais eficazes”, explica.

O que pais podem fazer

Apesar do cenário, os especialistas reforçam que estar no Discord não significa, necessariamente, que o adolescente está em risco. Afinal, a plataforma é, em tese, um espaço para conversar com amigos, jogar, participar de comunidades e fóruns e até desenvolver habilidades sociais.

“Ou seja, é importante lembrar que a internet também é um instrumento que gera pertencimento e redes de apoio importantes”, diz o psiquiatra e psicoterapeuta Gabriel Okuda, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Isso é especialmente impactante para os adolescentes, fase em que as relações com os pares ganham maior importância e podem se sobrepor, em alguns aspectos, à influência de pais e professores.

Por isso, os especialistas ressaltam que a proibição não é o melhor caminho. Mas isso não significa permitir acesso ilimitado.

Assim, a supervisão deve ser constante e é importante manter o diálogo, com laços de confiança, estabelecer limites individualizados e acompanhar como o jovem utiliza a rede social.

“Pode ser assustador quando casos graves acontecem, mas é importante não agir com pânico, porque ele não é um bom conselheiro parental”, avalia Cunha.

Segundo ela, pais devem se interessar genuinamente pela vida dos filhos e ser figuras de confiança. “Para que os adolescentes busquem ajuda em situações de incômodo”, diz.

Os pais devem investir, também, em educação sobre os riscos do mundo digital, além de estimular atividades fora das telas, como hobbies e esportes.

Ademais, para Caleffi, o enfrentamento da violência no ambiente digital também envolve conversas, desde cedo, sobre intimidade e limites relacionados ao próprio corpo. “Enfrentar a violência não é apenas regular as redes; é educar a população e as crianças”, diz.

Para a psicóloga infanto-juvenil Luiza Brandão, especialista em impacto das mídias na infância, proteger crianças e adolescentes na internet deve seguir o mesmo princípio da proteção no mundo físico. “Assim como nas ruas, eles não podem estar sozinhos no mundo digital”.

Segundo Brandão, embora o controle se torne mais desafiador à medida que os jovens crescem e buscam mais autonomia, faz parte do papel dos responsáveis ajudá-los a permanecer em ambientes seguros.

Para esse cuidado, limites podem ser pensados de acordo com o perfil de cada adolescente.

A pergunta, segundo Cunha, não deve ser apenas “quanto tempo meu filho passa no Discord?”, mas também “o que ele está fazendo ali?”. “O adolescente está fazendo amigos e desenvolvendo habilidades sociais ou está usando aquele ambiente para se isolar e ficando mais vulnerável à ansiedade?”, especula a especialista.

Sinais de algo está errado

Quando o assunto é criança e adolescente na internet, os riscos podem aparecer de várias formas. Para facilitar essa divisão, especialistas costumam falar nos chamados “4 Cs”: conteúdo, contato, conduta e contrato.

  • Conteúdo é o que aparece na tela e pode incluir materiais violentos ou sexualizados;
  • Contato envolve a interação com pessoas mal-intencionadas;
  • Conduta tem a ver com comportamentos prejudiciais, como cyberbullying;
  • Já o contrato entra quando há acordos digitais pouco transparentes, fraudes ou publicidade enganosas.

“Quando falamos de situações extremas, podemos ter o agressor, a vítima e também uma plateia. Então, mesmo que não se envolva diretamente, a criança pode ter acesso a esse tipo de conteúdo e fazer contato“, explica Caleffi.

Seja como for, a exposição a esses riscos pode pesar na saúde mental, favorecendo ansiedade, estresse e sofrimento emocional. Por isso, segundo os especialistas, a atenção dos pais deve aumentar diante de mudanças de comportamento, ainda que sutis.

Alguns sinais importantes são aumento do isolamento, prejuízos na escola, dificuldade para controlar o tempo de uso ou utilização frequente das telas durante a madrugada.

Outros pontos de preocupação são alterações de humor, irritabilidade, tristeza e mudanças no padrão de sono. Também são sinais de alerta a preocupação excessiva com notificações e o hábito de esconder conversas ou dispositivos.

É nessa hora que os laços de confiança, sugeridos pelos especialistas, devem entrar em ação. Além disso, identificados problemas, é preciso avaliar a necessidade de buscar ajuda profissional.

Já de volta ao Discord, especificamente, para Brandão, uma possível proibição do aplicativo no Brasil não eliminaria os riscos, já que suas funcionalidades poderiam ser reproduzidas em outras plataformas.

“A gente não pode ter a expectativa de que proibir um serviço específico resolva o problema”, afirma. Por isso, a importância dos papos em família, mas, sobretudo, da regulação das redes. “Apesar dessas limitação, não se pode abrir mão de medidas públicas para fiscalizar as plataformas e coibir práticas nocivas”, diz.

Onde buscar ajuda

Se você ou alguém próximo estiver passando por uma crise emocional ou tiver pensamentos suicidas, não precisa enfrentar isso sozinho. Procure uma pessoa de confiança e busque ajuda profissional.

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Também é possível conversar pelo chat do CVV.

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